Editorial

Editorial: Ainda não lemos o “livro do Amaury”, mas ELES também não leram

Mais do que as mentiras do ministro Pimentel e notícias sobre cães torturados, o assunto da semana nas redes sociais foi o livro de Amaury Ribeiro Jr., que já mencionamos aqui.

Já no dia do lançamento chegaram comentários nos cobrando que falássemos sobre a  “obra”, que em tempo recorde foi pirateada e tornada disponível gratuitamente a quem tiver paciência de baixar e imprimir ou ler na tela um arquivo PDF de mais de 300 páginas (a título de curiosidade, trata-se de procedimento pouco adotado mesmo com obras clássicas que são de domínio público: nunca vimos a Divina Comédia no Megaupload, por exemplo). Alguns comentaristas já previam que ridicularizaríamos os trejeitos ou aparência física do tal Amaury e/ou que falaríamos sobre “os processos judiciais dele” (e tem como não falar?). Outros diziam que nosso “silêncio”, assim como o da “grande mídia”, havia sido determinado pelo “partido”. Em que década/país essa gente vive? Quando finalmente falamos sobre o livro, depois de um ou dois dias da “ordem de silêncio”, já tinham a certeza de que fomos incumbidos por ele, o partido, para contra-atacar a obra definitiva que prova… prova o quê mesmo? Nem eles sabem, pois ninguém ainda terminou de ler o livro…

O homem

Para os não-iniciados no tema, Amaury Ribeiro Jr. é um ex-jornalista que ganhou notoriedade durante a campanha presidencial de 2010. Amaury foi o responsável pela quebra de sigilo fiscal de familiares do então candidato José Serra e de pessoas ligadas ao PSDB, enquanto trabalhava para a candidata petista. Ele afirmou em depoimento à Polícia Federal que integrava uma equipe de espionagem montada pela campanha de Dilma Rousseff, cujo objetivo era produzir um dossiê para prejudicar a candidatura adversária.

Um comentarista aqui no Implicante chegou a dizer que se trata de “um dos jornalistas mais premiados do Brasil”. Por conta do escândalo, ganhou quatro “prêmios” da PF: foi indiciado sob acusação de violação de sigilo fiscal, corrupção ativa, uso de documentos falsos e por dar ou oferecer dinheiro ou vantagem a testemunhas.

Depois de flagrado no escândalo do dossiê, Amaury Ribeiro Jr. foi contratado pela TV Record. Ele nunca foi visto na programação da emissora e não consta do expediente de nenhum programa jornalístico dos canais ligados à Record (não confundam, amigos: o Programa Amaury Jr. é com outro Amaury, esse da foto que abre o post, e nem passa na Record). Suas funções na TV do autoproclamado bispo Edir Macedo eram produzir e divulgar o tal livro, onde acusa José Serra e pessoas ligadas a ele de terem se beneficiado do processo de privatização de estatais ocorrido no governo FHC.

A lenda

No primeiro texto que postamos sobre o livro, falamos sobre o tal “silêncio” da imprensa alardeado pela petistosfera. A própria editora posteriormente revelou que a cascata fazia parte de uma estratégia de divulgação, e muito provavelmente também recomendação de advogados: nenhuma redação além da revista Carta Capital, notoriamente alinhada ao petismo, recebeu a obra com antecedência. Ao longo da semana, os grandes veículos começaram a falar sobre o livro, e os suspeitos de sempre se apressaram em anunciar o “rompimento do silêncio”.

Mesmo sabendo de tudo que expusemos acima, os valentes petistosféricos seguem cobrando que nós analisemos e levemos a sério o conteúdo do novo “dossiê do Amaury”. Nos enviaram link para uma “entrevista” de mais de uma hora que ele concede a notórios devedores e prestadores de serviços do governo, como se daquilo pudesse ser extraído algum argumento legítimo a ser contestado. Não dá. Ainda que Amaury não estivesse sendo processado por uso de documentos falsos, o que já levanta suspeita sobre qualquer reprodução de documento que ele possa apresentar no livro como prova de qualquer coisa – e já surgem indícios de manipulação grosseira em determinados documentos publicados ali, o que, convenhamos, não deveria ser surpresa para ninguém -, sua obra não resiste a uma leitura atenta e um pouco de lógica. Na primeira resenha sobre o livro na “grande imprensa”(a obra tem cerca de 300 páginas, e a resenha foi publicada apenas 3 ou 4 dias depois de o jornal recebê-la), a Folha aponta a falta de provas das afirmações contidas nele: as acusações seguem um padrão de consistência que aponta, por exemplo, uma transação financeira como pagamento de suposta propina envolvendo privatização ocorrida dois anos (?!) antes.

Para encerrar, outro comentarista afirmou aqui que o livro “prova que são todos farinha do mesmo saco”. Deve estar falando dos serviçais do PT, responsáveis pelo Dossiê Cayman, pela Lista de Furnas e agora pelo “dossiê do Amaury”.

Ainda voltaremos a falar sobre o livro aqui no Implicante. Mas, ao contrário da grande massa de críticos literários que se organizou para divulgá-lo, só o faremos depois que tivermos lido a coisa.

Mais Lidas

To Top