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Qual foi o crime de Genoino?

Coluna de Marcelo Coelho para a Folha é bem didática ao explicar detalhadamente o que levou Jose Genoino à cadeia.

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Se na última semana você ousou apoiar a prisão dos mensaleiros publicamente em alguma rede social, a chance de ter ouvido a pergunta do título da parte de algum amigo ou até mesmo desconhecido é grande. Tem sido a estratégia da militância governista, ou dos MAVs (como são chamados internamente): apostam no desconhecimento de quem se atreve a tocar no assunto, mesmo que a pessoa esteja confiando no resultado de um processo que durou mais de 8 anos e consumiu mais de 50 sessões da corte suprema do país. Uma coluna de Marcelo Coelho para a Folha, no entanto, busca ser didática sobre o tema e, parodiando uma tradição da justiça norte-americana, carimba: inocente Genoino não é.

De cara, já abre lembrando que até Dias Toffoli, um ex-advogado do PT, votou por sua condenação. A resposta da questão governista é a mais óbvia: corrupção.

Mas foi condenado de forma praticamente unânime no STF. Até por Dias Toffoli. Dos dez ministros, somente Ricardo Lewandowski o absolveu.

Qual o crime? Corrupção. Pela lei, não se pune somente quem recebe dinheiro, mas também quem oferece.

(grifos nossos)

Havia como Genoino se dar bem com o mantra petista do “não sabia”? Não desta vez. Reuniões e mais reuniões para tratar de assuntos financeiros ocorreram. Numa delas, Genoino era o único representante do PT. Sabia sim:

Quando a história é contada mais detalhadamente, vê-se que o problema financeiro estava o tempo todo em pauta. O político Vadão Gomes, que nem era réu, conta que, numa conversa com Genoino, Delúbio, Pedro Henry e Pedro Corrêa, discutiu-se a necessidade de ajuda em dinheiro para o PP, com vistas às eleições de 2004. Outro parlamentar do PP, o falecido José Janene, testemunhou sobre reunião em que Genoino, e apenas ele, representava o PT.

(grifos nossos)

A estratégia da defesa era, por meio de eufemismos, chamar todo o processo de algo simples e corriqueiro na rotina política. O STF não comprou essa.

O bom PT prontificou-se a resolver isso. Três milhões resolveriam. Advogados caros, esses.

Pode-se chamar esse tipo de combinação um “acordo meramente político”? Foi o que fizeram todos os réus. Mas prometer dinheiro em troca de apoio pode ser melhor chamado de corrupção, e foi isso o que concluíram nove ministros do STF.

(grifos nossos)

Genoino estava ciente da relação que se daria entre o PT e o PTB. E que, inclusive, ninguém acreditaria na versão sobre um caixa 2 tão gordo. Foi do então presidente do partido a solução encontrada:

Também as necessidades do PTB, com relação aos gastos na campanha que se aproximava em 2004, foram discutidas com José Genoino presente. A promessa, antiga, era de R$ 20 milhões para que o PTB apoiasse Lula.

Jefferson conta ter avisado Genoino: uma quantia dessas seria alta demais para ser considerada apenas “caixa 2” – doações de empresários por baixo do pano. Entenda-se: empresários não dariam tanto dinheiro assim. Genoino teria respondido que o repasse seria feito de partido a partido, ou como contribuição de empresas ao fundo partidário.

(grifos nossos)

A desculpa que diz ser Genoino uma pessoa não muito hábil com finanças também não cola. Não que ele seja, mas ocupava uma posição na qual tinha de ser ou arcaria com as consequências. Se topou o bônus do cargo, nada mais justo do que topar o ônus também:

José Genoino também foi avalista desse empréstimo do PT com o Banco Rural, quando ocorriam as renovações do crédito, a cada três meses.

Certo, não entendia de finanças. Como presidente do PT, tinha de cumprir, pelo estatuto, o dever de assinar aquele tipo de coisa.

Observo que não é à toa que o estatuto exige a assinatura do presidente do partido. Um nome como o de José Genoino não se construiu aos poucos; está lá, justamente, para dar credibilidade e honradez aos atos partidários. Quantos não se deixaram enganar, vendo que “até o José Genoino” endossava esses acordos “políticos” negociados no balcão de Jefferson, Janene e Companhia?

(grifos nossos)

Ao final, Marcelo Coelho faz um breve resumo de todo o caso e não deixa qualquer dúvida:

O crime maior, que o PT cometeu contra a própria credibilidade, mas em favor de reformas econômicas que negavam o seu programa, foi ter-se envolvido em acordos com a escória da política brasileira. Há quem ache que valeu a pena, pensando no desempenho do governo Lula, há quem ache que não.

Quem resolve dar festa num chiqueiro termina sujo também. José Genoino não roubou, José Genoino fez o que lhe pareceu mais certo, sem pensar em vantagens financeiras pessoais. Mas inocente não era.

(grifos nossos)

Quanto mais alto o cargo numa hierarquia, maior o salário. Disso o brasileiro sabe. O que parece não saber é que este prêmio maior se dá não por mais trabalho, mais experiência no ramo ou por mera formalidade. Mas porque o indivíduo que lá se encontra possui mais responsabilidades. Isso é difícil de se compreender no país que se acostumou a jogar a culpa no estagiário, mas, numa hierarquia, a responsabilidade na verdade sobe. Quanto mais alta a posição, maior a responsabilidade. E Genoino não só estava numa posição elevada nesta hierarquia, como tomou ciência dos erros de seus inferiores, colaborou com eles e jamais buscou corrigir os equívocos. Não seria justo punir apenas seus estagiários.

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