Blog

Rebatendo os “cinco mitos” sobre a Venezuela publicados pela BBC

A “contestação” do caos venezuelano fez sucesso nas redes sociais. Mas aqui as rebatemos uma a uma.

Venezuela - Cinco Mitos - Foto Meredith Kohut New York Times

Venezuelanos diante do racionamento de água. Foto: Meredith Kohut / New York Times

Na semana passada, muita gente compartilhou um texto da BBC que questionava as mazelas venezuelanas. Mais que isso: chamava-as de “mitos” e, por meio de explicações breves, contestava a veracidade de tudo.

Sabe-se por que razão, o conglomerado de empresas de comunicação deixou a tarefa a cargo de seu correspondente na África. Talvez o distanciamento tenha colaborado para que o texto saísse um pouco da realidade, enfim…

A seguir, todos os cinco ponto são rebatidos. Primeiro, em vermelho, o que eles alegaram; em seguida, o que de fato ocorre. E pedimos a vocês que compartilhem com TODOS que divulgaram o outro texto.

1 – Na Venezuela há Fome

Em algumas regiões da Venezuela se passa fome, mas não a maioria da população. 90% dos venezuelanos disse em 2015 ao levantamento Encovi que está comendo menos e com menor qualidade. De fato, a crise alimentar se aprofundou em 2016; se veem mais filas e são relatados mais casos de subnutrição, com mais pessoas que comem duas ou menos vezes por dia. Mas a situação não se enquadra no que o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas define como uma escassez generalizada de alimentos: que pelo menos 20% das famílias sofram escassez severa (…) E por mais caros que sejam, os venezuelanos têm frutas e verduras disponíveis em cada esquina. De acordo com a Fundación Bengoa, especialista nesta área, a desnutrição está entre 20% e 25%.

Parece até piada. Há uma diferença entre “há fome” e “todos passam fome e vão morrer amanhã mesmo”. A premissa do título, exatamente como elaborada pelo jornalista, é CONFIRMADA em seu texto. Se a desnutrição está entre 20 e 25% e há relatos de subnutrição, fim de papo, há sim fome. Não adianta recorrer a um índice elaborado pela ONU, tentar uma saída técnico-retórica, e depois confessar que o grau de desnutrição pode chegar a um quarto do povo. Na verdade, nove em cada dez venezuelanos simplesmente não tem dinheiro para comida.

2 – Venezuela é igual a Cuba

Em geral, três elementos permitem argumentar que “a Venezuela se cubanizou”, como alguns dizem: as filas para comprar produtos racionados, a dualidade da economia e da militarização do governo (onde a inteligência e o governo cubano têm influência). Mas essa comparação só pode ser feita até aí (…) A Venezuela é um país capitalista onde o setor privado tem certa atividade, apesar das restrições e expropriações do Estado – que adquire cada vez mais controle sobre a economia. Em Cuba, o setor privado é mínimo (…) Além disso, a Venezuela é um país produtor de petróleo, com enormes reservas, e não é uma ilha, dois elementos decisivos de sua condição, que por mais trágica que se torne, gerará situações que não podem acontecer em Cuba: por exemplo, o contrabando na fronteira.

É mole? Uma disputa para saber qual regime socialista é pior. Sim, não é preciso ir longe, Cuba ganha essa parada. Lá é bem pior. E vale agradecer pelo esclarecimento de que a Venezuela não seria uma ilha, algo totalmente cabível nesse tipo de comparação. Meu trecho favorito, porém, é o “setor privado tem certa atividade, apesar das restrições e expropriaçõe”. Maravilha.

3 – A Venezuela é uma ditadura

É um debate acadêmico que leva alguns anos: se na Venezuela há uma “ditadura moderna” ou um “regime híbrido”. Mas são poucos os especialistas, no país e no exterior, que falam de uma ditadura tradicional. Primeiro, eles dizem, porque há oposição, por mais que não tenha acesso a recursos que o partido governista tem – e apesar das prisões e restrições a que representantes seus tenham sido sujeitados. E há eleições, embora tenham removido alguns poderes da Assembleia Nacional – eleita com votos – quando ela passou a ser controlada pela oposição. Em segundo lugar, a imprensa independente na Venezuela, apesar dos problemas – falta de papel, pressão do governo e com muitos de seus jornalistas em julgamento ou na prisão…

Pois é, não está fácil. Como alguns heroicos venezuelanos consegue RESISTIR, então não poderia ser mesmo uma ditadura, não é? Aí entram os “apesares”, que envolvem falta de recursos, remoção de poderes, prisões etc. Mas, vejam só, há “eleições”. Até em Cuba e na Coreia do Norte há “eleições”, ué! Democracia é quando a disputa eleitoral acontece com igualdade de condições e ampla liberdade participativa. O contrário é ditadura, independentemente do grau de repressão (que, diga-se, é elevado na Venezuela).

4 – Todo mundo odeia Maduro

Muitos fora do país perguntam como é possível que Maduro ainda esteja no poder. De acordo com várias pesquisas, ele tem entre 20% e 30% de apoio. Há venezuelanos que se consideram chavistas, que dizem apoiar Maduro nas pesquisas, mas que, quando falam à imprensa, soltam uma série de insultos contra o presidente (…) Em todo o caso, o apoio de 30% é mais do que tem os presidentes de Chile e Colômbia. Alguns dizem que o chavismo é doente terminal, mas Chavez continua a registrar 60% de aprovação, por isso, é difícil pensar no fim do chavismo, por mais aguda que seja crise.

A premissa, por si, é inócua. Claro que não seria TODO MUNDO a odiar maduro. Todo regime autoritário busca algum tipo de respaldo e só em seu declínio que a desaprovação vai às maiorias. É histórico. Mas não deixa de ser curioso começar falando de Maduro, dissociando-o de Chávez, para depois falar apenas em chavismo.

5 – Você não pode sair de casa

A criminalidade desenfreada e o medo levou alguns a preferirem assistir a um filme em casa do que ir a um bar à noite. Mas ainda há muitos, não só em Caracas, mas em todo o país, que vão a discotecas, bares e restaurantes. Paradoxalmente, no lugar onde há mais assassinatos, nos bairros populares, a noite é tão ativa como em qualquer cidade, mas nas áreas de classe média e alta as ruas ficam desertas após as 21h (…) Apesar disso, os centros das cidades e vilarejos são durante o dia são tão ou mais agitados do que em qualquer outro lugar na América Latina.

Outro espantalho. Claro que ninguém imagina a Venezuela como um país-fantasma, daqueles com bolinha de feno correndo por avenida abandonada com carros enferrujados. E pessoas podem muito bem ir às ruas, desde que não seja para fazer oposição ao governo, porque daí levam bala. E desde que não seja para comprar comida, simplesmente porque não tem. E também porque não eles não teriam mesmo dinheiro para comprar. Fora isso, dentro das condições admissíveis pelo contexto, dá sim para passear pela calçada. Mas é bom tomar cuidado.

***

Enfim, é isso. Basta um pouco de lógica e bom-senso. Provavelmente, o texto não teve má-fé em sua feitura, mas foi repassado como uma “verdade” já que saiu na BBC. E as coisas, sabemos, não são bem assim. De todo modo, sugerimos para uma próxima vez que eles convoquem um venezuelano para falar do próprio país.

A menos que tenham evitado isso por saber que ele pode ser morto pelo governo. Aquele governo que “não é uma ditadura”.

Mais Lidas

To Top