Camilla Lopes

Cavalheirismo não é machismo, é só um sinônimo de gentileza

Desdenhar ou querer dar uma aula de sociologia em uma situação em que um homem tenta ser cavalheiro é de um pedantismo doentio. Não seja idiota

Cavalheirismo - Machismo

Há tempos o feminismo convencional tem mirado no termo “cavalheirismo” como algo ameaçador. Já li em algum lugar que o cavalheirismo é “o machismo envernizado”. Aparentemente, é como se um homem que presta honrarias a uma mulher fosse uma raposa disfarçada, esperando o melhor momento para enganar, ludibriar e se apoderar dessa pobre mulher vítima de um macho que se ofereceu para abrir a porta do elevador para ela. Que elas não me ouçam, mas esse é até um comportamento inconscientemente cristão, porque o diabo sempre se mostra sedutor e quando o incauto é seduzido pela fala mole do capiroto todos os males lhe acontecem porque no final das contas o diabo é o diabo. E assim tem sido visto o cavalheirismo masculino.

O que é um grande equívoco nessa história toda, além da óbvia desumanidade em encher o saco dos caras por nada, é que as investidas cavalheiras podem ser apenas uma tentativa de colocar em prática o melhor da educação que esse homem em questão recebeu da família. Famílias de rapazes simples podem apenas estar tentando educá-los para tratar com muita polidez uma mulher. E isso é tão bonito! Desdenhar ou querer dar uma aula de sociologia em uma situação em que um homem tenta ser cavalheiro é de um pedantismo doentio, reação tão infame quanto o ateu que responde “não acredito em Deus” quando alguém lhe deseja que fique com Ele. Em ambos os casos basta dizer “obrigado (a)”. Não seja idiota.

É comum, pelo Brasil, o conceito de que as mulheres são mais frágeis e portanto mais suscetíveis a certas situações que os homens. Nós somos latinos e em certo aspecto as mulheres são mais frágeis mesmo. Pela simples diferença da compleição física e nada mais, não há nenhuma outra teoria oculta, é coisa de biologia. O corpo masculino tem, em geral, mais capacidade cardíaca e pulmonar – ao menos que você seja uma atleta e tenha superado isso. Negar que somos biologicamente diferentes é uma perda de tempo que não leva a um lugar lúcido dessa discussão dos direitos inerentes aos gêneros e demais questões. Homens querem proteger mulheres. Que que tem? Isso não faz de nós seres incautos, frágeis e quase princesas anencéfalas.

Em uma busca simples pelo significado “cavalheirismo” se encontra apenas adjetivos que – desculpe essa frase de ursinho carinhoso – poderiam fazer um mundo melhor: nobreza, cortesia, gentileza. Não tem como dar errado um gesto cavalheiro que, prestem atenção, em nenhum lugar da história da nossa civilização está escrito que deva partir um homem para uma mulher. Já pararam pra pensar que mulheres podem ser cavalheiras? Sim, o substantivo existe na língua portuguesa na flexão do gênero feminino, ninguém precisou forçar a barra como no episódio recente do uso do “presidenta” – cruz credo, inclusive.

Toda essa desconfiança com o cavalheirismo me faz lembrar Dom Quixote: um homem que é gentil e sua gentileza faz dele um bobo ou um ser maligno como alguns acreditam nessa contemporaneidade. Sabe aquele sentimento de compaixão e admiração concomitantes? O sentimento que dá um nó na garganta como naquele filme “O Campeão” do Franco Zefirelli em que o John Voight morre no ringue? Porque vai haver um Dom Quixote nessa história toda, alguém simples que acha correto o seu cavalheirismo compartilhado com homens e mulheres e que de repente descobriu que seu jeito de ser, o que lhe ensinaram ser certo, na verdade é errado. Independentemente do cavalheirismo, a maldade, a grosseria e a violência vão existir. Pode reparar, a sociedade agora deu de querer acabar com as coisas bonitas da vida.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

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