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Nunca se roubou tanto

Números mostram que a corrupção no Brasil vem aumentando nos últimos anos

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Autor convidado:
Luciano Galvão Novaes

Um texto de Ricardo Semler, publicado no jornal Folha de S. Paulo no último dia 21.11, causou verdadeiro frisson entre petistas e simpatizantes do partido. Pudera. No texto, o empresário diz que é tucano, que nunca se roubou tão pouco no Brasil (como agora) e que a elite escandalizada com os desvios da Petrobras é hipócrita.

A afirmação, na boca de um petista, teria importância nenhuma. Dito por um tucano, entretanto, passou a ter ares de revelação sagrada.

Desde a eleição de lula, sempre que alguém do partido era acusado de qualquer crime, a resposta imediata era negar, como sempre fazem todos os criminosos. Exposta a evidência do crime, entretanto, com a exceção do Mensalão (que descaradamente continua a ser negado pelo partido), o “argumento” passava a ser de que outros já tinham praticado o ilícito.

O recurso nunca foi levado a sério (imaginem um advogado, durante a defesa de seu cliente, acusado de homicídio, afirmar aos membros do júri que Caim havia matado seu próprio irmão). Na defesa petista, entretanto, sempre foi amplamente utilizado, dada a sua característica curinga: esgotadas as possibilidades de defesa do “malfeito”, seu defensor apelava para o histórico da prática em outros governos, sobretudo o de FHC, eterno ídolo petista.

Assim, o argumento, mesmo vindo de um tucano, continua ridículo. De fato, o que se pretende exatamente com ele? Em nome de práticas do passado, o crime atual deve ser ignorado? Se não, o argumento é hipócrita; se sim, o argumento é canalha.

Passadas hipocrisias e canalhices, restam “os dados”.

Segundo o texto, “A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas”. O autor não informa a origem de suas informações. Segundo informações do site Congresso em Foco, entretanto, em 2006, a corrupção consumia R$ 9,68 bilhões, ou 0,5% do PIB brasileiro.

Em 2010 a FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, divulgou um estudo feito pelo seu Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) que informava, a partir de dados de 2008, que o custo médio anual da corrupção no Brasil representava de 1,38% a 2,3% do PIB, algo em torno de R$ R$ 41,5 bilhões a R$ 69,1 bilhões.

Os dados da Transparency International (organização mundial que mede a percepção da corrupção nos países) são ainda mais claros ao mostrar a piora do Brasil no quesito.

O gráfico 1, abaixo (produzido a partir de informações que podem ser confirmadas no site da organização – transparency.org), ilustra a evolução do país entre os anos de 1995 e 2011.

Metodo1

Como se vê, há nítida melhora de 1995 até 2003/2004 e sensível piora de 2004 a 2006, quando o escândalo do Mensalão foi habilmente conduzido pelo governo (tanto que lula foi reeleito), fato que pode explicar a melhora pontual da percepção da corrupção no país naquele ano.

A partir de 2006, entretanto, há nova piora do índice.

Em 2012 houve mudança no método de pontuação do ranking, mas não da piora da percepção da corrupção no país: o gráfico 2 mostra que o Brasil continuou em queda. Naquele ano ocupávamos o 69º lugar no ranking da corrupção e no ano seguinte, 2013, caímos para o 72º (o primeiro lugar do ranking é ocupado pela Dinamarca nos dois anos, país considerado, portanto, o menos corrupto do mundo).

Metodo2

O ranking de 2014 ainda não saiu, mas os valores desviados da Petrobras não parecem mostrar melhoria no quesito.

Infelizmente, caro Ricardo, a verdade é que nunca se roubou tanto.

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