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Carta aberta à pessoa já ex-esquerdista (mas com medo de sair do armário)

É um processo longo e doloroso, mas também recompensador. Saia do armário!

Cara pessoa já não esquerdista (porém com medo de assumir isso),

As coisas não vão assim tão bem, não é mesmo? Quando foi o “click”? É comum o estalo ocorrer num debate sobre ditaduras: falam o diabo do que houve no Brasil trinta anos atrás, para em seguida aplaudir o sistema genocida cubano. Como assim? Não faz sentido, mas você assente com a cabeça (sem mostrar que, por dentro, a discordância é total).

O ponto de ruptura pode ser também quando brigam pela defesa de alguma minoria e ao mesmo tempo aplaudem grupos terroristas que massacram as mesmas minorias. Porém, pode ser outra coisa. Talvez sejam as festas. Aquelas pessoas quase todas brancas, e com sobrenomes europeus, dizendo saber o melhor para os negros e pobres. E aí emendam algum discurso sobre “respeitar o lugar de fala”. Você quase entra em colapso nessa hora, não é mesmo?

Tem também a chance de ser com o crime, a forma como vêem o crime: dizem que nunca é culpa do criminoso, sempre da sociedade; ou seja, da vítima. A ponto de culparem o cara que “esbanja” um carrão ou relógio de luxo, como se estivesse pedindo para ser assaltado. E você se lembra da história da saia curta, percebe a incoerência e quase tem uma crise de enxaqueca (ou gases) diante da idiotice da coisa toda.

Mas, convenhamos, isso não é tão importante (embora, vendo em retrospecto, seja quase divertido). O fundamental mesmo é que você se sente angustiado. E devo dizer que conheço essa dor. Não apenas seu desespero em meio a bobajadas ideológicas em situações corriqueiras, mas algo maior, algo que vai além dos pequenos (e modorrentos, chatos, intermináveis, cansativos) detalhes.

Você simplesmente já tem certeza de que não faz parte desse mundinho esquerdista e todo o teatro estapafúrdio, apenas falta coragem para dar o grande passo. E, sim, é compreensível que seja um momento aflitivo.

De um lado, seus anseios mais íntimos/pessoais e suas convicções mais profundas; de outro, o receio de perder de vez toda uma turma e receber ofensas generalizadas (afinal, você sabe o quanto a galera detona os não-esquerdistas). Fora, claro, aquelas duas ou três pessoas realmente gente boa com as quais você não queria perder contato (embora elas já devam desconfiar mais intimamente de sua mudança). Por fim, o medo de que algumas portas profissionais se fechem (sim, também sei que eles não perdoam nesse campo).

Mas vamos por partes.

Embora compreensível, acredite, o receio é superestimado. Sim, sim, vão te xingar. E vão xingar pesado. A parte boa é que você estará cagando e andando para esses xingamentos. Sério! Na verdade, será até meio divertido. E aquelas duas ou três pessoas que são de fato gente boa, também acredite, não deixarão de ter sua amizade. Aliás, preste atenção, talvez elas também estejam em um momento similar…

Quanto à parte profissional, seus temores fazem mais sentido, pois sabemos como as coisas funcionam. Eles pedem a cabeça na caruda e acham que é mesmo uma missão de fé ocupar todos os espaços profissionais para “levar adiante a palavra”. Mas são minoria, ora! A grande maioria, silenciosa, é como você. Então, em grande parte das vagas do mercado, você não será demitido e nem deixará de ser contratado por não ser esquerdista; os casos assim são minoritários e, para que deixem de existir, precisam ser enfrentados. Vamos lá, coragem! Afinal, somos maioria!

No mais, reiterando, trata-se de um processo longo e é compreensível que você tenha seu tempo para isso. Não é preciso pressa, vá com calma; mas não deixe de ir. A saída do armário canhoto é o melhor que você pode fazer para si próprio e também para aqueles que, como você, passam por essa angústia. A rapaziada esquerdista só se acha forte porque acredita ser “dona” do discurso preponderante. Cabe a nós mostrar que as coisas não são bem assim – e isso só acontecerá de fato quando todos se assumirem, tirando do silêncio aquele contingente já majoritário.

De nossa parte, os que já saímos do referido móvel metafórico, braços abertos a você. Receba esta carta aberta como um aceno, um abraço, quase um cafuné (ok, sem exageros).

Posso garantir, aliás, que as festas da turma de cá são bem melhores. Fora a grande vantagem de poder assistir a um filme de comédia sem problematizar cada diálogo, ou tomar cerveja sem fazer ressalvas geopolíticas. Enfim, viver a parte do lazer de sua vida sem a necessidade de discursos hipócritas feitos mais para aliviar angústias pessoais do que por preocupação genuína com aqueles eventualmente menos favorecidos.

Saia do armário! E conte conosco!

ps – Este “post scriptum” é para o pessoal do lado de cá: a grande maioria é mesmo receptiva com os recém-convertidos, mas ainda há aquele 1%… então, por favor, PARE de fazer a linha “eu sou a verdadeira direita”, sempre repudiando os que resolvem enfim assumir seu verdadeiro lado. Receba-os de braços abertos, entenda que ainda estão no começo de uma jornada etc. etc etc. Não seja chato como os esquerdistas! E aos demais peço o favor de ENCAMINHAR ESTE TEXTO àquela pessoa já-não-muito-esquerdista que precisa de um pontapé (ou carinho?) para sair de vez do armário.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

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