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Sobre criacionismo, Marcelo Crivella, Câmara dos Deputados e amebas

por Flavio Morgenstern

Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo, cantor gospel e escritor (lato sensu), como já se sabe, angariou o ministério da Pesca e Aquicultura do governo Dilma Rousseff.

Nesta semana, Crivella, em uma de suas pregações imperdíveis, filosofou (tá assim no UOL) sobre a origem da ameba. De acordo com Crivella, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) propôs uma teoria de que todos os seres vivos teriam evoluído de uma ameba (e vocês aí, discutindo crucifixo…). É um grande ato extracurricular de pesca de novos fiéis para a sua igreja. O áudio pode ser ouvido abaixo:

Charles Darwin, obviamente, não afirmou nada disso. Apenas afirmou que todos os seres vivos devem possuir uma origem remota comum – suas observações, catalogadas no cartapácio Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida (chatíssimo, nem percam seu tempo lendo), como o próprio título barroco já demonstra, dizem respeito a como um ecossistema se transforma, favorecendo os seres mais bem adaptados.

Num resumo rápido, Darwin deu importância excessiva à seleção natural e interações ecológicas negativas (competição e predação, e.g.). O que prevalece hoje é o chamado neodarwinismo ou nova síntese, onde outras forças evolutivas são elencadas – em especial, eventos estocásticos. Também conhecidos como “pura sorte”.

Por mais que não seja matéria política (ou sequer religiosa), seria interessante que um ministro de Estado mostrasse mais esmero ao condenar afirmações à Eternidade (ou seja, à internet). Darwin não conhecia a genética (a bem da verdade, em seu livro, praticamente aceita os pressupostos da mutação de Lamarck). Não poderia, portanto, ter encontrado uma hierarquia ainda desconhecida em sua época entre os seres vivos.

Mas muito menos teria suposto que toda a vida tem origem em uma ameba. Nem a genética moderna com um século de idade pós-Mendel pensaria tal platitude. Dos 3 Domínios, os mais “antigos” e de organismos mais simples são os Monera e os Archea, havendo uma discussão até hoje sobre qual deles provavelmente é o mais antigo (possivelmente os Archea). Amebas são eucariotos (do domínio Eukaryota), mostrando que, até além dos Reinos, Crivella chutou baggianamente pra longe do gol. São células bem complexas, com muitas estruturas enclapsuradas em uma membrana e até bem grandinhas (0,5 milímetros de comprimento por 0,2 de largura).

Apesar das palavras de apelo popular, esta é uma errônea concepção que tem pelo menos uns 40 ou 50 anos. Será que não é possível discutir e criticar os maiores cientistas do mundo usando conceitos apenas escorregadios, ao invés de francamente contraproducentes? Será que é preciso desconhecer completamente umas aulinhas de Biologia mais básica para conseguir pregar criacionismo? Deixemos que Crivella nos responda essa.

O ministro prossegue atribuindo a Darwin a afirmação de que “as espécies não iriam apenas evoluir no seu gênero, como criar novas espécies”. Vamos lembrar daquela frasezinha gloriosa que nos salvou em diversos vestibulares de biologia: depois de Domínio e Reino, quais são as categorias hierárquicas dos seres vivos, agrupadas por características em comum? Fila cansa ou faz a gente esperar. Ou seja, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie. É a famosa Taxonomia de Lineu, utilizada desde o século XVIII (bem antes de Darwin, portanto). Um gênero é uma categoria mais abrangente que uma espécie – na verdade, essa diferenciação está já nas Categorias do Órganon de Aristóteles: em sua lógica, o gênero é a parte da essência que é comum a entes de espécies diferentes. Assim, duas espécies podem ser do mesmo gênero, sendo o gênero as características em comum entre elas.

Na Biologia, uma espécie é uma divisão da família, a qual se divide em espécies (tudo de acordo com o Dicionário Filosófico do católico e muito pouco afeito a Darwin Mário Ferreira dos Santos, o maior filósofo da língua portuguesa). Por sinal, duas espécies distintas podem se reproduzir e gerar descendentes férteis – lobos e cães, por exemplo. Mais de 70% das raças de cachorro que existem hoje foram criadas pelo homem. Se podemos criar novas raças por tal fenômeno, com alguns anos a mais também é possível criar espécies, e gêneros, and so on. Pode haver algo mais factual a respeito da certeza da evolução por seleção natural que isso?

Como seria possível, portanto, que Darwin, e não Crivella, acreditasse que espécies iriam evoluir “não apenas” em seu gênero, como também criar novas espécies, sendo que é preciso sair não apenas da própria espécie para criar um novo gênero? Por isso há um movimento oposto entre generalismo e especialismo. Entre generalidades e especialidades.

O que ainda devemos a Darwin pode ser usado em uma área bem mais próxima à Pesca e Aquicultura de Crivella: o mercado. A economia parece dizer que o mercado se assemelha a uma comunidade ecológica, uma reunião de diversos agentes buscando o próprio benefício e eventualmente colaborando com outros agentes quando isso lhe é mais favorável. E quanto mais rica a comunidade, maior a redundância e a tendência à ocupação de nichos específicos. Assim, se uma espécie desaparece, outra toma logo o lugar sem afetar demais o funcionamento da comunidade como um todo. E o tal equilíbrio natural da comunidade é apenas a incapacidade de uma única espécie dominar toda a comunidade.

Para Crivella, “todas essas teorias” foram debatidas e (lá vem o clichê):

“Não passam de teoria. E portanto, sr. presidente, não há provas conclusivas de que haja qualquer indício na natureza de que uma espécie possa gerar outra espécie. Se a teoria de Darwin fosse uma realidade, teria o consenso da comunidade científica, como têm as leis de Newton, ou as leis de Einstein, mais recentemente.”

Ora, novamente há uma confusão entre o sentido populacho de um termo e o sentido rígido e científico: uma teoria científica não é uma hipótese (algo que pode virar uma lei científica) ou mero achismo. É um conjunto de princípios rigidamente organizados que podem explicar fenômenos da natureza. Uma teoria incorpora diversas leis – Darwin, por exemplo, incorpora leis econômicas de Malthus e as aplica à ecologia. Uma teoria, se provada 100% válida, continua sendo “teoria”: já uma hipótese é que, se comprovada, vira uma “lei” científica. Porém, uma lei científica sim precisa de uma teoria para ser justificada. Uma lei pode ser mostrar falha com uma teoria mais abrangente e continuará sendo uma lei… que não funciona. Lamarck também tem uma lei, e ninguém o leva a sério hoje (descontando-se a aproximação forçada e inconsciente de Crivella com Charles Sanders Peirce, que confunde “verdade” com “aceitação pela comunidade científica”).

As leis de Newton, ao contrário do que Crivella afirma, começam a falhar em velocidades superiores a 100.000 m/s – e continuam sendo leis, dentro da teoria de Newton. E, por sinal, Einstein não só criticou a teoria de Newton (mostrando um escopo mais abrangente onde estas são falhas), como criou uma fórmula, mas não uma lei – leis científicas precisam conseguir serem expostas em uma frase; se você conseguir explicar a teoria da evolução em uma frase, está aí a “lei da Evolução”, embora isso não signifique correlação perfeita com a natureza, exceto dentro de uma teoria que a explique. Einstein não propôs apenas uma teoria, mas duas. E isso ficando apenas nas questões da Relatividade. Será que a Relatividade é “apenas uma Teoria” sem fundamento na natureza? Pergunte para alguém em Hiroshima. Mas, para Crivella, parece que com isso devemos parar de temer maçãs caindo na nossa cabeça.

Não contente com tal demonstração de cientificidade, Crivella ainda questiona: “Se a vida provém de uma ameba, e a ameba, provém de onde?”. Aí está a importância de não confundir bactérias procarioontes com amebas: sem membrana e tendo pouco além de aminoácidos em sua estrutura, fica mais claro explicar o “milagre” de Crivella (que tampouco se preocupa em explicar a origem dos seus milagres). Será que nosso ministro conseguiria passar num vestibular lidando com a hipótese de Oparin e Haidane, já parcialmente comprovada com o experimento de Urey-Miller?

Para completar, pede um fóssil que seja “metade anfíbio, metade peixe”, ou “metade homem, metade macaco”, caindo na velha esparrela do “elo perdido”. Será que faz sentido termos um ministro da Pesca proferindo tal platitude, sendo que antes da genética, ainda com Darwin, já se sabia que homens e macacos apenas têm um ancestral em comum, não derivando um do outro?

Bem, Marcelo Crivella já afirmou que “Colocar minhoca no anzol a gente aprende”. É, bem… está razoavelmente implícito aí o que falta a Crivella.

Pode parecer apenas bobagem de quem gosta de discutir na internet. Mas basta ver o que a bancada evangélica anda fazendo na Câmara de Deputados para ver até onde isso pode ir. Com a palavra, os “concorrentes” de Crivella, dando um lindo showzinho com o nosso dinheiro:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Lz_V-Nr4cqw[/youtube]

(com colaboração do excelente evolucionista Doutor Gori)

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Acredita que a teoria de Darwin é facultativa. No Twitter, @flaviomorgen

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