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Filho de Dirceu não assinou CPI do Cachoeira. Ué! O PT não era contra a “operação abafa”?

por Flavio Morgenstern

Um governo democrático deve, naturalmente, nutrir um profundo respeito pela imprensa. Não apenas para manter o título de democrático, mas por preguiça: a imprensa faz sozinha as acusações contra os desviadores sem custar nada ao próprio governo. Se você é um governante honesto, vai achar tal efetivo uma mamata. Se você é um governante corrupto, também vai gostar de ver a imprensa apontando a ladroagem e te livrando da concorrência e de mais sequazes com quem dividir o butim.

A cruzada lançada por algumas forças petistas, capitaneada por vídeo de Rui Falcão (PT-SP) sobre uma CPI que busca investigar “o ‘escândalo’ dos autores da farsa do mensalão” (sic), tem como alvo “setores políticos, veículos de comunicação”. Bem entendido, o dois coletivos abrangem basicamente a totalidade dos seres vivos interessados em política no país. Aparentemente, a possível exceção aventada por Falcão seria o próprio PT. Ao menos, é o que ele parece querer indicar, ao falar de “os partidos políticos comprometidos com a luta contra a corrupção, como é o caso do PT” (risos).

Se tal fosse verdade, aparentemente há uma cortina de fumaça lançada por bombas ninja pela imprensa para acobertar o caso Cachoeira. Estranho, se todos os jornais e revistas do país não param de falar do caso. Aliás, mal falam de outra coisa em suas colunas de política: é Cachoeira, Cachoeira e Cachoeira (basta ver como está a capa desse site). O cidadão está onipresente, enquanto Rui Falcão e a turminha que acredita naqueles blogs jura de pés juntos que está vendo uma operação orquestrada para ninguém comentar o caso Cachoeira. Ou não estão vendo o nome dele em nenhum canto da “grande mídia plus Implicante™“. Como diz a irritante mania propagada pelo Twitter, “é, só que ao contrário”.

Mas restariam “os setores políticos” aparentemente interessados em encobrir o caso. O próprio Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) afirmou que o Congresso tem razão para querer instaurar a CPI. E já mostramos aqui como, na verdade, a base governista é que iniciou uma operação abafa, tentando usar a CPI para tentar desviar o foco do julgamento do mensalão que se aproxima (já que o próprio Rui Falcão chama a CPI, desabridamente, de CPI para averiguar o “escândalo” que seria a “farsa do mensalão”), tática que os próprios petistas de outros estados acharam “uma burrice”.

Então, quem seriam os políticos interessados em atrapalhar o paladinesco trabalho ético do PT? Para uma CPI com 72 votos dos 81 senadores e 396 dos 513 deputados, é mais fácil verificar quem votou contra, ao invés de se procurar nomes que a apoiaram. Para quem entende quem verdadeiramente abafa quem, não supreende: os próprios petistas e seus aliados votam contra a CPI que Rui Falcão afirma servir para apagar da memória do povo o mensalão (o que deixou até a presidente Dilma irritada, embora isso não parece ser muito fora do comum). Entre eles, um nome se destaca: Zeca Dirceu (PT-PR), filho de José Dirceu, o principal nome… do mensalão. No Estadão, com título que fala por si (“Jaqueline Roriz, mensaleiros e filho de Dirceu não assinaram CPI do Cachoeira”):

Dois réus no processo do mensalão em andamento no Supremo Tribunal Federal não assinaram o pedido: Valdemar da Costa Neto (PR-SP) e Pedro Henry (PP-MT). O deputado paranaense Zeca Dirceu (PT-PR), filho de outro réu, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, foi outro que não assinou. O ex-ministro prestou consultoria à empresa Delta, uma das envolvidas no escândalo que levou à prisão do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

A última deputada a ser salva pelos colegas foi outra a não apoiar a investigação. Jaqueline Roriz (PMN-DF) foi absolvida em plenário mesmo depois de um vídeo no qual aparecia recebendo um pacote de dinheiro de Durval Barbosa, o operador do chamado mensalão do DEM.

Um parlamentar envolvido em outro mensalão, o mineiro, não rubricou o requerimento. O tucano Eduardo Azeredo (PSDB-MG) não deu sua assinatura. Réu em algumas ações no Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-governador Paulo Maluf (PP-SP) também não apoiou a investigação.

Entre os que ficaram de fora da lista está ainda o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS). Ele ganhou fama ao dizer que “se lixa” para a opinião pública quando era relator do processo contra o ex-colega Edmar Moreira, o deputado do castelo que gastava recursos da Câmara com uma empresa de sua propriedade.

Parentes de ministros também não rubricaram: Garibaldi Alves (PMDB-RN), pai de Garibaldi Alves Filho (Previdência), e Lobão Filho e Nice Lobão, filho e esposa de Edison Lobão (Minas e Energia).

Na Câmara, o presidente Marco Maia (PT-RS) e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), já tinham avisado que não assinariam o requerimento devido aos cargos que exercem. O presidente do Conselho de Ética da Câmara, José Carlos Araújo (PSD-BA), e o presidente da CCJ do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), foram outros a não assinar.

Dos parlamentares citados no escândalo que levou a prisão de Carlinhos Cachoeira apenas o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) não rubricou o requerimento. Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Jovair Arantes (PTB-GO), Rubens Otoni (PT-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Necerssian (PPS-RJ) apoiaram a abertura da investigação.

Na “bancada dos famosos” apenas o deputado Acelino Popó (PRB-BA) ficou de fora. Romário (PSB-RJ) e Tiririca (PR-SP) deram apoio à investigação.

(grifos nossos)

Alguma surpresa nos nomes e nos partidos supra-citados? Alguma surpresa em parlamentares citados no escândalo assinarem a favor da CPI, e Zeca Dirceu não? Talvez seja para Rui Falcão e a turma que acredita tão piamente na tese da “operação abafa” e que está há uma semana acusando a imprensa de obstruir as investigações. Talvez seja para os jornalistas que freqüentam “debates” com réus do processo do mensalão, já que seus filhos procuram abafar a CPI do Cachoeira. Parece que quem mais está desesperado para abafar a CPI são, justamente, os mensaleiros.

Estamos no aguardo do pedido de desculpas.

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Acha que Tiririca estava certo. No Twitter, @flaviomorgen

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