Camilla Lopes

Regras e mais regras do neofeminismo de Internet

O movimento que propõe “empoderar” mulheres é implacável com aquelas que optam por não fazer parte dele.

Alguém disse recentemente: poderia ser Justin Bieber, mas é feminismo. Desde que o feminismo tomou conta das cabeças de pessoas preocupadas com as injustiças do mundo, nós mulheres vivemos um fenômeno interessante, porém nada novo.

Estamos em mais um ciclo de determinações e padrões de comportamento que agora surgem desdobrados em um oferecimento de “liberdade” feminina que dos seios ao corpo inteiro diz que você deve mostrar-se como quiser, fazer o que quiser, dormir com quem quiser. Mas nada tão livre quanto parece. São estereótipos disfarçados de liberdade e que não “oprimem” os homens, mas sim as próprias mulheres.

É tão organizado e convicto o feminismo contemporâneo que, da cultura do estupro ao jeito de vestir e de opinar politicamente, exerce uma série de caminhos obrigatórios para as mulheres. As que não se veem nisso, não se encontram nesse discurso salvador das mulheres, são veladamente discriminadas. Devem essas incautas estar influenciadas por homens, pelos preceitos da Bíblia, pela família, por marcianos, menos por iniciativa própria.

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Se você foge ao discurso pró aborto, anti patriarcado, se entende que a cultura do estupro é parte fundamental para o status quo do feminismo contemporâneo, você jamais chegaria à essas conclusões sozinha, está influenciada pelos homens da sua vida. Sim, sempre haverá homens em nossa vida, porque a sociedade não é patriarcal ou matriarcal a sociedade são todas as pessoas com os seus órgãos sexuais e hormônios. Ora, como pode me empoderar um movimento que não crê que posso sozinha construir minhas próprias convicções?

O que propõe “empoderar” mulheres é implacável com aquelas que optam por não fazer parte disso. Há mulheres que jamais se identificariam com nenhum discurso pronto, com os posts dos novos blogs feministas brasileiros que têm todos a mesma fórmula para transmitir esse neofeminismo mequetrefe: situação de humilhação hipotética ou real, desenvolvimento da situação com uma auto avaliação dentro desses preceitos e, por fim, a chamada “para a luta” que convoca outras “manas” para impedir que a situação hipotética ou real volte a se repetir. A salvação pelo feminismo.

Não há nenhum problema nesses textos, aliás, dentro da lei todos os textos são permitidos, mas a esmagadora maioria deles é raso e vulgar por se atrelar a uma experiência pessoal mal resolvida em busca de algum tipo de revanche que lhe proporcione uma vitória moral. Sem a pecha do feminismo, esses textos poderiam ser uma expressão da mais linda e desprendida compaixão em que uma mulher aborda seus problemas e outras a ajudam a superar.

É a oportunidade para despejar os sapos engasgados e falar o que não se pode responder à época em que foi chamada de “gorda” na academia. Aquele evento desagradável em que dentro do ônibus você volta cheia de “e se eu tivesse respondido dessa forma”, “por que não mandei fulano tomar no cu?”.

Evidentemente, a ferramenta mais poderosa da Internet é a identificação e várias mulheres se identificam com aquela vez em que a “gorda foi oprimida pela amiga magra” e aí surge a regra: nunca fale nada de gorda. Para dar um exemplo. Nessa neurose, um simples presente como um livro de receitas detox pode ser encarado como opressão. E no final nos vemos diante de mais um gatilho para um grupo ficar contra outro grupo, para a falta de amor.

Pela ideia, o feminismo surge como ferramenta para proporcionar direitos igualitários para as mulheres e proporcionar mecanismos assistenciais para problemas vinculados ao gênero feminino. Porém, o que está acontecendo é uma série de atitudes em detrimento dos homens, a busca por tirar a masculinidade deles e transformá-los em seres barbudinhos inexpressivos e assustados.

O isolamento da amiga que é viciada em academia ou daquela que passou a defender o direito à vida. Como qualquer movimento coletivo, o neofeminismo é ditatorial e revanchista. Um conjunto de regulamentos disfarçado de “seu corpo suas regras”.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

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