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Marina Silva e Datafolha, curtas notas

Uma breve interpretação dos números do Datafolha – e como eles podem mudar até outubro.

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Com a óbvia confirmação da candidatura de Marina Silva para a vaga deixada pela morte de Eduardo Campos, as cartas da corrida eleitoral embaralham-se de maneira incrível. A aposta vale alto até em termos financeiros: o Ibovespa cai sempre que uma pesquisa aponta para a continuidade da recessão econômica com o PT no poder, e sempre aumenta assim que se desconfia que Dilma Rousseff poderá não ser reeleita, o que é bom para o emprego, o crescimento e o dinheiro no bolso de cada brasileiro. É hora de saber se investimos ou desistimos.

Assim, a pesquisa do Datafolha, encomendada já horas após a morte de Eduardo Campos, que coloca o nome de Marina na disputa, era a pedra de toque para se ter algum restolho de esperança com o país. Desistimos do Brasil agora ou há esperança? A pesquisa do Datafolha põe Dilma à frente, Marina 1% à frente de Aécio (tecnicamente empatada) e Marina vencendo no segundo turno. Ou seja, o candidato tucano perderia o segundo posto.

A morte inesperada de Eduardo Campos, apesar da frieza e do pouco sentimentalismo, não adia fatos. Jornalismo precisa trabalhar com a fria realidade e a preocupação futura mesmo diante das fatalidades. Saber do futuro de Marina e do Brasil, portanto, era e é premente. Campos tinha cerca de 8% de intenções. Marina, sua vice, já teve 20 milhões de votos em 2010, Mais do que o dobro de Campos. Assim, obnublou-se, por exemplo, a perspectiva matemática de que a vitória, na verdade, estava com Aécio Neves no segundo turno.

Resta, todavia, saber se os votos de Marina em 2010 são consolidados em 2014. E o que ela pode mudar. Na verdade, a primeira assertiva já traz em si uma análise torta: os votos de Marina agora não são os mesmos de 2014. Seu nome foi o segundo mais cotado para a presidência durante os histéricos protestos de junho de 2013, atrás de Joaquim Barbosa, que até o momento garante que só declarará apoio a um candidato se continuar a sofrer perseguição da militância (petista).

Marina foi um boom. E seu nome aparecer agora é um superboom. Dizem as leis da Física mais elementar que, quando você está no auge, a única direção que você pode seguir é para baixo. Marina pode crescer? Pode. Mas vai tomar voto de quem? Os 30% do PT são mais consolidados do que água congelar a zero grau.

Má notícia para Dilma: ela não parece ter UM ÚNICO VOTO nessa galáxia além dos eternamente consagrados pelo PT, que ainda criou o maior curral eleitoral dopaís com o Bolsa Família. A presidente que nunca mostrou o que é além de “a candidata do Lula” só tem mesmo os votos da militância e daqueles que o PT transforma em dependentes – ou seja, votos eternos.

Se Dilma, mesmo aparecendo na TV o tempo todo, mesmo triplicando gastos de publicidade com a Petrobras antes das eleições para elogiar o governo petista, em nítido flagrante contra a lei eleitoral (e silêncio da oposição), ainda assim só tem os votos da militância petista, sua capacidade de crescimento é próxima da nulidade.

Marina, então, poderia tentar tomar votos de Aécio Neves. Aí o problema seria diferente: ambos estão no terreno da mudança. Mas o voto em Aécio é menos suscetível a sentimentalismos. Marina simplesmente não tem programa, apenas o sentimento de “terceira via” (ainda que absolutamente nada em suas idéias seja diferente do PT).

O discurso marinista é oco, com “propostas” como “criar um partido radicalmente democrático”, ou outras construções verborréicas sem significado. O famoso flatus vocis – um palavrório gasoso lançado na surdina no ar para que os circunstantes tentem adivinhar qual a sua substância. Com isso, há um risco que parece estar sendo ignorado: a possibilidade de Marina cair.

A aposta não é tão arriscada: foi ela quem baixou o nível da campanha de 2010 trazendo à tona de forma agressiva o tema do aborto. Desconhecida de seu próprio eleitorado, todos os seus podres podem começar a vir à tona: sua gestão “ecológica” aumentou o desmatamento (que depois ela usou como “aviso”, tentando extrair insumos positivos da sua má gestão), é acompanhada por alguns laivos de fanatismo religioso.

Pior: além de incompetência, sua gestão “verde” foi marcada por envolvimentos estranhos com ONGs, tráfico de madeira ilegal da Amazônia – forçou o Congresso a não chamar para depor o seu marido, Fábio Vaz de Lima, para se explicar sobre a venda de madeira apreendida. Seu marido ainda encontrou tempo e espaço para se envolver com o caso Usimar, de Roseane Sarney.

Tudo isso a torna mais merecedora do Prêmio Motosserra de Ouro do que de uma “terceira via limpa e renovadora”.

marina-velorio-camposQuem a conhece, compra pouco a sua verbosidade. Apresentada não apenas ao Brasil, mas ao mundo como uma defensora dos “povos da floresta”, numa versão Avatar da política, como se fosse uma espécie de deusa no seu Acre natal, é justamente lá onde tem mais rejeição. ficou em terceiro lugar, com José Serra disparado em primeiro.

Ou seja, com Marina tornando-se conhecida, ainda mais diante de ex-aliados com pouca civilidade como o PT, sua chance de ter seu lado negro conhecido não apenas de analistas e estudiosos das notícias e da ciência política, mas da grande população indouta que decide votos torna-se mais alta.

Aécio Neves, todavia, tem ainda grandes preocupações. Parece depender mais do PT para o ataque a Marina do que de si próprio – o que favoreceria a vitória de Dilma no primeiro turno. Todavia, não perdeu nada de votos, mostrando a solidez mais intelectual e menos afeita a motes do momento de seu eleitorado.

A principal boa notícia é que o PT já havia preparado boa parte da campanha política tendo Aécio como alvo, e sem grandes preocupações com os “traidores” ex-aliados do PT Eduardo Campos e Marina Silva. Agora, o PT tem de, literalmente, se dobrar. E, para piorar, mirar mais em Marina do que nele. Os escândalos de Marina deixarão de ser conhecidos apenas de conhecedores mais aprofundados e Aécio pode tentar angariar estes votos de volta para chegar ao segundo turno.

É sempre o método do PT: ao invés de se explicar, inventar o tu quoque, uma acusação do tipo “você também”, mesmo comparando coisas que não possuem a menor conexão entre si. Mesmo assim, a parlanda convence: enquanto o mensalão foi um golpe totalitário para impedir a separação de poderes e instaurar um governo centralizado no Executivo nacional, chamam de “mensalão tucano” um escândalo que nada tem a ver com o verdadeiro mensalão.

Passam a chamar tudo de mensalão, fazendo o povo crer que todos os partidos são iguais a ele – e assim, “anula” seu vezo totalitário. A fúria do PT para acabar com a separação de poderes e viver de carisma, currais eleitorais e palavrórios para a classe média que odeia a classe média continua com a tentativa de instauração dos sovietes petistas, que substituiriam o Congresso em um sistema que não existe em nenhum outro lugar do mundo.

O trabalho de Aécio, agora, é um pouco mais duro: tem de ser claro ao eleitorado sobre o porquê do Brasil precisar de mudança, e por que pode ser o protagonista correto para iniciar o processo.

Já adquiriu números espetaculares: mesmo enfrentando o desconhecimento, a propaganda eleitoral petista 7 dias por semana na imprensa através de estatais, jornalismo chapa-vermelha (cerca de 80% do jornalismo nacional), MAVs, blogosfera progressista e afins, ainda antes do começo da propaganda eleitoral, teve números para empatar tecnicamente com Dilma Rousseff no segundo turno. O que pode fazer com a propaganda eleitoral começando depende de traduzir essa mensagem para o povo.

AecioCamposAgora, resta se mostrar melhor do que Marina, pois seu eleitorado parece muito menos propenso a cair do que a candidata ex-verde, que dificilmente terá números mais altos do que nessa semana de comoção nacional. Marina, também, tem um agravante: fala muito mal e é propensa a cair em bobagens no período eleitoral.

Aécio Neves já vem enfrentando acusações, difamações e calúnias há muitos meses e apenas cresce – enquanto o PT cada vez mais se desespera nos ataques, como o momento em que o perfil “humorístico” Dilma Bolada postou que o tigre que mordeu um menino em Cascavel deveria ter comido o braço de “Satanécio” (será que se Aécio estivesse no avião de Campos, o perfil também postaria uma mensagem respeitosa como foi com Campos?). Os petistas se tornam misteriosamente tão cristãos quando as coisas convêm.

O que falta entender na pesquisa do Datafolha são duas coisas.

A primeira é a rejeição. Se vamos brincar de dança de votos, é preciso entender quem possui a maior rejeição, não apenas aprovação – mesmo porque, o desencanto com a política nacional eclodiu alto nos últimos meses, e muitos votam fechando o nariz para o próprio candidato. Dilma é a campeã. Aécio tem muito menos, mas fica em segundo. Marina é ainda sacrossanta: porém, resta saber o que acontecerá quando a campanha expor o que Marina é. É um trabalho que Aécio e sua campanha devem tomar como sagrado.

Neste cenário, Aécio ainda tem chance de chegar ao segundo turno e empatar novamente com Dilma, mesmo com o baque sofrido com a morte de Campos. Só que dependerá muito de um esforço que, por razões óbvias, ninguém havia pensado em fazer. Marina, todavia, não tem como melhorar sua ínfima rejeição, e novamente tende apenas a perder eleitores.

A segunda é algo que se tornou questão de honra apenas na última eleição. Dilma Rousseff, apesar de eleita, nem mesmo teve a maioria do eleitorado. Em sua eleição, a abstenção chegou no patamar dos 20%. Seus números altos, portanto, dependeram muito de sua militância obediente e de seus eleitores bolsafamiliarizados. Seu curral eleitoral.

Contudo, houve junho de 2013 e os ânimos estasiados por ventos de mudança (cuidado: evite ficar com o assovio de Winds of Change do Scorpions comemorando a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã com isso). Houve uma nova positividade em ser “politizado” a partir de então.

Marina, o Datafolha mostra, cresce quase que exclusivamente entre indecisos, brancos e nulos. Apesar do que o imaginário coletivo implantado por beleguins na imprensa, na Academia e na máquina de propaganda do PT fizeram com a imagem do PSDB e dos ataques pessoais ao tucano, Aécio Neves ganhou intenção de votos até agora apenas com suas notícias de meio minuto nos jornais. Resta também mirar nesse eleitorado e esperar que faça um bom trabalho em sua campanha.

Se metade desses 20% de abstenções da eleição passada de Dilma resolverem votar, com certeza absolutíssima não será em Dilma Rousseff. E aí, qualquer pesquisa de opinião será jogada no lixo: quem serão os 10% de eleitorado que, apesar da “intenção geral” medida em pesquisas ser pelo candidato X ou Y, vão contribuir com mais votos concretos para este ou aquele candidato?

Apesar de tudo, a pesquisa aponta para um trabalho obrigatório para Aécio Neves chegar ao segundo turno. Entretanto, caso faça seu trabalho corretamente, ainda há motivo para lutar bravamente pela vitória.

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