Thiago Pacheco

Donald Trump e a democracia “dos outros”

“A partir dos ensinamentos de Antonio Gramsci, a esquerda passou a fazer a revolução ‘por dentro” da sociedade'”

Câmara dos Comuns, Parlamento Britânico

Winston Churchill cunhou centenas de aforismos inesquecíveis, e um deles é recorrente em época de eleições: “a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que foram experimentadas de tempos em tempos”. A frase é tão célebre que é possível descobrir até a data e circunstâncias em que foi cunhada: na sessão da Câmara dos Comuns realizada em 11 de novembro de 1947. Depois de conduzir o mundo livre na luta contra o nazismo, e triunfar, a mesma democracia que o conduziu ao cargo de primeiro ministro o defenestrou assim que os combates cessaram. Churchill foi um sublime líder em tempo de guerra; os arranjos eleitorais, no entanto, foram claros: com a paz, sua incumbência terminara. Ele retornaria, depois, para um termo final como primeiro ministro – mas quando criou aquele que é um de seus mais conhecidos e precisos adágios, era líder da oposição. Churchill era amante e cultor da democracia, e alguns poderiam até taxá-lo de “aventureiro” do regime político: ele começou sua trajetória no partido conservador, pulou para o partido liberal após uma série de desacordos com a liderança conservadora, e depois retornou à legenda de origem. Isso é comum no Brasil, mas era raro na Inglaterra pós-vitoriana. Seus companheiros conservadores o tratavam abertamente de “traidor”, pecha tornada irrelevante, depois, pelos seus enormes feitos.

Talvez o único termo de comparação entre Winston Churchill e Donald Trump seja o fato de ambos terem, em algum momento de suas vidas, sido eleitos para liderar uma nação – no tempo respectivo de cada um, as mais poderosas do mundo. É bem verdade que a Inglaterra, embora até hoje goze de indisputável força, já era um império prestes a minguar quando Churchill foi tornado primeiro ministro. Perda de liderança e protagonismo semelhante está acontecendo com os Estados Unidos, depois da condução desastrosa da política externa por Barack Obama; tão desastrosa que um leão de chácara da KGB está despontando, à frente dos escombros da União Soviética, como poderoso influenciador geopolítico (e gerador de “memes” na internet). O fato é que, contra poderosa e concertada oposição, Donald Trump se elegeu e criou o maior exército de carpideiras que o mundo já viu: desde a madrugada de quarta-feira, colunistas, comentaristas, apresentadores de televisão e rádio, artistas e celebridades, e também centenas de milhares de cidadãos anônimos com acesso a internet vêm lamentando o resultado das eleições presidenciais americanas e predizendo o fim do mundo. Depois de meses de retroalimentação de pensamento mágico misturado com “narrativa” cuidadosamente preparada, a realidade que vive nas urnas mordeu com força a canela de quem dava a vitória de Hillary Clinton como mera questão de tempo. E isso é ótimo, por uma série de razões.

Coisa bem parecida aconteceu nas eleições municipais em São Paulo. Embora as pesquisas não estivessem tão equivocadas quanto nos EUA, a “narrativa” era uma só: Fernando Haddad seria reeleito, já que foi “o melhor prefeito que São Paulo já teve”. Seus cabos eleitorais estão (por enquanto) infiltrados nas redações de jornais, estúdios de TV, portais de internet e dezenas de cargos em comissão, de onde procuravam exercer sua “influência” sobre o eleitorado – que, cansado de Haddad e do PT, elegeu João Dória no primeiro turno. No “day after” paulistano, vieram as reclamações dos iluminados: a democracia precisaria de um “recall”, uma “reelaboração”; os pobres ora “não sabem votar”, ora “são influenciados pela mídia golpista”; Haddad, mesmo tendo sido “o melhor prefeito da história de São Paulo”, sai da prefeitura “para entrar na história”. Tudo besteira, é claro. E o besteirol está sendo reeditado agora, em escala global, com a vitória categórica e “inesperada” (para incautos e sugestionáveis) de Donald Trump.

A esquerda mudou muito desde o fuzilamento da família Romanov em um porão em Ecaterimburgo. Seu legado começou com uma chacina, passou por genocídios cometidos por regimes totalitários que fazem a carnificina nazista parecer modesta, mas, de tempos pra cá, seus métodos se tornaram mais sutis e um pouco menos sanguinários. A partir dos ensinamentos de Antonio Gramsci, a esquerda passou a fazer a revolução “por dentro” da sociedade, a partir de uma perspectiva de aparelhamento total de todas as suas instituições e, se possível, com a manutenção de pelo menos uma aparência de normalidade democrática. Gramsci compreendeu que a violência totalitária acabaria gerando uma reação adversa, cedo ou tarde, e que o cabresto de guiar a sociedade deveria ser manejado com mais gentileza. Ao invés de derrubar governos com a força das armas e fuzilar opositores, o italiano preferia o método da revolução permanente, com a pregação da ideologia em todos os ambientes: escolas, igrejas, fábricas, quartéis, redações e repartições públicas deveriam se tornar comitês revolucionários perpétuos. O comunismo deveria se tornar hegemônico, como em um enorme experimento social pavloviano, e os resultados das urnas corresponderiam, naturalmente, a isso. A franca torcida de praticamente toda a grande imprensa por Haddad e Hillary – guardadas as proporções – é um reflexo da implantação deste método revolucionário. A imprensa, cujo papel deveria ser o de descrever e noticiar a realidade, se tornou outra coisa: um órgão dissimulado de propaganda, disfarçando de “isenção” o propósito de manipular o pensamento de seu público com a falsificação descarada dos fatos. Mas a realidade sempre acha um meio de superar a ficção, e foi o que aconteceu em São Paulo e nos EUA.

Um episódio ilustra bem a metamorfose do jornalismo moderno: a revista Newsweek circulou, dias antes do resultado das eleições, uma edição especial em que narrava a trajetória de Hillary Clinton à presidência dos EUA. Na capa, a foto da candidata com o título “Madame Presidente”. A própria Hillary, em sua conta no twitter, já se intitulava “futura presidente” – faltou só combinar com o eleitorado. A Newsweek, ressabiada, defendeu a circulação antecipada da revista dizendo que era uma “decisão de negócios”; Hillary se comportou com um pouco mais de dignidade e reconheceu a derrota. Em ambos os casos, não se está diante só de empáfia e arrogância, mas de atos calculados cujo objetivo é aparentar o completo assenhoramento da realidade – e assim, quem sabe, fazer o eleitorado pensar que seu papel é apenas o de homologar aquilo que já está decidido em esferas superiores e inatingíveis a ele: ao “branco deseducado”, ao “caipira sem ensino superior”, ao “negro cooptado”, ao “pobre que não sabe votar”; enfim, a qualquer dessas descrições pejorativas de eleitores “rebeldes” que pulularam logo após a eleição de João Dória e ontem, na GloboNews, na CNN e em contas de twitter que entremeiam análises políticas com memes da Inês Brasil.

Churchill estava certo: a democracia é mesmo a pior forma de governo, exceto todas as outras. Qualquer outro sistema se degenera com muito mais facilidade em casuísmo, tirania e instabilidade. Sua beleza é essa: para funcionar, a democracia deve ser para todos, Churchills e Trumps igualmente. O que a esquerda não tolera – porque é autoritária por natureza – é a “democracia dos outros”, isto é, a democracia cujo resultado não lhe agrada, embora suas regras tenham sido observadas. Quando isso acontece, como estamos vendo agora, começam a surgir idéias de “reestruturação”, “mudança no sistema”, “voto qualificado” e outras excrescências. Não se engane: isso é puro desejo totalitário. Por pior que seja Trump, sua vitória é um alento, porque nos lembra que a alternância de poder é tão importante quanto o voto – e só ele, e não as elucubrações de think tanks progressistas e jornalistas e influenciadores bem intencionados podem conduzir os destinos de nações.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

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