Fernando Gouveia

Brasileiro não gosta de esporte, brasileiro gosta de ganhar

Gostamos de futebol, ponto. E também de vitórias; sejam no judô, na natação, no automobilismo, no vôlei, no salto com vara etc.

Toda Olimpíada tem aquele momento em que determinado esporte vira “mania nacional”. Coincidentemente, é sempre algo em que ganhamos medalha de ouro.

Nada vira “mania” quando pegamos quarto lugar, por exemplo. Normal, claro, já que a vitória realmente inspira e estimula, tanto mais quando o atleta carrega alguma história de superação. Mas não é disso que se fala aqui, obviamente.

O tema é outro: o brasileiro não gosta de esportes. É um fato.

Vivemos a monocultura futebolística. Enquanto em vários outros países as pessoas acompanham diversas modalidades, no Brasil apenas acompanhamos futebol, futebol e futebol. Sabemos disso, ora. Salvo exceções, quem segue campeonato de basquete, voleibol, handebol, judô etc.? Qual a torcida de um time, sem ser os futebolísticos? Essas pessoas guerreiras são a exceção da exceção da exceção.

Mas basta ganharmos em alguma outra coisa que começa aquele “interesse” – o mesmo que logo se dissipa quando invariavelmente surgem as derrotas.

E isso acontece mesmo naquilo em que passamos décadas ganhando. Assim que deixamos de vencer, já era, o interesse pela atividade vai pelo ralo. Exemplo mais bem acabado: Fórmula 1. Foram nada menos que OITO títulos mundiais brasileiros. Dois de Fittipaldi, três de Piquet e três de Senna.

Mas foi só pararmos de ganhar e o interesse caiu a quase zero. Ou seja: a galera (em sua grande maioria) não estava nem aí para as corridas, em si, mas sim para as vitórias “do Brasil” (sim, adoramos essa apropriação das conquistas alheias, mesmo as individuais).

A mesma coisa já aconteceu em vários outros esportes: judô, vôlei, natação, tênis, judô de novo, vôlei de novo, surfe etc. Talvez agora comece o “interesse” por salto com vara, canoagem etc.

Ainda assim, por mais que pareça algo negativo, esse traço brasileiro talvez traga algum efeito benéfico. Isso porque um dos momentos da empolgação é a matrícula de filhos nas aulinhas e, por mais que vários desistam, sempre há os que ficam. Melhor que nada, não é mesmo?

Mas, sim, o brasileiro não gosta de esporte. Enquanto um norte-americano médio acompanha de verdade e torce para algum time nos campeonatos de hóquei, basquete, NFL, basebal etc., por aqui temos só um time e apenas no futebol. Ok, ok: quando muito, e também excepcionalmente, uma escola de samba. Acompanhar modalidades diversas, prestigiando-as “in loco” para torcer, isso só acontece em casos excepcionais.

Qual a solução para isso? Não sei. Isso, afinal, chega a ser um problema? Também não sei. Mas sei, sim, que é um fato. E também sei que negá-lo, só pela negação em si, não faz com que ele deixe de ser real.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

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