Editorial

Lula, o câncer e a política

O anúncio de que Lula está com câncer pegou a todos de surpresa. Entre os políticos, a reação geral, tanto de aliados quanto de opositores, foi de solidariedade, como é de se esperar. Nos portais e blogs, algumas horas depois já havia dezenas de textos analisando a repercussão e as eventuais mudanças na política com a doença do ex-presidente, antes mesmo de a maioria da população tomar conhecimento do caso. No Twitter, as hashtags #ForçaLula e #LulanoSUS identificavam os simpatizantes e críticos de Lula.

Lula no SUS

A tag chegou a figurar entre os trending topics por algum tempo na tarde de sábado. Muitos (como nós, no post em que demos a notícia) lembraram da declaração de Lula sobre “a saúde no Brasil estar caminhando à perfeição”. Apesar de não haver nada de errado em se cobrar coerência do ex-presidente, é preciso tomar cuidado com esse tipo de proposta: como lembrou o administrador do Implicante, Gravz, em seu blog pessoal, fazer as pessoas escolherem determinado tipo de serviço em função do cargo ou profissão que exercem é inconstitucional e típico de regimes totalitários. Ironicamente, um projeto de lei bem semelhante a esta campanha é defendido por um ex-ministro do governo do próprio Lula: o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) pretende obrigar os filhos de políticos a estudar em escolas públicas.

*ATUALIZAÇÃO* O Gravz postou hoje em seu blog um vídeo de Lula afirmando que desejava ficar doente para poder se tratar na UPA que estava inaugurando em Paulista (PE), quando ainda era presidente:

*ATUALIZAÇÃO 01/11* Também vale o registro do episódio em que Lula repreendeu a mãe de Caetano Veloso, em tom de brincadeira, por não ter chamado o SAMU quando teve um problema de saúde.

Portanto, está provado que quem pede para que Lula se trate no SUS está apenas defendendo uma tese que é simpática ao próprio Lula e seus aliados. Nenhum jornalista, político ou militante petista tem o direito de repreender quem pensa desta forma.

Os petistas e o câncer

No caso do linfoma de Dilma Rousseff, nós já vimos como o PT pode utilizar a doença como “ativo eleitoral”. Em 2009, alguns dias após o anúncio do tratamento da então ministra e candidata presidencial do partido, petistas graúdos como Fernando Haddad e Marco Aurélio Garcia já afirmavam que o câncer de Dilma serviria para fortalecer sua candidatura. Apesar de o tema ter sido pouco explorado durante a campanha, em algumas ocasiões saltava aos olhos a peruca desajeitada de Dilma, como que nos lembrando sutilmente o sofrimento pelo qual a candidata estava passando. O acessório parecia ter sido pego emprestado de algum personagem de programa humorístico da TV Record, contrastando com o “extreme makeover” a que Dilma foi submetida para participar da eleição.

Diante desse histórico, é legítimo que pessoas não alinhadas com o petismo especulem que Lula tentará capitalizar de todas as maneiras possíveis o fato de estar com um tumor. Assim como é legítimo cobrá-lo por ter decidido se tratar em hospital particular, a despeito de suas declarações sobre o sistema de saúde pública. Afinal, se o ex-presidente tem o costume de se apresentar como exemplo de superação por conta da falta de estudo e até mesmo do dedo que perdeu no torno mecânico, é evidente que uma eventual vitória contra o tumor serviria para alimentar sua mitologia pessoal.

Já quando o acometido pelo câncer é um adversário do PT, os militantes do partido não demonstram o mesmo cuidado e responsabilidade que exigem dos que falam sobre a doença de Lula. A sorte dos petistas é que Mario Covas adoeceu em um período em que a internet não era tão disseminada, mas os mais velhos hão de se lembrar o tratamento reservado ao então governador de SP pelos partidários de Lula e José Dirceu. Eles não se limitavam a ofender: Covas chegou a ser agredido fisicamente por militantes petistas, que haviam sido incitados por Dirceu, alguns meses antes de morrer. Outro exemplo é o homem que foi blogueiro oficial do próprio Lula, Jorge Henrique Cordeiro (nós já falamos dele aqui), nomeado mesmo após ter postado este tipo de comentário no blog do jornalista Reinaldo Azevedo.

Oposição a Lula e à doença

Alguns petistas e seus simpatizantes na internet se apressaram em condenar uma suposta reação de oposicionistas ao fato. Imaginam que, secretamente (já que em público todas as manifestações foram de apoio), grande parte dos que não gostam de Lula torcem para que ele padeça, e até ficaram felizes com a notícia de que o ex-presidente está com câncer. Por isso, desconfiam de hipocrisia nos votos de solidariedade expressados por adversários do PT.

Por mais que, em tempos de “patrulha virtual” petista profissionalizada, seja preciso tomar cuidado com a procedência do que se lê, principalmente nas áreas de comentários de blogs e portais de notícias, não duvidamos que alguns pensem assim. Porém, trata-se de uma visão certamente minoritária e estúpida, visto que, qualquer que seja o resultado da luta de Lula contra a doença, politicamente o lulopetismo só tem a ganhar. Como demonstramos acima, uma vez curado, Lula ficará muito fortalecido. Caso venha a acontecer o pior, o cenário seria ainda menos favorável à oposição e a políticos que não reverenciem o mito lulista. Quanto mais abrupto, traumático, triste e trágico for o seu fim, mais difícil será para a sociedade brasileira livrar-se de seu legado. O lulismo provavelmente se tornaria uma espécie de “peronismo à brasileira”, com políticos de esquerda, centro e até mesmo de direita em todo o país reivindicando por décadas a fio o título de herdeiro legítimo de Lula.

Portanto, o único caminho correto e sensato a todos, mesmo os que discordam frontalmente e combatem a atuação de Lula na política, é torcer pelo pronto restabelecimento do ex-presidente. Mas também é preciso não confundir a torcida pelo homem Lula e pelo político Lula. O presidente do PSDB Sérgio Guerra emitiu nota em que foi além dos votos de boa sorte, afirmando que “Lula ainda tem muito a contribuir para o debate público nacional”. Errado. Como presidente do maior partido de oposição, Guerra deveria saber que a contribuição de Lula para o debate público nacional é deletéria, pois busca apenas defender seus próprios interesses e os de seu grupo político. A mais recente proposta abraçada por ele, por exemplo, é o projeto de reforma política apresentada pelo PT com objetivo de perpetuar o partido no poder. A única grande formulação lulista de que se tem notícia é a “Teoria da Bravata”, segundo a qual o político tem o direito de defender algo quando é oposição e o seu oposto quando assume o governo.

Os comentários do blog

Para encerrar, esclarecemos nossa postura em relação aos comentários sobre o assunto aqui no Implicante. Nós costumamos usar humor e ironia em nossos textos e vídeos, e até pegamos pesado em certos assuntos. Problema de saúde, no entanto, não é matéria de escárnio. Vetamos e continuaremos a vetar comentários que façam até brincadeiras leves com a doença de Lula. Por mais que nós desejemos o fim da influência lulista na política brasileira, a luta contra o câncer não tem nenhuma relação com sua atuação como homem público. Assim como não queremos que seus admiradores façam tal associação para exaltá-lo, nós também reprovamos aqui quem a faça de forma negativa ou mesmo como piada.

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