Fernando Gouveia

A esquerda começa a perder força no Ocidente entre “minorias” que fingia representar

“A única saída para a esquerda seria abrir mão do socialismo e também do apoio a países e grupos que suprimem todos esses direitos e perseguem tais indivíduos. Mas não farão isso, todos sabemos.”

Jovem enfrentando tanques de guerra na manifestação da Praça da Paz Celestial, em Pequim, no ano de 1989.

Dias atrás, foi noticiado que homossexuais franceses estariam migrando da esquerda para a direita, mesmo caminho feito pelos jovens daquele país. Claro que, por aqui, as explicações não chegaram perto da superfície do fenômeno, ficando por óbvio ainda mais distantes de seu centro. Há teses variadas, algumas mais objetivas, sobre o que acontece por lá – avanço islâmico (os gays devem ter notado que não são exatamente amados em países sob lei muçulmana), falta de emprego ou simplesmente a perda de credibilidade do discurso esquerdista. Mas é importante considerar que não se trata de fenômeno regional, e sim global.

Embora aparentemente apenas a França tenha feito tal pesquisa, e ela ainda seja de restrita ao quadro eleitoral, nota-se que isso acontece também no Brasil, nos EUA, na Inglaterra e assim por diante, com também vários argumentos tentando compreender esse fato, valendo destacar este aqui.

Mas por que isso acontece? Arrisco um palpite: para além do desgaste natural do tempo, sobretudo considerando uma crença ideológica baseada em dogmas de séculos passados, a esquerda está perdendo de vez as pautas que “sequestrou” há algumas décadas. O truque funcionou por muito tempo, é verdade,  mas chega uma hora em que simplesmente não mais resiste – o que é natural.

Vamos à história recente. O esquerdismo, no auge da Guerra Fria, crescia nos países ocidentais como ideologia agregadora de praticamente todos os movimentos anti-sistema. Todos, mesmo. Qualquer um. Bastava ser contra o “status quo” para que a esquerda se infiltrasse e em pouco tempo tomasse conta da pauta inteira, criando associações, ONGs e afins. Vale para a questões raciais, de gênero, sexuais, ecológicas, religiosas…

A parte que nunca contaram é justamente o quanto tudo isso sempre massacrado nos países socialistas, enaltecidos pelos mesmos que alegavam defender tais bandeiras. Minorias étnicas nunca se deram bem sob o socialismo, como comprovam as experiências da China, do Camboja, da União Soviética etc. Ainda assim, as esquerdas ocidentais pregavam – com espantoso sucesso – a defesa de grupos étnicos vítimas de preconceito.

Homossexuais também não tinham paz sob regimes desse tipo, a ecologia sempre foi atropelada das maneiras mais diversas e as minorias religiosas – ou mesmo religiões de todo tipo – não tinham direitos mínimos quanto a seu exercício. Líderes femininas, com real poder decisório nos governos, só foram foram aparecer… bom, nunca apareceram, ao contrário do que houve, no mesmo período, em países como Inglaterra, Israel e tantos outros usados pela esquerda como exemplos de supressão dos direitos das mulheres.

Alguns vão dizer que isso é coisa do passado, de décadas atrás, que a esquerda se renovou. Não é verdade. Ainda hoje, os esquerdistas que lideram/representam vários movimentos apoiam Cuba, Venezuela e até mesmo União Soviética e China. Pois é. Salvo exceções pra lá de excepcionais, não apenas relativizam como também defendem de forma entusiasmada – combatendo com veemência os que ousam falar mal desses verdadeiros paraísos das liberdades individuais.

Por incrível que pareça, isso deu certo por muito tempo, mas parece que agora não conseguem mais como enganar os incautos com a lenga-lenga furada. Tanto menos quando muitos dos movimentos citados abandonam suas bandeiras quando alguém de partido amado pisa na bola, mas logo retoma a veemência quando é um adversário a sapatear na pelota. Fica claro e óbvio que colocam em primeiro lugar o esquerdismo (e o partidarismo) e só depois – bem depois – a causa que alegam representar.

E tudo piora ainda mais quando a esquerda precisa manter a histórica aliança com os mais variados movimentos islâmicos, inclusive alguns radicais e mesmo países em que as leis muçulmanas são aplicadas de forma rígida. Tudo por conta de “inimigos em comum”, como EUA, Israel e todo o ocidente.  Ao perceber o que aconteceria com eles caso vivessem em tais países e/ou sob domínio de tais grupos, muitos integrantes de movimentos dominados pelo esquerdismo começaram enfim a desconfiar da coisa. Como podem pedir compreensão cultural, relativizando casos verdadeiramente drásticos, e ao mesmo tempo atacam com fúria piadinhas de TV ou propagandas comerciais?

Um truque desse tipo, tão descaradamente falso, até que durou muito tempo, mas agora afinal começa a fracassar a olhos vistos.

A única saída para a esquerda seria abrir mão do socialismo e também do apoio a países e grupos que suprimem todos os direitos e perseguem indivíduos que o esquerdismo finge representar no ocidente. Mas jamais farão isso, todos sabemos. O resto é mera consequência natural e até óbvia.

ps – as aspas no título decorrem do uso da palavra em valores semânticos alheios àquele original, passando por relações de hipossuficiência ou coisa do tipo, de modo que em alguns casos – seguindo essa leitura – uma minoria poderia não ser minoritária (melhor deixar as aspas, portanto, se não até isso acaba dando problema).

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde escreve às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

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