Fernando Gouveia

Nem o jogo Pokémon Go escapou da chatice dos militantes

O jogo não funciona nas comunidades cujas ruas estejam fora do mapeamento online. Opressão das empresas de tecnologia? Nada disso: os traficantes que não deixam.

Por mais que a vida seja repleta de incertezas, há uma regra universal que nunca falha:

Cedo ou tarde, todas as coisas do mundo serão “problematizadas” pelos esquerdistas.

Não importa se é uma propaganda de margarina, cena de telenovela, piada, refrão de funk ou mesmo um joguinho de celular. Tudo – exatamente tudo! – será objeto de análise ideológica, ou seja, será “problematizado”. E não há exceção a tal verdade universal.

Assim, em respeito a essa lei da vida, o joguinho Pokémon Go também foi debatido sob o viés das ideologia esquerdista. E o foco não foi sobre aqueles eventualmente desprovidos de condições financeiras para ter smartphones ou coisa do tipo. Nada. Bateram em outra tecla: a “democratização tecnológica do espaço público” (ou algo assim, é complicado decorar todos os bordões).

O motivo da grita: o joguinho, que usa o mapeamento do Google, não funciona em várias favelas, pois suas ruas não estão catalogadas pelo referido sistema. Mas o debate, que até poderia ter algum fundo relevante, acaba esbarrando nos fatos.

Pokemon Go - Coluna do Fernando Gouveia

Isso porque o não mapeamento dessas vias não decorre de birra das empresas de tecnologia, ou preconceito, ou algo do tipo, mas sim da ordem expressa dos “donos” dessas comunidades. Os traficantes – por razões várias e um tanto óbvias – não querem saber de mapas das áreas que comandam. A ordem, segundo se fala, é de mandar chumbo em qualquer carro que resolver tirar fotos e catalogar essas vias. E assim, de novo obviamente, não há como o Google mandar alguém para levar bala.

Cabe então voltar ao esquerdismo, que muitas vezes relativiza ou até romanceia o controle de algumas áreas por traficantes e bandidos em geral. Como, por regra, a esquerda é sempre contra toda e qualquer polícia, é comum ver militantes passando pano para bandido, falando contra as penas altas, relativizando algumas condutas etc. Algo parecido com o que essa mesma turma faz com o radicalismo islâmico, no geral suavizado por ter também como inimigo os EUA. Mas sigamos.

A única forma de haver Pokémon Go nas favelas seria combatendo os traficantes para trazer de volta ao controle das autoridades (sim, da polícia) as áreas por eles comandadas. Pois agora tente encontrar um único esquerdista que tenha pregado o combate ao tráfico. Quando muito, haverá teses sobre legalização, mas o fato irrecorrível é: hoje, é proibido; então, é preciso cumprir a lei. Ponto.

Toda a “problematização” da ausência do jogo nas comunidades fica inócua – e até meio mocoronga – quando seus propositores não pregam o combate ao tráfico. Os mesmos que endossam a tese do “não adianta combater, o tráfico continua” (*) são aqueles que agora enxergam opressão/preconceito na dura realidade decorrente justamente da força desses criminosos.

Mais do mesmo, como sempre. E aguardemos a próxima “problematização”.

(*) – o argumento “não adianta combater, tal crime continua” é profunda e inescapavelmente idiota. Servem de exemplo os casos de homicídio: são 60 mil ao ano, no país. Então “deu errado” considerar o assassinato um crime? Claro que não. O que há de errado é a forma de fiscalizar e apurar tais episódios. Independentemente disso, é NECESSÁRIO que o homicídio continue sendo uma conduta criminosa e também continue dando penas altas de prisão. O que se deve melhorar/mudar é o combate efetivo. A lei é teoricamente boa. E isso vale para tantos outros crimes que “são praticados mesmo assim”.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

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