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‘O antiamericanismo é um traço obsessivo do Enem’, diz Demétrio Magnoli

Segundo sociólogo, uma das ideias-chave do exame é “a imprensa é má; o governo é bom”.

Do Globo:

ENEM

Em texto publicado no jornal O Globo, o sociólogo Demétrio Magnoli falou sobre as provas do Enem e a “ambição das ditaduras de moldar a consciência política do jovens desde os bancos escolares”.

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A escritura ideológica, patente ou subjacente, atravessa todos os anos as questões de ciências humanas, configurando um padrão facilmente reconhecível.

A propaganda explícita das políticas racialistas é uma marca do Enem. Na prova aplicada anteontem, emerge duas vezes. Por meio da questão 42 (Prova Branca), o jovem candidato é conduzido a aplaudir o Parecer do Conselho Nacional de Educação que instituiu a “Educação das Relações Étnico-Raciais”. A formulação da questão cita um trecho do documento oficial, consagrado a difundir “posturas que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial” – ou seja, uma pedagogia do “orgulho racial”. Num outro trecho, não citado, o Parecer conclama as escolas a desfazer os “equívocos quanto a uma identidade humana universal”, o que equivale a rasgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por meio da questão 37 (sempre da Prova Branca), sutilmente, o Enem traça um fio histórico entre as atuais políticas racialistas e antigas demandas políticas dos “negros”. A formulação cita um trecho do estatuto da Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931 e explica que a entidade foi “fechada pela ditadura do Estado Novo”. Em seguida, conduz o estudante a selecionar a única alternativa viável, que enfatiza o engajamento da FNB na “luta por direitos sociais para a população negra no Brasil”. Os examinadores oficiais operam por seleção e omissão, ocultando a proximidade doutrinária da FNB com os integralistas, também proibidos após o golpe do Estado Novo. O subtítulo do jornal da FNB era “Deus, pátria, raça e família”. Daria uma bela questão, num outro Enem, pautado pelas dificuldades da reflexão crítica, não pelas simplórias certezas do discurso ideológico.

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