Fernando Gouveia

Fernando Gouveia: Os velhos esquerdistas agora são alvo do radicalismo que sempre apoiaram

Coluna de despedida de Fernando Gouveia.

Bret Weinstein (esq.) sendo confrontado por seus alunos.

No início de junho, o professor norte-americano Bret Weinstein (foto), que leciona biologia no Evergreen State College, foi alvo da fúria dos alunos esquerdistas, e por um motivo no mínimo inusitado: ele, que é também de esquerda, defendeu a MANUTENÇÃO de um boicote histórico, o “Dia da Ausência”, promovido há décadas por alunos e professores negros, que ‘faltam’ nessa data para simbolizar quão fundamentais são à referida instituição de ensino.

Mas os alunos esquerdistas propuseram uma mudança: em vez de os estudantes e professores negros faltarem, os brancos é que seriam proibidos de entrar no Evergreen. Em suma: em vez de um boicote (ação voluntária) pregaram a proibição (ação de repressão). O profesor Weinstein foi contra, mostrando que seria até mesmo uma deturpação da natureza desse dia histórico, e obviamente foi agredido. A ‘velha esquerda’ americana apoiou a posição do professor e chamou atenção para o autoritarismo dos estudantes, mas talvez já seja tarde demais..

O Evegreen State College, fundado em 1967 (auge da contracultura) e com notável esquerdismo por parte do corpo discente, poderia ser comparado (guardadas as óbvias proporções) à nossa FFLCH, da USP (notória pela forte presença de esquerdistas). Desse modo, o professor Weinstein não pensa em dar as caras por lá tão cedo. O tema, apesar de ter sido pouco comentado na nossa imprensa, foi objeto de bom artigo de Helio Gurovitz.

O Começo do Fim?

Por mais que se considere o radicalismo fascista desses alunos – e é isso mesmo que são -, é preciso observar que isso é decorrência natural de tudo que o esquerdismo pregou, seja pela forma ou conteúdo. Desde considerar estudantes como verdadeiras divindades, que tudo podem e em tudo tem razão, até em legitimar durante décadas todo tipo de protesto violento. Deu no que deu.

E não se trata de fato isolado. No mundo todo, a “nova geração” do esquerdismo leva ao limite tudo aquilo que sempre foi pregado como positivo/permitido/válido. Serve de exemplo cabal o havido em Hamburgo, sobretudo considerando a ironia reveladora daquela “selfie” durante a destruição total. Um retrato fiel dessa nova turma.

Por aqui, há legiões de ‘velhos’ esquerdistas legitimando os atos mais extremados, dando sustentação teórico-ideológica até para a tática blackbloc, mesmo depois da morte do cinegrafista Santiago Andrade – aliás, chega a ser assustador que tal tática siga sendo defendida também por boa parte dos esquerdistas que trabalham na imprensa e, portanto, seriam colegas do jornalista morto. Ao fim e ao cabo, isso ajuda a diagnosticar a coisa.

Agora, os que se dizem mais moderados, não conseguem mais conter o ‘monstro’ que eles próprios ajudaram a criar e, para além disso, essa ‘criatura’ só conseguirá uma única coisa: afastar mais e mais as pessoas normais do esquerdismo. Depois de tantos e tantos anos da estratégia de ocupar espaços de comunicação e refazer narrativas, o esquerdismo não consegue mais esconder a própria essência porque, ora!, os esquerdistas mais novos acham que aquilo não apenas é certo como seria também eficiente.

Não por acaso, os mais jovens hoje se inclinam mais à direita. E muito por conta dessa minoria a um só tempo violenta e intelectualmente estúpida (porquanto dogmática). Contribui para isso, também, o excesso de regras tolhedoras que fazem parte da nova doutrina do esquerdismo, e isso abarca anedotas, propagandas, relacionamentos amorosos, livros/filmes etc. Quarenta anos atrás, a esquerda pregava o “pode tudo” e a assim chamada direita defendia proibições. O jogo virou e a grande maioria dos jovens, por óbvio, preferem o lado mais permissivo.

Por fim, para dar aquela força, a minoria que não atrai mais ninguém resolve ainda por cima quebrar tudo, deixando seus “mentores” não apenas em situação constrangedora, mas também os atacando por não endossarem o radicalismo. Pois é. No interior, chamam isso de “criar jacaré debaixo da cama” e no geral emendam com o “durma com um barulho desse”.

Pois é. Boa sorte.

Despedida

Queridos leitores, por conta de uma nova etapa da minha vida acadêmica e compromissos profissionais que passaram a tomar todo o meu tempo, esta é minha última coluna no Implicante, site que ajudei a criar há mais de seis anos. Agradeço a todos pela audiência, pelo carinho e até pelas críticas, pois sem elas ninguém aprende nada nem nunca melhora. O site prosseguirá com o restante da equipe, cujo talento e “implicância” vocês já conhecem há tempos. Um abraço a todos vocês.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante. Advogado e pós-graduado em Direito Empresarial, atua em comunicação online há 17 anos. Além de músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

Notícias Recentes

To Top