Camilla Lopes

“A sociedade exige muito da mulher”. E daí, meu bem?

Por que é tão difícil para essa geração ser cobrada por etapas simples da vida como pagar o próprio papel higiênico?

Esta é Margaret Tatcher e ela provavelmente teria vergonha de muitas mulheres desta geração.

Esta é Margaret Tatcher e ela provavelmente teria vergonha de muitas mulheres desta geração.

Um dos maiores paradoxos da minha geração de mulheres é a capacidade de reivindicar a liberdade de exercer diferentes comportamentos individuais ao mesmo tempo e na mesma intensidade em que se reclama da opressão externa. Como se só o que faltasse mesmo fosse o “aval” da sociedade para que as reclamantes sejam quem elas querem ser. Não tem nenhuma lei que impeça, é somente a “opressão da sociedade” que impede essas maravilhosas fadas de existirem em sua plenitude.

Chamou atenção um recente texto de Facebook, desses que as pessoas se sentem acolhidas em uma primeira reação e danam a compartilhar o troço sem notar que estão depondo demais contra si porque o imediatismo impede uma segunda análise mais criteriosa que, se fosse feita, traria uma sensação vergonhosa – caso o sujeito tivesse um pingo de dignidade e um tantinho assim de maturidade.

O texto tratava de um desabafo, um chororô brabo de uma moça na casa dos 30 anos que após cinco meses sem falar com o pai resolve ligar para o homem e ouve um “e aí, já consegue se sustentar sozinha? ”.
Pronto, estava servido o drama e ao longo dessa coluna, vou compartilhar alguns trechos do relato supracitado.

O que quero aqui é refletir um bocado sobre essa pressão absurda que a sociedade nos impõe de sermos financeiramente bem sucedidos antes dos 30 anos.”

Pressão da sociedade, entende-se: pergunta de um pai que está querendo ver sua filha andando com as próprias pernas. Ele não estará sempre lá para enviar o dinheiro de uma ou outra conta atrasada, o aluguel, o condomínio; esse pai sabe que o tempo de provedor dele pelas leis inexoráveis da vida vai acabar e talvez não saiba o que falar para a filha adulta como incentivo. O pai que veio de uma geração em que se casava aos 20, aos 30 dava entrada na casa própria e já havia pelo menos um ou dois filhos em casa. Dá para ser errante com uma família que depende de você? Por que é tão difícil para essa geração ser cobrada por etapas simples da vida como pagar o próprio papel higiênico?

É óbvio que eu gostaria de já estar totalmente resolvida aos meus 26 anos, não precisar da ajuda de mais ninguém pra absolutamente nada, sair do país duas vezes por ano e tudo mais. No entanto, essa não é a minha realidade – nem a de ninguém que eu conheça”.

O ideal de sucesso dessas pessoas é totalmente corrompido e é o resultado do que elas absorvem ao ver as diversas personas virtuais dos seus contatos online. Essas personas virtuais são cuidadosamente montadas: viagens, empregos, cursos são postados… Mas quem sabe a realidade? É evidente que pouquíssimas pessoas têm interesse em compartilhar as vicissitudes da vida. Lembrem-se: a foto do mochilão no Leste Europeu pode esconder uma enorme dívida no cartão de crédito.

E se for mulher, dieta nela. Porque não pode engordar de tanto estresse, né mores, senão não ~arruma um homem~. Porque, né, no meio disso tudo, cê não pode apenas optar em não namorar ninguém, vai ficar pra titia”.

Qual seria o problema em se transformar em uma alegre senhora que não se casou e que tudo bem, não sentiu segurança nos amores que a vida lhe ofereceu e optou por criar gatos e dedicar o amor aos sobrinhos? Acontece. Não engordar, nesse caso, é não ter talvez uma relação de escapismo com a comida, o que é uma relação nociva. Quanto ao corpo de uma mulher ser rechonchudo… Será que os homens não preferem que as mulheres sejam simplesmente felizes? Confortáveis com seus corpos? Já experimentou deixar de ser chata?

Talvez o correto seja levar a vida que dá, mas sempre com dignidade, fé e disciplina, porque a felicidade pode estar na recompensa e na fé por conquistar algo e dedicar-se a esse propósito: seja um trabalho, uma criança, um amor, um projeto de estudo. Como pode alguém querer todas essas coisas e ainda apontar que os únicos meios honestos para conseguir todas elas não devem ser objetivados porque na verdade tratam-se de “injustas imposições da sociedade”? Pior é ver o quanto de gente se identifica com esse discurso (mais de 20 mil compartilhamentos). Essa geração que se acha privilegiada e que “merece” ser recompensada, porque “é muito especial”. Mas o que fazem essas criaturas para serem tão iluminadas que não podem pegar no pesado para conseguir as próprias realizações pessoais? Ah, isso jamais saberemos.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

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