Rafael Rosset

O Brasil é o terceiro país com maior gasto público em educação

E seria o quinto país que mais gasta no setor, se fizesse parte dos 40 países que compõem a OCDE

O Brasil é o terceiro país com maior gasto público em educação (16,1% do orçamento, indo pra 17% esse ano), e empenha 5,2% do PIB na área – seria o quinto país que mais gasta no setor, se fizesse parte dos 40 países que compõem a OCDE. Pior, o país investe seis vezes mais, por cabeça, nos alunos do ensino superior do que nos alunos do ensino fundamental, essencialmente subsidiando quem não precisa, ou seja, aqueles que estudaram a vida inteira em boas escolas particulares e, por isso, tem mais chances de ingressarem numa universidade pública de ponta.

Trata-se de um investimento, ademais, de baixíssimo retorno para a sociedade: ano passado todos vimos os estudantes da UERJ (que é a oitava maior universidade brasileira, e esse ano ainda não teve as aulas iniciadas por falta de papel higiênico e energia elétrica, na esteira da crise do estado que usava dinheiro dos royalties do petróleo pra pagar aposentadoria dos seus servidores) com camisetas vermelhas gritando palavras de ordem, depredando a reitoria e transformando aulas em assembleias, apenas para descobrirmos que o Brasil é responsável por somente 0,06% das patentes registradas, em comparação, pelos EUA, e só publica 1/12 avos dos artigos científicos publicados por pesquisadores norte-americanos, algo como 2% entre 183 países (lembrando que o Brasil tem a quinta maior população e o oitavo maior território do mundo), por exemplo. No entanto, esses estudantes são pesadamente subsidiados pela sociedade, ideologicamente bombardeada pra acreditar que o mundo como nós o conhecemos vai desaparecer se deixarmos de dar dinheiro pra estudantes de humanas que ficam 8 anos na faculdade e não publicam um artigo sequer.

Resultado disso tudo é que a cada ano o país piora seus indicadores nas avaliações internacionais. Em 2016, 70,25% dos estudantes ficaram abaixo do nível 2 em matemática no PISA, considerado o mínimo tolerável.

Apesar desse quadro desolador, a esmagadora maioria de nossos “educadores” vive em autoengano, num estado de negação coletiva da realidade. Entre jogar fora aquilo em que acreditaram a vida inteira, de um lado, e gerações inteiras de jovens, de outro, eles não piscam, não titubeiam: será uma questão de sorte se seus filhos se tornarem seres humanos úteis a si próprios e à sociedade após passarem campo minado ideológico que é a escola pública brasileira e os cursos de humanas das nossas universidades públicas.

Tamanho descasamento entre investimento e resultado não é incompetência, ao contrário: é fruto de um meticuloso planejamento e um trabalho incansável. Segundo o “especialista” em avaliação Ocimar Munhoz Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP, “o Pisa não avalia tudo que a escola faz”. É verdade. Se ao invés de testar matemática, ciências e linguagem, o exame testasse a “consciência social” dos alunos das escolas públicas, as primeiras posições estariam garantidas.

O sócio construtivismo é o dogma inabalável do nosso sistema educacional, e Paulo Freire é seu deus. Qualquer tentativa de crítica baseada nas óbvias consequências catastróficas de sua aplicação desde os anos de alfabetização de nossas crianças resulta, invariavelmente, em reações virulentas, que incluem NEGAR por completo a influência de Paulo Freire na educação, numa versão pós-moderna do famoso “deturparam Marx”. É como se a tragédia do ensino no Brasil, a despeito dos rios de dinheiro do pagador de impostos despejados diariamente, não tivesse pai. E nesse caso, claro, a solução, como tudo que não dá certo na esquerda, é DOBRAR A APOSTA. Precisamos de MAIS Paulo Freire, precisamos de mais dinheiro (“10% do PIB para a educação”), precisamos colocar mais “consciência social” e menos interpretação de texto na cabeça da molecada.

Paulo Freire, na realidade, visualizou o potencial revolucionário da mente em desenvolvimento. Ao afirmar, para justificar a sua “pedagogia do oprimido”, que “o educador tem o dever de não ser neutro”, ele estava muitíssimo bem acompanhado. “Nos dê uma criança por 8 anos e ela será uma bolchevique pra sempre.” (Lenin). “Aquele que ganha a juventude, ganha o futuro.” (Hitler) “Educação é uma arma cujos efeitos dependem de quem a segura e na direção de quem se mira.” (Stalin). “Ideias e opiniões não nascem espontaneamente em cada cérebro individual: elas tiveram um centro de formação, ou irradiação, de disseminação, de persuasão – um grupo de pessoas, ou mesmo uma única pessoa, que as desenvolveu e as apresentou na forma política da realidade corrente.” (Gramsci).

A própria reação violenta do meio contra o projeto Escola sem Partido não poderia ser mais eloquente do que estou afirmando. No Roda Viva, Leandro Karnal disse:

“(Escola sem Partido) É uma asneira sem tamanho, uma bobagem conservadora, é coisa de gente que não é formada na área”, é “substituir o que eles imaginam ser uma ideologia por outra ideologia, que é uma ideologia conservadora” (…). Seria muito bom que um professor não impusesse apenas uma ideologia, e que abrisse caminho para o debate, mas é uma crença fantasiosa de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola forme a cabeça das pessoas” (…). “Eu gostaria de uma escola que suscitasse o debate, eu gostaria de uma escola que colocasse para o aluno no século XIX um texto Stuart Mill ao lado de um texto de Marx e que o aluno debatesse os dois textos, mas se um professor for militante de um partido de esquerda também faz parte”.

Ele começa negando a existência de uma ideologia de esquerda no ensino, ou ao menos diminuindo sua importância (“o que eles IMAGINAM ser uma ideologia”) para em seguida reconhecer, com todas as forças, que EXISTE uma ideologia CONSERVADORA. Dá a impressão que ser de esquerda é natural como respirar, é tão transparente à natureza humana que é uma coisa que nem se nota, ao passo que tudo o que não é ser de esquerda “é uma asneira sem tamanho, uma bobagem”, uma aberração.

Pior, “é coisa de gente QUE NÃO É FORMADA NA ÁREA”, como se História fosse física quântica, e a ausência de uma titulação, por si só, bloqueasse o debate, como se a Saraiva não vendesse os livros do Gibbon, do Toynbee ou da Hymmelfarb a quem não exibisse o diploma. E essa “gente que não é formada na área” tem um nome mais popular: chamam-se PAIS.

E vejam só, ele “gostaria de uma escola que suscitasse o debate”, mas como ele próprio reconhece que essa escola não existe, se o “professor for militante de esquerda” TUDO BEM – só não está bem se for da “direita delirante”.

O cômico é que o Karnal se mostra consciente de que existe um viés, se filia à deontologia (“eu gostaria de uma escola que apresentasse Mill e Marx lado a lado”), mas ele próprio confessa que não faria o que entende ser ideal (afinal de contas, a direita – representada no exemplo dele pelo Mill – é “delirante e absurdamente estúpida”)

Na verdade, pra saber o que REALMENTE pensa o Leandro Karnal, não precisaríamos nem mesmo ter assistido ao Roda Viva, mas apenas saber que ele está posicionado à esquerda no espectro político-ideológico. E o que pensam alguns pontífices da esquerda sobre a educação?

Para Gramsci, a hegemonia, a relação de domínio de uma classe social sobre o conjunto da sociedade, seria construída sobre dois pilares: a força e o consenso.

O consenso diz respeito sobretudo à cultura: trata-se de uma liderança ideológica conquistada entre a maioria da sociedade e formada por um conjunto de valores morais e regras de comportamento. Segundo Gramsci, “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”, isto é, de aprendizado.

A hegemonia é obtida, segundo Gramsci, por meio de uma luta “de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política”. Ou seja, é necessário primeiro conquistar as mentes, depois o poder.

Qual é a arena em que se conquistam as mentes, por definição? A escola.

Paulo Freire, obviamente, enxergava o educador como um ativista, um transformador de realidade. Em outras palavras, um revolucionário, alguém que colocava a pedagogia a serviço de uma agenda. No seu já conhecido vocabulário críptico e semi-indecifrável, “você, eu, um sem-número de educadores sabemos todos que a educação não é a chave das transformações do mundo, mas sabemos também que as mudanças do mundo são um quefazer educativo em si mesmas. Sabemos que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa. Sua força reside exatamente na sua fraqueza. Cabe a nós pôr sua força a serviço de nossos sonhos.”

Agora imaginem o professor de História do seu filho moldando a cabeça do menino de acordo com os sonhos DELE (do professor).

O advento dessa ideologia perniciosa e tacanha transformou a escola numa máquina de moer cérebros, cujo pináculo são aqueles alunos da rede pública cantarolando “os burgueses não moram na favela, estão nas empresas explorando a galera, e os proletários o salário é uma miséria, essa é a mais valia vamos acabar com ela” ao som de funk.

A coisa ganha contornos de culto, de misticismo. Mario Sergio Cortella, que foi orientando em seu doutoramento justamente de Paulo Freire, cravou, em entrevista ao programa “Fim de expediente”, da CBN:

“Paulo Freire é um dos homens sábios da humanidade (sic), ao lado de Jesus Cristo, Sidarta Gautama e Sócrates”.
E para espancar qualquer dúvida sobre que tipo de visão de mundo será comunicada aos seus filhos na escola:

“Esquerda, independentemente de partidos, é tudo aquilo que não é demofóbico, quer dizer, que não tem aversão ao povo. Direita, independentemente de partidos – quer dizer, pode haver pessoas de direita em partidos ditos de esquerda – é tudo aquilo que é demofóbico, ou seja, que tem aversão ao povo. Em nome da esperança de uma melhor convivência entre os seres humanos, é preciso resgatar a esquerda”.

O ensino que tem sido ministrado aos jovens, principalmente nas escolas públicas, a pretexto de libertarem-nos dos grilhões da opressão do sistema capitalista de produção, aperta cada vez mais seus grilhões intelectuais, mantendo-os num cativeiro ideológico apertado, e da qual muitos nunca conseguirão se livrar por completo.

A escritora Nélida Piñon, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, em 2014, afirmou:

“Não sou especialista, mas a minha impressão é que quando você, a pretexto de compreensão social, de respeitar o meio de onde a criança provém, você faz com que ela mantenha os mesmos instrumentos gramaticais da sua origem, como se uma mudança na fala fosse ofender os pais, você comete um equívoco grave. Os pais querem que os filhos prosperem. A coisa que pai e mãe querem mais é que os filhos melhorem de vida. Não pode haver maior alegria para um pai. E depois, você mantém uma pessoa no gueto. Nós vivemos numa sociedade implacável, uma pessoa é definida quando abre a boca. Você se sujeita ao ridículo. No cotidiano nós temos que ensinar uma criança a ser cosmopolita, urbana e rural, completa. Que ele [o indivíduo] possa ascender onde queira chegar, que possa falar errado quando quer, mas que saiba se conduzir, falar bem quando necessário, expressar ideias. Ideias só podem ser expressas com palavras, com acumulo verbal. Sem palavras, não existe pensamento.”

Isso me fez refletir sobre o abismo do nosso sistema de ensino, capitaneado por “especialistas”, “educadores” e políticos sorridentes. Enquanto jovens em bons (e caros) colégios estão aprendendo matemática, linguagem e ciências, nossos jovens de 15 anos nas escolas públicas mal conseguem juntar sujeito, verbo e predicado numa frase que faça sentido, e perdem 3 meses do ano letivo porque sindicatos vinculados a partidos políticos usam seu direito constitucional de greve pra fragilizar um governador da oposição. Enquanto o (à época) Ministro da Educação queria forçar uma discussão surreal acerca de ideologia de gênero, falando em educação “democrática” e “inclusiva” (já notaram como esses termos se tornam vazios na boca dessa gente?), adolescentes em escolas particulares discorrem com naturalidade sobre Hegel e filmes feitos antes dos pais deles nascerem. Esses mesmos adolescentes que vão entrar nas melhores universidades públicas pra estudar Engenharia, Medicina e Direito. Eles vão empreender e liderar a sociedade nos próximos 20 ou 30 anos (depois passando o bastão aos filhos deles), enquanto aqueles que foram educados pelo Estado vão lutar pra pagar as contas, e sabe-se lá quais valores e conhecimentos vão conseguir transmitir aos próprios filhos.

Não há como não ter raiva de Renato Janine Ribeiro, de Fernando Haddad, de Marilena Chauí e de todos os nossos “educadores” acólitos de Paulo Freire, responsáveis diretos pelo experimento social mais desastroso da história brasileira, que jogou o futuro de gerações inteiras na lata do lixo, e que ajudou a transformar a escola pública num verdadeiro moedor de carne humana. Não há como não ter raiva dessa gente que fala em royalties do pré-sal (dinheiro que não existe como solução para os problemas de hoje) e em despejar 10% do PIB num sistema falido para os nossos filhos serem doutrinados por pseudo-professores de História que estão lá não pra ensinar, e sim pra militar, como bons soldadinhos do partido que realmente são. Acima de tudo não há como não ter raiva porque você vai se esfalfar de trabalhar para que os seus filhos possam estudar em bons colégios particulares, serem líderes e terem boas chances na vida, enquanto a maior parte da população continuará sendo capturada por discursos ressentidos elaborados por uma elite mimada e culpada.

Se você puder, matricule seus filhos numa escola que se afaste da pedagogia construtivista. Eles terão mais chances de serem melhores do que você, que é o que todo pai e mãe espera – ser superado pela prole.

Se não puder, bem – reze.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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