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Dilma e Eduardo Paes “inauguram” prédios vazios no RJ

por Flavio Morgenstern

Através do programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes iria inaugurar sua campanha: a entrega de 281 apartamentos do programa Bairro Carioca seria um evento tão importante que valeu o escalonamento da própria presidente da república Dilma Rousseff para… para… bem, para as fotos.

O evento no bairro de Triagem foi tumultuado, entretanto, por um protesto de alguns estudantes, em meio ao alto montante de eleitores. Informou a Veja:

Quando a presidente assumiu o microfone, a programação desandou. Um grupo de 20 pessoas abriu cartazes para cobrar que 10% do PIB sejam investidos em educação. Dilma fez um pronunciamento breve, tentando ignorar a confusão na plateia, mas era impossível não notar o estrago. Pouco mais de uma hora depois, na zona sul, outro protesto, este de servidores federais da educação e da saúde, transformou a agenda positiva da presidente em um dia incômodo no Rio.

“Querido, nós vivemos em uma democracia. Vocês querem o quê?”, respondeu Dilma, quando perguntada a respeito da manifestação no fim da manhã, na zona sul. A presidente, o governador e o prefeito inauguravam a Coordenação de Emergência Regional no Hospital Miguel Couto, no Leblon, zona sul do Rio.

Parecia que o problema era apenas pontual. Os típicos estudantes grevistas contra o partido que parece ter traído o movimento punk. O busílis lembrava uma típica animosidade entre sindicalistas rivais nos longínquos anos de 89 pra trás: o Partido dos Trabalhadores sendo criticado como pelego por estudantes e profissionais de saúde, com choque com a polícia entremeando um conflito destes grupos com parte a população, que, como de costume, em nada parecia concordar com os estudantes: estava mais preocupada em receber logo as chaves dos novos apartamentos:

Copos d’água e papel foram jogados contra os manifestantes, que pertencem a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e da União Nacional dos Estudantes (UNE).

O empurra-empurra continuou até o fim do evento. “Estamos dando mais um passo para colocar um tijolo na construção de um Brasil melhor. É o tijolo que Eduardo Paes, Sérgio Cabral e o governo federal estão colocando aqui”, disse Dilma, enquanto a confusão tomava conta da plateia. (…)

Dilma, Cabral e Paes têm uma inauguração no Hospital Municipal Miguel Couto, na zona sul. O prefeito seguirá ainda para um terceiro lançamento: as obras do Parque Olímpico, na zona oeste. Esta será a última inauguração de obras do projeto olímpico do Rio.

Apesar de o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) considerar que não há ilegalidade na presença do prefeito peemedebista em eventos claramente eleitoreiros como este, o Ministério Público Eleitoral recomendou a Paes que não fosse às inaugurações. A brecha legal foi encontrada, e como de praxe, a brecha ética – e até mesmo lógica – veio de brinde.

O evento de entrega de chaves dos apartamentos aos moradores realizou só esta parte simbólica do ato: entregar as chaves. Os apartamentos continuam vazios. Os futuros moradores, que deveriam ser parte dos desabrigados pelas chuvas de 2010 (ignorando-se todas as outras chuvas que desabrigam tantas pessoas atavicamente no Rio de Janeiro, sem reação alguma dos políticos fluminenses), receberam chaves para apartamentos vazios. Obviamente, nem os beleguins de Dilma que a defenderam na sexta-feira de 6 de julho rondam agora as obras.

Os apartamentos permanecem sem água, luz, gás. Apesar da pipoca, balões e algodão doce da festa com Dilma, Paes e o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, as 460 unidades em estágio de obras mais avançado ainda não podem receber novos moradores. Entulho, terra e buracos para a criação de bueiros, além de algumas pias e privadas jogadas à frente dos prédios sem reboco e finalização, são tudo o que os moradores desabrigados podem ter – além de algodão doce e sorrisos simpáticos da presidente da República, obviamente.

Quando se elogia os programas do governo, é costume esquecer quanto essa mesma população paga em escorchantes impostos para ganhar algodão doce, e o quanto ficam sem dinheiro graças a isso para, afinal, deixarem as áreas de risco e poderem viver com dignidade – no que as manobras afirmativas do governo mais atrapalham do que ajudam. Por outro lado, sempre podemos deslocar a presidente da República para a ritualística simbólica e nada prática do beija-mãos da população – mesmo sem ter o que oferecer ao povo. É uma manobra típica para progressista ver.

 

Flavio Morgenstern é redator e tradutor. Nunca ganhou algodão doce de Dilma Rousseff. No Twitter, @flaviomorgen

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