Thiago Pacheco

O Espírito Santo anuncia: é hora de uma revolução na segurança pública

“A polícia não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Quando ela decide não estar em nenhum, este ponto fica provado com ainda mais clareza.”

“Revolução” é uma idéia que há muito tempo foi apropriada pela esquerda – pelo menos desde a revolução francesa, e se consolidando como domínio semântico esquerdista em 1917, com o fuzilamento da família Romanov em um porão siberiano. Uma ampla revisão do imaginário revolucionário esquerdista aconteceu em 1968, com as ridículas “barricadas do desejo”, quando a semente da militância histérica que hoje grassa foi plantada. Os frutos colhidos hoje vêm da longa linha de “aperfeiçoamento genético” da expressão: como o padre Gregor Mendel, que obtinha ervilhas diferentes a partir do cruzamento de várias espécies do vegetal, a esquerda sempre cuidou com muito carinho da “revolução”, adaptando-a aos tempos. Gramsci é até fisicamente parecido com o monge agostiniano – embora, ao contrário dele, seja basicamente um malfeitor, foi com o mesmo cuidado e dedicação que criou uma nova cepa revolucionária, que, se parece menos violenta, é igualmente cruel na promessa de escravidão e submissão total da sociedade ao partido. Mas nem sempre foi assim. A guerra travada contra a coroa britânica por patriotas norte-americanos é chamada de “Guerra Revolucionária” – e a consagração constitucional do direito de ter e portar armas, que a ampla maioria dos americanos considera sagrado, tem suas raízes aí.

A Guerra Revolucionária foi uma luta de independência na mais verdadeira acepção do termo. Foi com as dores do parto de uma nação que os americanos aprenderam o valor e a utilidade de um objeto inanimado, tão útil quanto um arado: a arma de fogo. Desbravar fronteiras e lutar contra a opressão colonialista demandava o uso dos dois instrumentos. A segunda emenda da constituição americana tem uma redação que, hoje, pode parecer arcaica, fazendo menções a convocação de milícias, mas cujo conteúdo é ilustrado vivamente pelo que está acontecendo no Espírito Santo. “Milícias” eram grupamentos militares organizados pelos cidadãos para combater as forças inglesas. O incipiente país ainda estava em seus estágios formativos, e a noção de “pedir ajuda” a “tropas federais” e “forças nacionais” não existia. Um dos mais fortes pilares da cultura americana é a idéia de independência, a liberdade como valor fundamental pelo qual todos, irrestritamente, devem lutar. Isso é tão forte e evidente que os mosquetes usados para expulsar a Inglaterra foram substituídos por pistolas e fuzis com cuja posse e porte são garantidos como última linha de defesa do cidadão contra a tirania – agora, do próprio governo, independente, dos americanos. Benjamin Franklin disse que “quando todas as armas forem propriedade do governo, este decidirá de quem serão as outras propriedades” – seja por si próprio ou por interpostas pessoas. É exatamente o que está acontecendo no Espírito Santo.

Quando a única entidade a que se confia o porte e emprego de armas de fogo para garantia da lei se ausentou, rapidamente começou uma onda violenta de “alteração de propriedade”: motoristas eram parados por grupos que tomavam seus carros; turbas ensandecidas destruíram e saquearam o comércio, tudo registrado em vídeos que circulam amplamente – isso sem falar nos homicídios. Em poucos dias, já se registram quase cem mortes violentas no Espírito Santo. Alguns policiais tentaram voltar ao trabalho, e três foram mortos. O governo enviou “tropas federais” e a “força nacional” – até agora, com poucos resultados. Um toque de recolher informal vigora. Isso tudo é resultado direto da política desarmamentista – que foi anunciada com invulgar sinceridade logo após sua implantação pelo nefasto Marcio Thomaz Bastos, que disse que a lei não tinha por objetivo “desarmar bandidos”. Hoje sabemos: o objetivo do desarmamento é escravizar a sociedade, torná-la não apenas dependente do Estado, mas o mais próximo possível da sujeição máxima retratada em “Matrix”, com a transformação de cidadãos em baterias de 9 volts que alimentam o grande ente estatal enquanto uma sofisticada ilusão lhes garante que são “livres”. Os acontecimentos dos últimos dias provam isso: o capixaba é um prisioneiro. Em poucos dias da grave da PM o Espírito Santo se tornou um território completamente dominado pela bandidagem, e as pessoas não têm com o que se defender – porque mesmo depois de se manifestarem contrariamente ao desarmamento em um referendo, o poder central decidiu, à base de repetição de slogans fofinhos e cor-de-rosa, que assim era melhor. Deu no que deu.

A polícia não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Quando ela decide não estar em nenhum, este ponto fica provado com ainda mais clareza. Exigir que o cidadão se imole em sacrifício enquanto a polícia não chega – e ela raramente chega a tempo – é diabólico. Mas é exatamente isso que o desarmamento exige. O brasileiro precisa, se não quiser ser um cordeiro de sacrifício, mudar isso, urgentemente.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

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