Rafael Rosset

E o Cunha?

19.08.2015 - Coquetel de encerramento da reunião do Parlamento Latino-americano (Parlatino) no Salão Nobre da Câmara dos Deputados.Em discurso, presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ao lado de sua esposa, a jornalista Cláudia Cruz. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado.

Em 11 de abril, Flavio Freire, do Globo, lançou a seguinte indagação a Roberto Jefferson, no centro do Roda Viva: “Qual a legitimidade de um processo de impeachment conduzido por um bandido como Eduardo Cunha?”

Roberto Jefferson, ele próprio o bandido sem o qual o governo do PT ainda estaria subvertendo a República através da compra de um Poder pelo outro, respondeu com outra pergunta: “Qual a legitimidade de um governo formado por bandidos?”. E prosseguiu: “Eduardo Cunha é um adversário à altura do presidente Lula, porque joga o jogo que tem que ser jogado. O Lula joga qualquer jogo, esse grupo de poder do PT joga qualquer jogo, logo Eduardo Cunha é o desafeto a altura desse grupo de poder do PT, grupo que pratica crime, crime fiscal, tentativa de suborno… o Eduardo joga igualzinho, é um pistoleiro, atira pelas costas, atira de tocaia e ainda assalta o banco da cidade. Eduardo é imprescindível: eu não vejo, por exemplo, FHC enfrentando o Lula. Tem que ser bandido contra bandido, briga de foice no escuro.”

Foi Maquiavel, no século XV, quem criou a Ciência Política moderna, e o fez redefinindo o sentido de “virtú”, aquelas qualidades desejáveis em qualquer líder. Os moralistas romanos, tais como Cícero, afirmavam como indispensáveis ao príncipe as virtudes cardeais, quais sejam: sabedoria, justiça, coragem e temperança, a que mais tarde se somaram honradez, magnanimidade, liberalidade e moralidade. Essas virtudes encontraram eco e respaldo na fusão do mundo greco-romano com a civilização judaico-cristã, ajudando a plasmar o ideal ocidental de “virtude”. Maquiavel não desprezou essa tradição, mas avisou que pretendia descrever as coisas como elas de fato são, e não como gostaríamos que fossem:

“Porém, sendo meu intento escrever algo útil para quem me ler, parece-me mais conveniente procurar a verdade efetiva das coisas do que o que se imaginou sobre elas. Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos e que nem se soube se existiram de verdade, porque há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver, que aquele que trocar o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende antes a arruinar-se que a preservar-se; pois um homem que queira fazer em todas as coisas profissão de bondade deve arruinar-se entre tantos que não são bons. Daí ser necessário a um príncipe, se quiser manter-se, aprender a poder não ser bom e a valer-se ou não disto segundo a necessidade”.

O segundo conceito chave na obra de Maquiavel é o da fortuna, a sorte, o acaso, o imponderável. De nada adianta a posse da virtú se as circunstâncias não forem favoráveis, embora não se despreze o poder da virtú para antecipar infortúnios, preveni-los ou ao menos diminuir-lhes os efeitos.

Eduardo Cunha nunca foi herói, mas era o anti-herói com o conjunto de habilidades que o país precisava no momento certo. Não era o político virtuoso com o qual sonhamos, mas era o necessário. Enquanto ele agia levando o regimento da Câmara no coração, todos nós sabíamos que tipo de homem ele era, ao contrário das esquerdas, que ainda falham em enxergar em Lula o que ele de fato é: machista, misógino, racista, autoritário, arrogante, autocrático, fascista, grosseiro e corrupto, e isso a despeito de todas as evidências nesse sentido. Roberto Jefferson apenas se filiou ao realismo político maquiavélico, que despreza a moralidade ingênua, ao afirmar que Cunha era seu bandido favorito: seria inútil enfrentar a moral revolucionária da esquerda, líquida e viscosa (aquela moral que declarava abertamente querer censurar a imprensa, controlar o judiciário, aparelhar o exército e ocupar todos os níveis do ensino), valendo-se da rigidez pétrea da moral clássica. Os que fizeram isso ao longo da história perderam a cabeça, ou morreram virados para um paredão.

Eduardo Cunha é um bandido, do tipo que mente aos seus pares e mantém contas secretas em paraísos fiscais, mas não poderia ser outro a encarar aqueles que tungaram R$ 1,00 dos empréstimos consignados de milhões de velhinhos aposentados para financiar o partido, que desfalcaram em R$ 50 BILHÕES os fundos de previdência de milhões de servidores públicos que contavam com esses recursos para suas aposentadorias (tudo para financiar projetos de ditadores bolivarianos), ou que deram um tombo de R$ 88 BILHÕES na Petrobras, transformando-a, da maior empresa brasileira e uma das maiores do mundo, a um bando de escombros fumegantes, simplesmente pra garantir a própria permanência no poder.

Como disse outro famoso realista político, Paulo de Tarso (o mesmo que convenceu os atenienses, esquematizadores da filosofia ocidental, de que estes já adoravam o Deus verdadeiro sem saber, porque haviam erigido um altar ao “deus desconhecido”), e que J.H. Dacanal elencou entre os 5 gênios da antiguidade, ao lado de Tucídides, Platão, Aristóteles e Cícero, “não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas?”

Evidentemente o contexto da citação era outro, mas seu espírito cabe perfeitamente nas circunstâncias políticas do Brasil de 2016. Em 12 de setembro as trevas da política brasileira terminaram de se engalfinhar num abraço de afogados. Ficamos agora com o de sempre: Renans, Collors, Jaders, que usam a política pra pagar a pensão das ex-mulheres, pra comprar uma Ferrari nova ou pra acastelar seus apadrinhados nos recessos da máquina pública. Chegam a parecer ingênuos perto da máfia que tomou o poder central de assalto ente 2003 e 2016: os três renunciaram aos seus postos quando surpreendidos na prática delituosa. Nenhum deles mostrou tamanho apego às benesses do poder quanto os próceres do partido do povo.

Que alívio saber que voltamos a ser governados por parasitas que querem apenas ficar ricos, não?

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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