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O “Muro de Berlim” da Folha de S. Paulo

A Folha de S. Paulo comparou a proteção policial da seleção alemã em um trecho de 500 metros de uma rua na Bahia ao Muro de Berlim. A comparação é de péssimo gosto – e reveladora de desconhecimento histórico.

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A seleção alemã de futebol está em concentração na Bahia, usando um campo na Vila Santo André. É o “campo de concentração” da seleção alemã. Piada que exagera no péssimo gosto – nojenta de verdade, não? Pois a Folha de S. Paulo escreveu uma não menos infeliz.

Os alemães já ficaram famosos na Copa de 2014 por construírem por si próprios um alojamento em 5 meses, por insatisfação com os hotéis e as condições no Brasil. Um recorde – e sem custos para o erário e o pagador de impostos brasileiro. Uma seleção que veio apenas para jogar futebol – e contra o Brasil – deixou um legado maior para o país do que os 7 anos de gestão do PT desde que o Brasil foi recrutado para sediar a Copa.

Como disse a voz da razão em anacolutos, Dilma Rousseff, os turistas não levarão daqui os aeroportos, os estádios ou os alojamentos que eles próprios se encarregam de construir para poder treinar.

Ou seja, não é uma notícia muito feliz para o PT. A militância petista, travestida de jornalistas em diversos pasquins que fazem as vezes do que se chama por estas paragens de “jornalismo”, precisava ter alguma notícia negativa para “compensar”. Como se sabe, do mensalão ao superfaturamento, o discurso do PT é sempre baseado no toi aussi – basta acusar que outro também fez coisas erradas (ainda que comparando elefantes com formigas, ainda que mentindo na acusação) e voilà, o mal se torna bem. Completamente justificável.

Escalado para a missão, o repórter da Folha em Santa Cruz Cabrália (BA) Fabio Victor encontrou motivo para reclamar: o alojamento isolou um trecho de 500 metros de uma ruazinha de terra no bairro Vila Santo André. O isolamento contou com a ajuda da PM.

Alguns jornalistas da Folha de S. Paulo, bastante empenhados em criticar a polícia per fas et per nefas, parecem crer que a polícia militar garantir a segurança de jogadores de seleções internacionais numa Copa do Mundo é algo digno de uma ditadura de coturnos em casernas. Citando outro jornalista, Fabio Victor dispara:

Jornalista que vive há dez anos na região, Léa Penteado faz um paralelo irônico. “Quando se comemoram os 25 anos da queda do Muro de Berlim, eles [os alemães] vêm pra cá e a PM comemora erguendo uma barreira que separa as duas partes da vila.”

Pior: o título da reportagem é Alemanha cria “muro de Berlim” na Bahia.

Afinal, parece que criar riquezas no país e garantir a segurança legal esperada para um evento como a Copa do Mundo é algo nocivo. Entregar crachás aos moradores da região para transitar pela rua é considerado humilhante (queríamos nós, paulistas, termos apenas de portar um crachá para trafegar pelas greves provocadas pelos amiguinhos da estrela vermelha para prejudicar eleitoralmente um governador tucano). Tudo com o estranho intuito de pintar os feitos (antes mesmo do início da Copa) da seleção alemã como negativos – nocivos mesmo.

Para isso, exageram morbidamente na comparação palavrosa. Já é um erro comparar negativamente com requintes de crueldade, como a famosa Lei de Godwin garantindo que discussões na internet sempre terminarão com associações ao nazismo.

Mas aí há também um movimento reverso: acredita-se que comparar uma demarcação temporária por pura segurança (apenas exigindo-se um crachá, o que acontece em qualquer evento usando vias públicas neste país há décadas sem mimimi e siricutico) pode ser feita com o Muro de Berlim.

Ninguém aceitaria de bom grado grado uma comparação com um campo de concentração como na “piada” forçada do primeiro parágrafo, comparando qualquer forma de segregação com os lugares mais parecidos que o planeta Terra já teve do inferno: os campos de concentração nacional-socialistas de Hitler (Auschwitz-Birkenau, Dachau, Sobibór, Treblinka etc), por ser uma comparação de extremo mau gosto – e falta de respeito pelos que morreram, sofreram, tiveram a vida, o espírito, as posses, a razão de viver tomada pelos nazistas.

Todavia, parece ser normal fazer “piadinha” com os campos socialistas de Pol-Pot, Mao Tsé-tung, Lenin, Stalin e afins. Ou com o “legado” do socialismo para o mundo.

A Folha de S. Paulo compara uma demarcação temporária em uma rua de terra de 500 metros não com “um muro”. O Muro de Berlim não foi só uma parede colocada em Berlim para delimitar uma linha imaginária dividindo um país, na qual se exigia um “crachá” para passar de um lado para outro.

Não: foi uma idéia do maior genocida de toda a história mundial, o líder comunista chinês Mao Tsé-tung, que sugeriu ao dirigente sociopata da Alemanha Oriental (a de esquerda, que não se livrou do totalitarismo e até hoje é mais pobre e com ranços xenofóbicos) Walter Ulbricht que construísse um muro “como a Muralha da China” para impedir que os pobres alemães, vigiados pela polícia política socialista, a assassiníssima Stasi, fugissem para a liberdade capitalista do outro lado.

Walter Ulbricht (que, como quase todo dirigente socialista fora Kruschev, morreu no cargo sem dividir ou disputar o poder completo sobre cada vida na Alemanha Oriental) não é estudado nos livros de história moderna entre os tiranos mais assassinos, genocidas, ricos e esquisitos do planeta. Seu sucedâneo, Erich Honecker, adorava luxos ocidentais (não largava um Nescafé por um minuto, amava cerveja ocidental e dava cigarros HB à sua esposa, todos proibidos à população do país), mas chamava o Muro de Berlim de “muro antifascista”, na velha retórica da esquerda de associar liberalismo contrário à concentração de poder no Estado com o poder de Estado completo, o fascismo.

Qualquer pessoa que se aproximasse do Muro passava a ser vigiada pela polícia. Tentativas de escalá-lo ou cavar túneis por baixo resultavam em fuzilamento imediato – ou com a polícia forçando asfixia nos túneis de maneira cruel. Até hoje há desaparecidos que tentaram enfrentá-lo, cujos corpos estão soterrados onde antes ficava esta pavorosa construção.

Quando se aprende sobre o Muro de Berlim, lembra-se apenas da sua queda, como se fosse apenas uma parede qualquer que foi “simbolicamente” derrubada, marcando o fim da Guerra Fria. Não foi. O muro era uma realidade concretíssima na Alemanha Oriental socialista. Não foi a queda de um símbolo: foram as paredes de uma prisão real sendo destruídas.

Se a esquerda tropical adora justificar a miséria cubana não colocando a culpa no socialismo monástico de Fidel Castro, mas no “embargo estadunidense”, deveria se lembrar do Muro de Berlim, uma das coisas mais bizarras do mundo: um muro feito pela própria esquerda para impedir que os cidadãos fugissem para o lado capitalista com sua liberdade e riqueza. Alguns destes mesmos esquerdistas reclamando do embargo hoje defenderiam com unhas e dentes o Muro de Berlim, se suficientemente em contato com a propaganda ditatorial que o justificava.

A Alemanha Oriental legou mais de 70 mil mortes de 1948 a 1987, com uma população de 16 milhões de pessoas (pouco menos do que a grande São Paulo – algo como assassinar quase inteiramente a população de Mairiporã). Em termos comparativos, em 21 anos de ditadura militar, o Brasil teve pouco mais de 500 mortos e mil desaparecidos. Alguém ousa fazer piadinha e comparação desnecessária com a ditadura brasileira – como quando a Folha foi criticada por anos pelo termo “ditabranda”?

Anne Applebaum, a autora do riquíssimo livro Gulag: Uma História dos Campos de Concentração Soviéticos (todos sabem o que foi Auschwitz, mas quantos sabem o que é um Gulag socialista, de onde muitas vezes os nazistas tiraram “inspiração” para suas máquinas de trabalho forçado e morte?), conta que teve a idéia de contar ao Ocidente a não-estudada história do Gulag por ver, em uma ponte em Praga, turistas ocidentais achando graça de comprar velhas bugigangas com símbolos socialistas, como a foice e o martelo, e usarem aos risos. Qualquer uma dessas pessoas teria nojo até mesmo de encostar em um broche com uma suástica – mas tratam como um mero arcaísmo um regime ainda mais assassino, xenófobo, racista, homofóbico e totalitário.

O problema não é nem a Folha de S. Paulo permitir uma matéria com um verdadeiro descoco de comparação, típica de “inocentes” acreditando-se informadores, crendo-se apenas exagerada ou de mau gosto. O problema é que o maior jornal do país, que tem um cabedal de jornalistas das mais variadas estirpes e tendências (o que causa o efeito colateral de não evitar críticas de simplesmente nenhum lado), deveria se informar mais ele próprio antes de dizer uma coisa dessas.

Afirmar que a seleção alemã fez um “Auschwitz” ao pedir proteção da polícia em uma rua (quando, por exemplo, membros da seleção da Bósnia já quase sofreram um assalto no Guarujá) seria considerado ofensivo até a última gota – não com os pobres moradores da Vila Santo André com seus crachás, mas aos judeus que sofreram e morreram no campo de concentração polonês, cujas horrendas mortes devem ser lembradas pelo que foram, para não serem repetidas por eufemistadores e revisionistas de plantão.

Foi um dos maiores guerreiros da liberdade de todos os tempos, o presidente republicano americano Ronald Reagan, que fez o discurso que mais animou alemães de ambos os lados que tiveram suas famílias separadas, sua esperança destruída mesmo depois da ameaça nazista e seu sonho de ver um mundo livre da tirania do “Estado corretor em busca da sociedade perfeita” destruído pelos socialistas que criaram o Muro de Berlim. É dele a célebre frase que virou expressão corrente de libertação na língua inglesa: Tear down the wall.

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Ao comparar uma proteção policial com o Muro de Berlim, a Folha de S. Paulo parece cair na esparrela em que cai o jornalismo brasileiro pela zilionésima vez em uma semana: comparar tudo o que é ruim no mundo ao nazismo, mas “esquecer” ou tratar com muito menor importância as mortes do socialismo, infinitamente mais presente em nossas vidas (inclusive no Brasil) e cujas mortes são contadas numa montanha de cadáveres no mínimo 5 vezes maior.

Mais respeito com as vítimas do comunismo e do Muro de Berlim, para que a esquerda não use novamente de linguagem eufemística para suas tentações de concentração de poder “corretivo e distributivista” no Estado e novamente justifique medidas assassinas como essa com base no toi aussi – “se eles podem fechar uma rua por um mês, nós podemos construir um muro para impedir que as pessoas fujam de nosso paraíso igualitário”.

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