Marlos Ápyus

Antibiótico veterinário pode evitar que fetos sejam infectados pelo vírus da zika

Foto: James Gathany

Espera-se que o sucesso do estudo tire “o aborto na agenda de debates”

Pouco se falava sobre o tema quando, em 5 de fevereiro, O Globo disse em editorial que a microcefalia punha “o aborto na agenda de debates“. Já no início, informava que a OMS não tinha ainda reconhecido a relação entre a má-formação de alguns bebês o vírus da zika. Destacou até mesmo que a vigilância sanitária brasileira só tinha passado a monitorar os casos apenas quatro meses antes. Mas já via ali uma brecha para debater “os limites legais do aborto“.

Para isso, como se fossem banais numa discussão de tamanha importância, colocava “questões éticas e religiosas à parte“. E sugeria que o diagnóstico tardio da microcefalia fosse contornado dando “à gestante a opção de, tendo contraído a zika, decidir pelo aborto preventivo“.

Aborto preventivo. Como se já houvesse na ciência alguma consenso a respeito do exato momento em que o feto deixa de ser um amontoado de células para se tornar um indivíduo cuja vida precisa ser protegida.

Porque o aborto não é um embate entre homens e mulheres, mas entre pais e filhos. E encarar a questão como uma luta entre machistas e feministas é simplesmente ignorar que o bebê a ser abortado pode ser, assim como a mãe, do sexo feminino. Ou mesmo que, tantas vezes, o maior interessado na interrupção da gravidez é o pai.

Por se tratar de um ser humano que ainda não tem nem como se expressar, cabe sim ao Estado defender-lhes, ainda que seja da própria família.

O vírus é conhecido desde 1947, mas surtos de zika são recentes. O mais antigo data de 2007. Só aos poucos o mundo vem estudando o funcionamento da doença no intuito de encontrar uma cura. Do pouco que se sabia, havia a certeza de que a maioria das mães que a contraíam nada transmitiam aos filhos, ou mesmo que a maioria dos fetos com microcefalia sobrevivia ao parto, mesmo que para uma vida complicada. De resto, incertezas.

Se cientistas do mundo todo tinham tantas dúvidas sobre o tema, por que jornalistas tinham tanta certeza de que o aborto seria a solução?

Porque jornalistas são profissionais irresponsáveis. Simples assim.

Apenas cinco meses se passaram desde aquele editorial. Agora, cientistas americanos descobrem que um antigo antibiótico veterinário pode bloquear a passagem de zika para o feto. É ainda um estudo, mas os pesquisadores de São Francisco e Berkeley soam animados com os resultados.

Que a animação se converta em vidas salvas. O quanto antes.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, trabalhou por 15 anos como desenvolvedor web e músico. Além de colaborar com o Implicante, atualiza o apyus.com, seu site pessoal. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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