Rafael Rosset

Impeachment da Dilma: a quem pertencerá a narrativa?

“Existem cada vez menos formadores de opinião, ou, melhor, cada vez mais formadores de opinião fora do controle do establishment. Isso mina por completo a tática de ocupação de espaços da esquerda.”

Qualquer tribunal pode cometer injustiças. Quem vai julgar as injustiças a posteriori, não é apenas a história, é o povo“, disse o professor Geraldo Prado, testemunha de Dilma no processo de impeachment.

O povo já julgou. Em abril, um mês antes do afastamento provisório, Dilma era aprovada por apenas 13% dos brasileiros. 63% diziam que seu governo era ruim ou péssimo.

O professor Geraldo Prado não acha realmente que nós, que vivemos na pele o desastre que foi esse governo, mudaremos de ideia daqui a 10 ou 20 anos. O professor Geraldo Prado sabe, contudo, que os soldadinhos estão a postos nas escolas, nas universidades, nas redações, nos sindicatos. A máquina de moer fatos já está trabalhando a todo vapor para produzir a narrativa que será vendida como verdade incontestável aos nossos filhos e netos, debaixo da casca de “pensamento crítico”, através das aulas de História, do noticiário, do cinema, da literatura, da música popular. Foi assim que, 50 anos depois, gente que explodia bombas para instaurar uma ditadura à cubana ao sul do equador se “converteu” em defensora da democracia e da legalidade.

Em paralelo a todo o julgamento, quatro equipes de documentaristas acompanhavam cada passo nesse trabalho de recontar a história, uma da diretora Anna Muylaert, de “Que horas ela volta?”, outra da antropóloga Petra Costa, e ainda outras duas de Douglas Duarte e Maria Augusta Ramos. A jornalista Vera Magalhães, da Jovem Pan de São Paulo, chegou a mencionar o incômodo com o fato de as equipes estarem filmando inclusive o “por trás das câmeras” dos órgãos de imprensa, já denotando que uma das principais teses de defesa de Dilma, a de que haveria um conluio com a participação da “grande mídia”, será prestigiada nas telas.

Janaína Paschoal emocionou-se durante sua sustentação oral ao fim do processo do impeachment. José Guimarães, o deputado federal irmão de José Genoino, revoltou-se: “quem tem que chorar aqui é a presidenta”. É como se Janaína Paschoal estivesse se apropriando indevidamente do papel de vítima, que no roteiro da narrativa petista cabia única e exclusivamente à Dilma Rousseff. Não havia espaço para outra mulher forte, mas oprimida, na tribuna.

José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma Rousseff, abriu sua sustentação oral em 30 de agosto afirmando que “hoje sabemos quais são as acusações, mas daqui a um tempo ninguém mais se lembrará delas”. E é verdade. Ainda hoje, é difícil explicar, mesmo a pessoas bem esclarecidas, o que são decretos suplementares ou subvenções. É nesse vácuo de conhecimento e desinformação que a narrativa de cunho ideológico nasce, cresce e se reproduz.

Prova disso é que diante da força e mobilização inesperadas do projeto Escola sem Partido, Jean Wyllys apressou-se a apresentar, na Câmara, o projeto Escola Livre, que, dentre outros princípios, estabelece “a livre manifestação de pensamento” e “o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas”, princípios que já decorrem naturalmente do princípio da liberdade de opinião constante da Constituição Federal, ao mesmo tempo em que, em seu artigo 4º, insere o Cavalo de Tróia do “o princípio da liberdade e autonomia no exercício da atividade de ensino”. Em outras palavras, trata-se de uma lei que protege a liberdade não do aluno e sim a do professor: todo mundo tem liberdade de opinião, mas aquele que detém a autoridade da cátedra e o poder de reprovar de acordo com os critérios que bem entender, inclusive ideológicos, é o professor. Não precisamos de uma lei pra reforçar a autoridade do professor, a não ser que queiramos garantir que ele use abuse dessa autoridade sem ser questionado.

Da mesma forma, antes mesmo do fim do julgamento, o vestibular de uma conhecida e respeitada universidade do Mato Grosso pedia ao aluno que relacionasse “impeachment” e “golpe” com base nos textos selecionados, dentre estes um excerto de Luis Almagro, secretário-geral da OEA, em que acusa o processo de impeachment de “oportunismo político-partidário” e de extrapolar “os limites legais para a efetivação de um processo de destituição”. É o “pedágio ideológico” que os candidatos do ENEM já estão acostumados a pagar há anos, sob pena de não ingressarem na universidade.

Mas o professor Geraldo Prado se surpreenderá. Os jornalões estão definhando, e o papel das redações como formadoras de opinião nunca foi tão irrelevante. Iniciativas como o Escola sem Partido forçam um debate que seria impensável há meros 10 anos, um debate que não vai terminar ainda que o projeto que está no Senado não passe. Artistas só gozam de algum prestígio dentro das suas Terras do Nunca, que são cada vez menores a medida que mais e mais gente está, por exemplo, muito mais interessada na música de Chico Buarque do que em suas opiniões sobre política. Quanto mais a arte tenta incorporar uma agenda política, menos é reconhecida como arte. Nem Hollywood está alheia a essa regra: Tomorrowland, um filme milionário da Disney com um elenco de primeira e que contava a história de pessoas que tinham um broche especial que lhes permitia guiar a humanidade para “a terra de amanhã” foi um fiasco de público e de crítica. E o cinema nacional… bem, esse dispensa comentários.

Existem cada vez menos formadores de opinião, ou, melhor, cada vez mais formadores de opinião fora do controle do establishment. Isso mina por completo a tática de ocupação de espaços da esquerda, desde que esta, por influência de Gramsci, desistiu das revoluções violentas e passou a trabalhar para tomar (e destruir) as instituições por dentro. Quando eles finalmente atingem esse objetivo, essas instituições (imprensa, universidades, classe artística) deixam de ser relevantes, na medida em que o público tem a liberdade de consumir a informação que quiser, de fontes cada vez mais difusas.

Uma grande parte da intelligentsia nacional acostumou-se a falar sozinha, a promover debates em que todos concordavam entre si, a defender a democracia do monólogo, a chamar de “discurso de ódio” qualquer coisa que não fosse seu reflexo no espelho. Todos os sinais, contudo, indicam: esse tempo acabou. E pouco a pouco vamos descobrir que eles nunca, na verdade, foram maioria, mas antes sempre foram uma minoria barulhenta e chata. Eles não vão desaparecer, mas o interesse deles vai a cada dia se confundir menos com aquilo que convencionamos chamar de “interesse público”.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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