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Mais Higienópolis: é burrice, mas há método

Gente "alternativa" faz abaixo assinado por... metrô

por Flavio Morgenstern*

Gente "diferenciada" faz abaixo assinado por... metrô?

 

A alteração do projeto da outra estação de metrô de Higienópolis causou tal celeuma que atingiu o estágio metalingüístico de toda discussão febril: discute-se mais a discussão em si, do que os motivos que geraram a discussão. A partir desta premissa (e do que já escrevi aqui e o André aqui), pode-se traçar alguns pontos curiosos que garantem a diversão de todas as pessoas que passam longas horas despejando bobagem na internet.

Mídia golpista e mídia diferenciada

Não há referência à Folha de S. Paulo no blog de Paulo Henrique Amorim sem o estribilho de que não se deve ler a Folha porque “ela publica palavrão e chama a ditadura de ditabranda”. Em outras palavras, porque… bem, porque ela discorda dele, e teve alguns erros cometidos nos últimos meses.

A Folha é chamada de “mídia golpista”, segundo expressão cunhada por Marilena Chaui, e faz parte do “PiG”, o “Partido da Imprensa Golpista”, segundo expressão cunhada pelo próprio Paulo Henrique Amorim. Segundo esta visão, a Folha seria uma porcaria, um “jornal de direita”, conservador e sem muito mais o que fazer na vida a não ser atrapalhar os alterosos planos do PT no governo em transformar o Brasil na Suécia. Pode-se deduzir disso que a Folha seria um jornal feito de mentiras.

Vamos aos fatos, essa minoria oprimida.

"Obrigado Serra e Alckmin pelo 'melhor' e 'maior' metrô do mundo!" / "Não à Higiene Social"

"Obrigado Serra e Alckmin pelo 'melhor' e 'maior' metrô do mundo!" / "Não à Higiene Social"

A reportagem da Folha fez alusão a uma outra reportagem sobre um abaixo-assinado organizado em agosto de 2010 a respeito do local da estação de metrô na Avenida Angélica. Essa reportagem com o abaixo-assinado foi escrita por James Cimino, que sequer está trabalhando na Folha, hoje. Desde o título, a reportagem mais recente dá a entender que a mudança do projeto da estação se deu graças ao abaixo-assinado.

Dizer “após protestos, metrô muda localização da estação” está correto, mas é um truque retórico conhecido por sinonímia forçada. “Após”, na frase, tem o sentido estrito de significado “cronologamente, aconteceu depois de”. É claro que foi uma forçada de barra para tentar também significar, em sentido lato, “Devido a”. Exige-se um certo número de sinapses um pouco elevado para se perceber o macete. Mas não tão elevado. Eu percebi. Se eu percebi, qualquer idiota consegue. Não estou a exigir grandes conhecimentos de semântica formal. Eu acredito que qualquer um possa chegar à essa mesma conclusão. Vamos lá galera: Tico e Teco dêem as mãos e força na peruca!

"Mudança de nome já para as ruas Piauí e Sergipe"

"Mudança de nome já para as ruas Piauí e Sergipe"

Se a reportagem deu pasto e circunstância à uma interpretação um tanto quanto esquizofrênica da ordem de conectividade factual, dando uma certa rasgadinha no tecido do espaço-tempo que qualquer tia com uma máquina de costura ajeita, poderia-se determinar quem seriam as primeiras pessoas a olhar torto para uma reportagem publicada na Folha e tentar descer às minudências de significado para tentar dar de cara com a verdade, já que dizem gostar tanto dela: os inimigos da Folha. Aqueles que a chamam de PiG. Aqueles que a chamam de mídia golpista. Aqueles que prescrevem a seus leitores terem medinho da Folha.

Essas pessoas que odeiam a Folha por ela não deixar ladrão roubar em paz foram as primeiras a se prostrar perante a sinonímia, fazer uma genuflexão dogmática para o sentido mais troncho que as palavras poderiam possuir e a dizer e maldizer os moradores de Higienópolis pela mudança do local da estação.

Não houve outro jornal que divulgasse o fato sem copiar a reportagem da Folha ipsis litteris. Uma nova matéria explicando melhor os fatos saiu só no fim da tarde, na Veja SP. A maior pauta da imprensa brasileira é comentar o que sai na imprensa brasileira. É um movimento um tanto onanista de repetição. Às vezes dando uma falsa sensação de que repetir uma falsidade por n veículos jornalísticos só pode dizer que aquilo é uma verdade inconteste. Creio que meus leitores já viram isso antes.

Passei a noite da quarta-feira conversando pelo Twitter com o James Cimino, responsável pela reportagem da Folha de 2010, que foi muito simpático e amigável, tentando esclarecer o mal entendido. Por sinal, foi ele o mesmo repórter, agora trabalhando para a Veja São Paulo, que fez uma reportagem no fim do dia esclarecendo que a decisão do metrô, afinal, foi técnica, que o abaixo-assinado nada influiu nisso (não faz mesmo sentido ter estações tão próximas uma a outra).

James Cimino não acredita que o abaixo-assinado nada tenha a ver com a mudança. É um direito seu, mas um artigo de fé, e não um fato consumado e documentado. Ele também me perguntou de cara qual a minha opinião sobre o bairro de Higienópolis e afirmou que o Brasil é colonialista. O mesmo James que afirmou ter cunhado a expressão “gente diferenciada”, que a própria entrevistada negou ter usado (e quantos foram entrevistados? quantas opiniões isso reflete?).

Isso só demonstra um fato: a Folha é um jornal plural (talvez o mais plural do país, diga-se), que tem jornalistas com pensamento dos mais diversos matizes por lá. Não é necessário alguém dizer amém ao que pensa Otávio Frias Filho para escrever para a Folha. Há pensamentos discordantes dentro do jornal. Há gente que a considera mídia golpista, e essa mesma gente usa as palavras da Folha ipse dixit quando julga que conseguirá atingir seus inimigos com ela. O próprio Otávio Frias Filho, no Fórum da Liberdade de 2010, afirmou não ver problema em “ter tanto comunista” na Folha. A Folha tem um pensamento democrático e diverso que esses mesmos comunistas odeiam. Eles preferem outros métodos de resolver divergências.

A isso se chama ser “progressista”.

Churrascão da Gente Alternativa

O churrascão da burguesia

Discutiu-se se o churrascão programado como protesto contra la bourgeoisie iria, afinal, dar certo. É claro que daria: em primeiro lugar, protestantes por alguma besteira prontos a fazer uma farrinha ao invés de se preocupar com seu trabalho (como fazem as pessoas pobres) existem às turras. Em segundo lugar, o protesto foi marcado para o Shopping Higienópolis, que fica praticamente encostado à Av. Angélica, onde provavelmente não haverá mais a estação. A Av. Angélica já tem fácil acesso de metrô sem precisar da estação Mackenzie-Higienópolis, que ficará a 3 quadras da avenida. É claro que a maioria da galera galerosa que vai pro churrascão chegará ao shopping, atravessando a Av. Angélica, de metrô. Se não tivesse metrô por perto, o churrasco já estaria miado. Já pensou se fosse no Pacaembu?

Mas é preciso ver quem vai pra esse churrasco-protesto. Basta entrar numa lan house numa periferia e ver se a “classe baixa” está usando Twitter, e tem lá alguma preocupação a respeito da estação ser na Angélica ou não. Quem entope o Twitter com Trending Topics a respeito de séries americanas, MMA, notícias de jornais internacionais e discussões políticas sobre o STF não é senão a própria “burguesia”, nome falho para a classe média brasileira, com padrões brasileiros de “classe média”.

Mas há figuras ilustres que confirmaram presença. Uma delas é ninguém menos do que Luis Nassif, outro jornalista que não escreve senão para falar mal da Folha, de onde foi chutado após tentar conseguir uma grana do governo paulista. Nassif mora… em Higienópolis. Eu não sei se Luis Nassif já mostrou aos seus leitores fotos detalhadas da casa em que mora. Talvez ajude-os a entender que causa defendem.

Em um projeto governamental sem licitação da estatal EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Luis Nassif receberá R$660 mil anuais (mais de 1% do orçamento da EBC, tornando-se o jornalista mais bem pago por audiência do país), verba pública paga a Nassif para ele falar bem da Dilma. De minha experiência como nascente no Itaim Paulista e conhecedor de bocadas como São Miguel, Mogi das Cruzes, Calmon Viana, Osasco e Parada de Taipas (não é muito diferente do que parece), não posso acreditar que tal soma de dinheiro simplesmente exista juntando todo o dinheiro do mundo.

Mas tenho um projeto não muito governamental para apascentar os ânimos. Se o Nassif quiser me dar 5% do salário dele, deixo todo mundo fazer o churrascão no quintal da minha casa e também ocupar a rua e o terreno baldio cheio de ratos na frente. Até ajudo com a farofa. Poderão então me xingar de “burguês” até cansar o gogó. Por 6% aceito até tomar umas porradas. Só não vale é claro xingar a mãe. Mas por 10% acho que até ela entenderia. Mãe é mãe.

Nativos ou manifestantes?

Tente diferenciar os nativos dos manifestantes. TENTE.

Sem gente diferenciada, só boys de vila

A esquerda é nacionalista, estatizante e odeia a burguesia. No TweetDeck, a explicação para Higienópolis estar nos Trending Topics foi: “Judeus safados com nojo de pobre.” A esquerda se surpreende quando descobre que a direita não significa nazismo. Nem que, se a extrema-direita é nazista, ser “só de direita” não significa ser nazista, pero no mucho.

Com todas essas características acima elencadas, quem é mesmo anti-semita nesse país, hein? E, afinal, judeus não podem protestar? O governo deve servir a população, e portanto ouvir o que o povo quer, ou, assim que descobre que são judeus e alguns (ALGUNS) ricos que querem uma coisa, deve fazer o oposto, só de pirraça? Afinal, alguém se perguntou se a dona Guiomar, a do “gente diferenciada”, é judia? Alguém sabe qual é a opinião dos judeus de Higienópolis? É diferente da dos não-judeus? Então foi protesto contra o protesto? Que tal organizarmos protestos contra o protestos e piquetes de quem faz greve para pedir mais dinheiro do governo? Até o MP pareceu que não tinha mais com o que se preocupar e pediu explicações sobre a mudança do projeto para o governo! O MP está protegendo o que ou quem?

Por sinal, se colocassem a estação na Angélica não haveria estação no Pacaembu. Em dias de jogos, quero ver quem vai negar que ocorrerão ocorrências “indesejáveis”. Podem tentar pegar qualquer ônibus que atravesse a Avenida Pacaembu abarrotado de corintianos em direção à zona norte e ver o que acontece com ele quando passa pela escola de samba Camisa Verde e Branco. Sugestão: usem coletes à prova de bala.

Todo o método de interpretação dos fatos, desde que foi anunciado o cancelamento da estação na Angélica até a forma como foi organizada o churrasco-protesto, demonstra o Délire d’Interprétation, como exposto pelo psiquiatra Paul Sérieux. Toda interpretação vem antes dos fatos, desde o uso da “mídia golpista” para favorecer idéias esquerdistas até supor que uma manifestação dessa seria uma luta de classes de pobres contra ricos. Basta pensar no que seria se fosse a Marta Suplicy que vetasse pessoalmente o projeto do metrô de Higienópolis: já estariam tatuando o nome dela nas nádegas. Clamariam a vitória do povo pobre e preto.

Você conhece morador da periferia que ouve jazz?

Você conhece morador da periferia que ouve jazz?

Ao se ver as fotos aqui expostas, tiradas agora há pouco no protesto, entende-se o tipo de gente que perde seu precioso tempo tomando Brahma e indo com roupas chiques para um “churrascão” (modelo universitário, sem carne). Foi praticamente impossível diferenciar os moradores mais caricatos do bairro dos “manifestantes”. Não havia pobres. Os mendigos se assustaram e foram pedir dinheiro nas ruas adjacentes.

Havia apenas o fenômeno só conhecido por quem mora na periferia dos boys de vila. Gente que não mora em Higienópolis, Jardins, Vila Madalena, Moema ou Vila Olímpia. É gente que mora no Tatuapé, na Barra Funda, na Vila Guilherme, no Jaçanã ou até em Pirituba ou Itaquera. Mas tendo juntado sua grana num bairro mais barato, ascendeu e agora tem seu carro nada podre, suas roupas de marca, vai em todas as baladas possíveis e, como bons boyzinhos, nunca trabalharam na vida e passam o dia inteiro na frente de casa, conversando com os amigos. No fim das contas, não moram em Higienópolis, mas têm uma vida melhor do que a população que chegou ao bairro agora, tendo de gastar uma fortuna em apartamentos pequenos e padarias caras, “apenas” para morar perto do centro.

Perguntei na estação de metrô, aliás, quantos metros possui uma plataforma. Não me deram certeza, mas afirmaram que é algo próximo a 100 metros. 100 metros de plataforma, e estação na Angélica 610 metros depois. Só eu acho isso um disparate?

Por fim, é nítido ver mais delírio de interpretação nesse churrascão, vindo dos mesmos manifestantes que se organizam pela internet e adoram falar mal da PM, vendo que os higienopolitanos não se distinguem quase em nada desses (nem pelo preço das roupas, nem pelo péssimo gosto musical), tendo a PM cuidado de sua segurança e fechado o trânsito da Av. Higienópolis desde a entrada da Angélica para eles.

Só que foi uma coisa meio miada. Se organizassem a coisa no boca a boca lá em Perus ao invés de pelo Twitter, talvez não veríamos tantos manifestantes com óculos com preço de computadores. Mas quase cancelaram o churrasco ontem porque temiam que ocorressem manifestações violentas e fosse um povo nada a ver com o protesto.

Medo de ocorrências violentas e de um povo nada a ver por perto… onde foi que li isso mesmo esses dias?!

 

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. No Twitter: @flaviomorgen

 

Mais algumas imagens:

PM fascista
“Metrô Higienópolis só com entrada social e de serviço”
Essa gambiarra aí é Higienópolis

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