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A greve das federais contra o MEC: a luta do século

“Es la pelea de dos calvos por un peine”
(“É a luta de dois carecas por um pente”)
— Jorge Luis Borges, sobre a guerra das Falklands

Pelos últimos 2 meses repetiu-se ad nauseam pelas redes sociais um estranho discurso: de que as Universidades Federais estão em greve há mais de um mês (agora dois) e a mídia não fala nada.

Conclusão estranha. Essa sentença (sempre repetida de maneira idêntica, sem nem trocar a ordem das palavras) estava em blogs da grande mídia. Estava em reportagens nas seções de Educação de todos (absolutamente todos) os grandes jornais e revistas. Parece que se algo não sai no Jornal Nacional, ainda não “saiu na mídia” o suficiente. Mas desde a primeira semana dessa greve isso estava até no jornal mais assistido do país:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=4Wn218m4zac[/youtube]

Bordões não foram apenas criados pelos grevistas para as suas reivindicações: tornaram-se mesmo a própria notícia – um suposto “acobertamento” da imprensa (sempre ela, aquela tal de “mídia”) do que acontecia nas Universidades Brasil afora. Curiosamente, o único veículo de imprensa que pauta o Brasil inteiro que não comentou a greve (mais por preguiça do que por omissão) foi o Implicante™.

Instado que este império da mídia foi pelos diversos setores da sociedade civil, militar e eclesiástica para alumiar o debate nacional e internacional com nossa opinião, somos obrigados a admitir que, na prática, já comentamos o caso diversas vezes – mormente após a cobertura completa do imbróglio da USP no fim do ano passado e no começo deste ano.

Interpretando corretamente os fatos, temos o seguinte: o MEC está errado porque quieto já está errado. Se ao invés de um órgão burocrático estatal o MEC fosse uma empresa, estaria disparadíssimo em reclamações no Procon, a frente de empresas de telefonia, provedores de internet e empresas que geram comoção nacional por usar modelos gostosas para vender calcinhas. A educação pública superior sofre com seu órgão controlador central desde antes de alguém chegar à Universidade, como os escândalos com o ENEM (algum, alguma vez na história, já deu certo?).

Todavia, embora adoremos criticar a turma da Dilma por esporte, não adianta se aliar a todos os seus acusadores – sejam os mais delicados, com dedinho e riste, dorso da mão esquerda à cintura e pézinho a fustigar violentamente o assoalho, até a turma hardcore do sovaco revolucionário apresentado quando são levantados cartazes contra o governo.

Na prática, um dos lobbies mais fortes que existe no Brasil é dos professores. Quem tem coragem de ir contra um “educador”? É claro que, assim que se pisa porta adentro de uma sala de aula, uma grande parcela dos professores desponta como uns completos idiotas – assim como, afinal,  a maior parte da população. Alguns estão ali de má vontade, apenas pelo dinheiro, ou simplesmente fazem muito mal o seu trabalho. Entretanto, o professor é encarado como entidade sacrossanta assim que deixa sua condição de ser humano para ser uma abstração: O Professor. Se algo vai contra o que Um Professor pensa, invariavelmente parece fascismo. O Professor, então, pode tudo – ou ao menos pode falar tudo. E “tudo” é um todo que inclui as coisas erradas. É, afinal, o que acontece no caso dessa greve.

Pelo que se consta, agora o governo resolveu conceder um reajuste de 25 a 40% para professores em greve. O novo acordo ainda será apresentado formalmente aos professores para tentar dar um fim a uma greve que ameaça acabar com o segundo semestre de aulas e, pestis fucifer!, até mesmo cancelar o vestibular em algumas Universidades, como já foi aventado. Informa o Estadão:

Os novos percentuais de reajuste não atingem os professores que estão no topo da carreira. Os professores titulares, com doutorado e dedicação exclusiva, mantiveram o aumento em seus salários, que vão saltar dos atuais R$ 12.224,56 mil para R$ 17.057,74 mil. Já os vencimentos dos professores com doutorado e 40 horas semanais pularão dos R$ 5.918,95 propostos pelo governo há duas semanas para R$ 7.859,61. O governo também concordou em antecipar o pagamento dos reajustes do mês de julho para março dos anos de 2013, 2014 e 2015.

Estranho que logo os professores no topo da carreira não sejam voz tão marcante no lobby. Não vale uma análise da atuação sindical por si? Esta greve, de forma análoga ao que aconteceu na USP no fim do ano passado, começa com um núcleo central – geralmente sindicatos como a Apeoesp ou tantos outros sindicatos de professores que atuam no Brasil, com claríssimos braços partidários (e aqui, quando se pensa em “sindicato partidário”, deve-se lembrar que o PT costuma ser uma microminoria: quem manda lá é a ala heavy metal de PSOL, PSTU, PCB e afins). Órgãos organizados politicamente (e com preocupações bastante remotas com Educação), usam bandeiras popularescas para mascarar seus interesses próprios – como a falsidade dos 10% do PIB para Educação. Conquistado o povo, passa-se a discutir fatores que ao menos pareçam com a causa inicial da greve (aqui, qualidade da Educação; na USP, falou-se até em fim do vestibular). Ao se negar exatamente o que o sindicato exige, parece que está se negando algo como defender a qualidade da educação. A escolha dos bordões é feita com rigidez soviética.

A proposta dividiu os professores. Informa o Estadão:

O Sindicato Nacional dos Docentes de Instituições de Ensino Superior (Andes), que representa o maior número de instituições, rejeitou a proposta. A decisão deve ser debatida entre esta quarta e segunda-feira nas universidades em greve.

Segundo o diretor do Andes Josevaldo Cunha, o governo não avançou nas reivindicações de reestruturação de plano de carreira. Ele criticou o “ultimato” de Mercadante. “É até desrespeitoso o ministro dizer isso, de outro país, sobre uma greve que tem respaldo da sociedade.”

A última frase é marcante. Nossa opinião sobre Mercadante é 100% ilibada: ou seja, a pior possível. Mas por que uma parte das negociações, a única que está cedendo cada vez mais, não pode dar um “ultimato”? Claro que o “respaldo da sociedade” foi conquistado com uma boa propaganda, mas a greve também prejudica muitos alunos. Acaso os professores grevistas quiseram ouvir a opinião destes últimos? Acaso querer negociar e acabar com a greve pode ser considerado “desrespeitoso”?

Como sempre, não há exatamente o que elogiar na atual governamental. O modelo de educação no Brasil não se sustenta: cada vez investimos mais dinheiro para menor resultado. Parte disso é reconhecida até pelos sindicatos, como o sindicato dos servidores técnicos (Sinasefe): “O governo insiste em não fazer uma verdadeira reestruturação da carreira”. Não há uma única discussão séria corrente sobre qualquer mudança estrutural no modelo de gestão do ensino público, sobretudo o ensino superior, pelo MEC. A destruição sistemática (lato sensu) da educação brasileira começou, justamente, levando-se a sério as idéias de Paulo Freire, um dos fundadores do PT. Foi esse modelo que manteve uma bigorna sobre nossa capacidade de crescimento educacional: já ultrapassamos a Inglaterra como economia, mas ainda não passamos a Bolívia ou a Zâmbia em Educação.

Mas ao invés de se criticar o modelo, apenas há a gritaria de sempre: pedir para se injetar mais dinheiro no mesmo beco sem saída, nem sempre com uma justificativa que feche a conta. Há o perigo freqüente (e não iminente, o que não consegui aprender com nenhum professor) de cair na esparrela de grupelhos ainda mais capengas. Se o modelo atual está errado e deve ser discutido e trocado, não se obterá os melhores resultados do mundo apenas o aprofundando e o alastrando.

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