Marlos Ápyus

Estava na cara que a Olimpíada traria problemas ao RJ, mas o PT ignorou

O Rio de Janeiro só virou sede olímpica porque o COI ficou sem opções viáveis

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O processo de seleção da sede olímpica de 2016 se iniciou em maio de 2007 e se encerraria dois anos e meio depois, em Copenhague, na Dinamarca. Apesar de os brasileiros terem comemorado bastante, revisitando todo o processo confirma-se que o Rio de Janeiro de fato foi uma péssima escolha de um Comitê Olímpico Internacional já sem opções viáveis.

De início, outras seis grandes cidades se inscreveram: Chicago, Doha, Tóquio, Madri, Baku e Praga. Numa primeira avaliação técnica, as duas últimas, com notas inferiores a 6, foram logo descartadas. Mas só quatro participariam da etapa final, uma vez que Doha seria eliminada por necessitar que a competição se realizasse em outubro, quando o clima no Golfo Pérsico é um pouco menos sufocante.

Das quatro finalistas, com uma nota 6,4, o Rio de Janeiro era de longe a menos preparada para o evento. Tóquio (8,3), Madri (8,1) e Chicago (7,0) apresentavam condições bem mais atraentes. Até mesmo a desclassificada capital do Qatar, avaliada com um 6,9 sob um clima desumano, havia se saído melhor. Mas a representante americana seria a primeira a cair nas votações de 2 de outubro de 2009. E o motivo era claro: os Estados Unidos ainda digeriam a crise de 2008 e a própria população se dizia contra a investida, com direito até mesmo a protestos na véspera.

Todavia, na primeira rodada, o Rio de Janeiro superaria até mesmo Tóquio, que também enfrentava manifestações por parte da população local e cairia na rodada seguinte, quando o Brasil não só herdaria os 18 votos que Chicago recebera, mas também dois da capital japonesa. Shintaro Ishihara, que governa a região desde 1999, chegou a insinuar que Lula fizera promessas ilegais nos bastidores.

Na terceira e última rodada só restaria Madri, que já ficara 17 votos atrás dos 46 votos acumulados pela candidatura carioca. Mas a capital espanhola era dona do projeto mais criticado por envolver leis antidoping confusas. Dos vinte votos recebidos pelos japoneses, apenas três se transfeririam para os espanhóis, restando ao Rio de Janeiro uma vitória com larga margem (66 a 32).

Para premiar a capital fluminense, o COI precisou acreditar que os graves problemas estruturais seriam resolvidos nos sete anos seguintes. Os poucos que se atreviam a criticar o governo Lula em 2009 alertavam que aquela era uma aposta arriscada demais para um evento de tamanho porte assumir. Que tragédias econômicas decorrentes dos jogos olímpicos de Atenas e Montreal já tinham prejudicado democracias até mais sólidas. Mas essas vozes eram logo contidas pela própria opinião pública brasileira que, naquele outono, aprovava tudo o que o PT propunha.

Os tais sete anos se passaram e o governador do Rio de Janeiro veio a público nos últimos dias decretar estado de calamidade pública em decorrência da preparação do evento. Autoridades aproveitaram a deixa para esclarecer que a estrutura médica do estado não tem condições de atender nem mesmo a própria população, quanto mais os milhares de turistas que visitarão a cidade. Se na Grécia e no Canadá os estragos vieram depois dos jogos, o Brasil conseguia bater a meta e apresentar a própria ruína 50 dias antes do início da competição.

O mais amargo, no entanto, é a constatação de que tudo aconteceu mesmo após tantos alertas – solenemente ignorados.

A Rio 2016 pode até vir a ser uma boa forma de entretenimento ou, de alguma outra maneira, reverter a imagem que se tem dela neste momento. Mas já entrou para a história como um evento que prejudica as camadas mais pobres da população para que uma elite selecionada possa se divertir. Mesmo que medalhas de ouro venham, e há até o risco de elas não virem, será difícil comemorar.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, trabalhou por 15 anos como desenvolvedor web e músico. Além de colaborar com o Implicante, atualiza o apyus.com, seu site pessoal. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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