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Visando as eleições, governo pretende manter no exterior estudantes que deveriam voltar ao Brasil

A Capes sugeriu o retorno imediato. No entanto, o governo a ignorou “devido ao potencial impacto político do seu retorno”. Os alunos seguem estudando fora a um alto custo.

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O governo Dilma Rousseff, buscando cumprir uma meta arbitrária de 100 mil estudantes participando do Ciência sem Fronteiras, quer pagar para que os interessados no programa que não possuem fluência em inglês aprendam a língua. Por não dominarem o idioma, os alunos não recebem aceite das universidades. Dos 18 mil que vão para os Estados Unidos, 43% precisarão entrar para o “Inglês sem Fronteiras”. Matias Spektor, em sua coluna na Folha, foi quem chamou atenção para o objetivo torto:

Só que o governo se interessa menos pelos alunos do que pelo cumprimento da meta arbitrária dos 100 mil. Assim, decidiu despachar meninos para os países de destino a fim de estudar inglês, não ciência. Espera-se que eles adquiram fluência em língua estrangeira, em nível acadêmico, em poucos meses. Além de irrealista, a medida é um desperdício faraônico de dinheiro público.

(grifos nossos)

O problema maior estaria nos alunos que, mesmo após o curso intensivo de línguas, não consigam ser aceitos nas universidades por falta de fluência. O governo segue com medo do impacto negativo da volta dos estudantes.

A Capes sugeriu trazê-los de volta de imediato. No entanto, como revelou esta Folha no domingo passado, o governo rejeitou a proposta “devido ao potencial impacto político do seu retorno”. Os meninos continuam fora, estudando línguas por doze meses, a custo de ouro.

(grifos nossos)

Isso, claro, pede mais verba pública. E o Ciência sem Fronteira está solicitando um aporte orçamentário de R$ 863 milhões. O programa já iniciou seu último ano de atividade e ainda restam 40 mil alunos para atingir o objetivo inicial.

Parceria com a iniciativa privada não deslanchou

Mas as dificuldades para cumprir a meta não se restringem apenas ao idioma. Quando concebeu o programa, os cofres públicos dispunham de recursos para bancar 75 mil bolsas. As outras 26 mil seriam pagas pela iniciativa privada. As negociações não fluíram e, desse total, alegava-se que apenas 13% delas foram financiadas. Embora a Associação Brasileira de Indústria de Base afirme não ter conseguido reunir o montante necessário para cumprir o prometido, o problema não era dinheiro.

O que o setor privado discute é o perfil dos bolsistas do Ciência sem Fronteiras. Informalmente, o setor privado alegou que o governo os selecionou sem critérios precisos, distribuindo bolsas de forma indiscriminada. A iniciativa privada quer definir ela própria os critérios das bolsas que financiará. Entre outras reivindicações, ela deseja financiar pesquisadores que estejam vinculados não a uma universidade, como quer o governo, mas a cursos tecnológicos que atendam às necessidades do setor produtivo.

Essa falta de critério também era uma alegação das entidades científicas do país. Quando o governo cortou parte significativa do financiamento para o fomento da ciência e da tecnologia a fim de bancar o investimento no Ciência sem Fronteiras, elas acusaram o programa de ter sido concebido às pressas, sem planejamento nem rigor técnico. E afirmaram ainda que os cortes feitos no Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) terão grande impacto nas pesquisas.

“Precisamos de recursos para pesquisas. De alguma forma o valor destinado ao Ciência sem Fronteiras terá de ser compensado. Caso contrário, o impacto na área científica vai ser grande”, afirmou, no mesmo evento, o matemático Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências.

Não que o ENEM seja um exemplo atual de sucesso, mas se trata de um projeto que começou em 1998 com metas bem realistas e caminhou sem muitos percalços até o PT começar a usá-lo com objetivos eleitorais. Desde então, o programa vem constantemente tentando dar passos maiores do que a sua estrutura permite, o que abre muito espaço para justas críticas e pouco para os ajustes necessários.

O Ciência sem Fronteiras já nasce refém deste uso e se vê na obrigação de fomentar a base que deveria receber pronta, buscando cumprir prazos que só se justificam pela possibilidade da reeleição em outubro. No meio acadêmico, há um sentimento de que o governo vem fazendo muito pela educação. No entanto, com metas cumpridas corretamente ou não, é o exato sentimento que o partido precisa para se manter no poder.

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