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Protógenes Queiroz quer proibir filme do ursinho Ted

Protógenes Queiroz, deputado federal (PCdoB-SP) e delegado da Polícia Federal, foi assistir com seu filho, o pequeno Juan, de 11 anos, o filme Ted, comédia em que um adolescente passa as diabruras típicas da idade (sexo, drogas e vagabundagem, já que rock tá fora de moda) ao lado do seu ursinho protagonista. A classificação indicativa do filme é de 16 anos.

Protógenes não gostou do que viu. Ao invés de perceber que cometeu uma contravenção penal, Protógenes ainda se sentiu no direito de achar que poderia usar a lei a seu favor. Postou em seu Twitter o bravateiro gracejo:

O delegado da PF, famoso pela operação Satiagraha, acredita que, após levar o próprio filho, o pequeno Juan, para a sessão de constrangimento que é assistir um filme com tema adulto, ainda pode exigir explicações do Ministério da Justiça, como se o Ministério não tivesse mais o que fazer do que explicar para um deputado federal e delegado licenciado da Polícia Federal que um filme com classificação indicativa de 16 anos é, $#@&*%, pra ser assistido por pessoas a partir dos 16 anos, e quem deve algumas explicações para a contravenção cometida é a Sua Excelência, sr. deputado Protógenes. Ou poderia eu dizer que fui assistir DEUSAS DO ANAL 6 com meu filhinho pequeno de 8 anos, e por ver cenas de sexo explícito com nítida apologia à masturbação, dizer depois que o Ministério da Justiça me deve explicações?!

Pai, preciso ter aquela conversa contigo

Como bem lembrado por Jerônimo Teixeira, o artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que é crime “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento”. A pena é detenção de seis meses a dois anos. Tá nas regras. Cartão vermelho. Protógenes virou motivo de piada no Twitter. Quer dizer, virou motivo para alguém lembrar dele – ensejo para chacota é alguém do PCdoB ser lembrado, em qualquer dia do ano.

Mas Protógenes, um dos ídolos da blogosfera progressista, não se deu por satisfeito. A piada poderia apenas ter valido ao pequeno Juan seu dia de Nissim Ourfali. Protógenes, fiel à sua linha comunista KGB de ser, resolveu que quer proibir o filme do ursinho viciado, acionando o Ministério da Justiça e o Ministério da Cultura (essa entidade que tanto fez por nosso arcabouço cultural). É de se perguntar se Protógenes Queiroz, que foi reprovado no exame psicotécnico para delegado da PF, tem mesmo uma enorme destreza para evitar drogas entrando no país pelas fronteiras, enquanto vocifera tão raivosamente contra o filme de um ursinho.

Ora, é da tradição liberal que cada um faça o que quiser, desde que não agrida ninguém. Se eu quero ver o filme Ted e tenho mais de 16 anos (e não sou mongo o bastante para levar meus filhos recém-saídos das primeiras aulas sobre célula da cebola para ver escatologia trash comigo), eu tenho esse direito. Se eu agredir alguém, mormente uma criança, obrigando-a a uma sessão vexame que deixa traumas profundos na personalidade (não graças ao filme, mas por perceber a capacidade intelectual apoucada do próprio pai), o poder público deve ser acionado para proteger o elo mais fraco da relação (em tamanho, não em QI), não dar explicações justamente pra quem fez a caquinha.

Já na tradição comunista coletivista do sr. Protógenes, não há indivíduos, apenas números. Alguns números são parte do poder, outros servem de joelhos a este poder. E quando alguma contravenção passível de pena é cometida, a parte que faz parte do poder pode usar do seu próprio mando (o que os romanos chamavam de potestas) para, sem identificar indivíduos, usar o poder físico do Estado (potentia) com base em seu poder político (autoritas), que seria anterior e estaria acima das leis, para sair por aí, prejudicando quem não tem nada a ver com a contravenção cometida. O algoz se torna vítima e vice-versa. O que importa, afinal, é quem dá as cartas (ou, como dizia Mao Zedong, o poder vem da boca do revólver).

Filme com classificação indicativa 16 anos: “infanto-juvenil”

Assim, se sou um delegado num coletivismo brutal, a cada vez que tiro uma nota baixa, posso afirmar que o MJ me deve explicações. E posso ainda sair proibindo o que não gosto, através do meu poder político, pois todas as outras pessoas não são indivíduos com vontades e individualidades distintas das minhas e que devem ser respeitadas – são apenas números que devem ser submetidos ao que o burocrata agente do poder político manda.

Classificação indicativa: Pequeno Juan

Todavia, há algo ainda mais estapafúrdio no comportamento do delegado comunista. Pela visão de mundo de Protógenes (perdoa-se lá a hipérbole), um filme conter uma cena de consumo de drogas é “apologia as drogas” (sic). Tanta coisa pra proibir (como abolir a transitividade indireta do verbo assistir, destruída de cunho próprio neste arrazoado), e o sr. deputado quer proibir um filme em que um ursinho fuma crack.

Se uma cena de consumo de drogas é “apologia as drogas” (eterno sic), acaso as cenas em que Jesus é açoitado e torturado em A Paixão de Cristo são apologia do espancamento? A horrenda cena de estupro de Irreversível é uma apologia à violência sexual? (cena que foi elogiada por feministas por demonstrar visualmente o absurdo que é a crença machista de que mulheres, na verdade, têm fantasias sexuais com o estupro) Independence Day é alguma apologia da invasão alienígena? (desconte-se lá a explosão da Casa Branca, para tirar o sorrisinho safado das fauces dos millitantes do PCdoB) O sr. deputado não poderia explicar para o filho que o ursinho está envolvido com drogas devido à luta de classes, sendo uma vítima da sociedade? Acaso há apologia ao consumo de drogas em Eu, Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída, ou o próprio título demonstra o choque por si? Há alguma coisa favorável ao consumo de drogas em Trainsporting, Réquiem para um Sonho, Diário de um Adolescente ou Tropa de Elite?

Um roteiro de filme não é apologia de nada, a não ser para pessoas ainda com pouco discernimento (por isso a porcaria da classificação indicativa) ou para completos debilóides. Ninguém, em filme algum, nem mesmo o narrador falando ao espectador, está ensinando nada, por ser um produto cultural. O mesmo se dá com livros. Madame Bovary não é um apologia ao adultério, como não há casos conhecidos de alguém que tenha assistido Hamlet e tenha saído por aí assassinando o tio (apesar da maior homenagem da década passada ao ato shakespeariano).

Quando vejo algo de que não gosto, minha atitude é trocar de canal, sair do cinema, jogar o livro longe ou xingar muito no Twitter. Não é acionar o poder público (e vocês sabem quem financia tudo isso). É a diferença entre o liberalismo e o coletivismo comunista: no regime das liberdades individuais, se você é um idiota, simplesmente não gosto de você, não vou lá no seu barco e você não vem na minha lancha. No comunismo, meus cupinchas têm o poder completo, e, se não vamos com a sua cara, te mandamos para o exílio, Gulag, cadeia ou paredón. Se o Protógenes privatizou a educação do seu filho pequeno Juan, não temos nada a ver com isso. Continuamos conseguindo assistir Borat sem lavarmos a cara na privada, por mais que os filmes sejam os professores que nos ensinam tudo o que nossos pais não têm tempo de nos dizer. Não há órgãos de censura num sistema liberal, porque a vantagem que é dar liberdade às pessoas (inclusive para criticar o governo) se sustenta. Já a confusão entre Estado e sociedade da planificação centralizadora é opressora, e só se sustenta descendo o chicote no lombo de quem reclama.

O avanço liberal é a tolerância.com os idiotas (as primeiras vítimas do socialismo). Já a centralização do poder estatal só possui tolerância com assassinos, ladrões e outros pilhadores se eles podem destruir a velha ordem (o que Marcuse chamava de “tolerância revolucionária”). Se fosse sair por aí proibindo todos os idiotas que tornariam o mundo melhor sem suas obras, começaria em A de Almodovar e terminaria em Z de Žižek. Mas, ao contrário do modelo protogenesiano de democracia da foice, eu não proibo nada, apenas tento convencer as pessoas de que existem coisas melhores a se ver (espectro que vai de P. J. O’Rourke a Exterminador do Futuro 2).

Despiciendo dizer que, tal como Romênia e Polônia, países que já passaram pelo pesadelo comunista, proibiria de todas as formas que um partido se chamasse “Partido Comunista”, já que não é permitido tampouco um Partido Fascista ou Nazista, totalitarismos horrendos que conseguiram a façanha de matar menos do que o bolchevismo no último século. Ainda mais se esse Partido Comunista reunisse personalidades do porte de Protógenes Queiroz, Aldo Rebelo e Netinho de Paula, tudo no mesmo estado (já sobre a Manoela D’ávila, conversamos em privado).

Contudo, parece ser uma constante na carreira de Protógenes Queiroz esse modelo heterodoxo de liberdade democrática. Protógenes não conseguiu convencer a população de São Paulo de que deveria ser deputado – foi alçado ao cargo embalado nos votos do fenômeno Tiririca, que aparentemente não foi o único palhaço eleito. Mas ainda insiste em falar por um coletivo:

Quem “não aceitamos”, cara pálida? “Não aceitamos” sequer sua nomeação como deputado – Vossa Excelência só entrou lá por uma tramóia do sistema eleitoral. O pequeno Juan quando nasceu foi programado a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos U.S.A., de nove as seis. Desde pequeno come lixo comercial e industrial, mas agora chegou sua vez (ele vai cuspir de volta o lixo em cima de vocês), E como diz o restante da canção:

“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis”

Ao menos a comédia já está feita, até para quem não foi ao cinema. Porém, resta ainda entender algo não esclarecido nessa patacoada de enlatados culturais americanos no Brasil: sr. Protógenes, por que Vossa Excelência manda tweets via Twitter for iPad?!

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