Thiago Pacheco

Thiago Pacheco: “Façam suas apostas”

“É de se notar que, desde a redemocratização, não se viam manifestações tão veementes dos militares”

Detalhe de "Garden of Earthly Delights", Jheronimus Bosch

Há pouco mais de um mês, o General da Reserva Gilberto Pimentel, presidente do Clube Militar, escreveu um inquietante editorial no site da entidade. Rememorando seus tempos de cadete, ele narra como a crise que culminou no Golpe de 64 foi primeiro notada por ele e seus colegas de Academia. A renúncia de Jânio Quadros é sempre tida como principal motivo imediato para os acontecimentos decisivos que viriam depois – é a versão repetida incansavelmente nos livros didáticos e na perpetuação da narrativa que amesquinha o contexto muito maior e mais complexo em que os fatos se deram. Em 1962, recém formado, o General conta que já sentia, ao se apresentar para o serviço, um certo clima de inquietação, que só fez aumentar, e culminou com o chamado do que ele denomina, muito acertadamente, de “as forças vivas do país”. É fácil e conveniente para o progressismo esquecer dos fatos e fingir que a população não foi às ruas, em 64, pedir que a crescente influência comunista fosse refreada – e tratar a coisa toda como o que ela não foi: uma pura e simples tomada de poder autoritária. Marco Antonio Villa, em entrevista concedida a propósito do lançamento do livro “Ditadura à brasileira” (Leya, 2014), resume tudo muito didaticamente. O editorial escrito pelo General Pimentel prossegue para concluir que, mais do que a ideologia marxista, o principal problema da vida nacional é, hoje, a corrupção. E dá um recado claro: “não ousem obstruir a aplicação da lei. Seria a decretação do fim da democracia, e aí, outra vez as forças vivas de 64 poderão se manifestar”. Estaria o militar se referindo à operação Lava Jato?

Nos últimos dias, o Supremo Tribunal Federal, em movimentos capitaneados por Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Lewandowski, passou a determinar a soltura de presos pela operação – o mais emblemático, claro, José Dirceu de Oliveira e Silva, nossa cruza tropical de Rasputin com Marat. O sonho dourado de Dirceu – se tornar presidente e sucessor de Lula – foi abreviado por Roberto Jefferson. Condenado no Mensalão, foi preso, foi solto, continuou a roubar, foi denunciado e preso preventivamente pela Lava Jato e, agora, é solto sob argumentos casuístas que parecem ter relação com requisitos da segregação cautelar, mas que, na verdade, se inserem em um contexto maior e mais complexo, mais ou menos como o de 1964. A falação deitada principalmente por Gilmar Mendes não tem a ver com direito nem com técnica processual. O STF agiu política e simbolicamente, na qualidade de protetor do status quo, do establishment, dos “estamentos burocráticos”, o brilhante conceito criado por Raimundo Faoro: um complexo sistema de compadrio cujo combustível é o apego ao poder. O STF não fez o que fez para agradar Dirceu, nem Lula, o PT ou a esquerda (embora as motivações de Toffoli e Lewandoswski sejam certamente essas), mas aplicou um vigoroso “freio de arrumação” na Operação Lava Jato, cujos efeitos sobre a classe política, o povo já percebeu, não respeitam coloração partidária nem ideológica. Gilmar, em arroubos tourettianos de franqueza, disse que os procuradores de Curitiba são “meninos” que não tem “vivência institucional”, e que por isso estariam fazendo o que estão fazendo. O colunismo do “estado democrático de direito” (entre aspas porque o conceito é invocado de maneira bastarda) se apressou a justificar as decisões, no serviço de assessoria de imprensa informal que já é como o rabo do gato escondido que fica de fora. Sem efeito.

Dirceu, que teve treinamento de guerrilha e espionagem fornecido pela KGB, certamente ficou alquebrado pela prisão. Sua deterioração física é evidente. Mas, como qualquer militar sabe, o treinamento fica. Ele escreveu “cartas do cárcere” e seus assessores informais, plantados em todas as redações do Brasil, reeditaram o “calvário de Dirceu” apenas com cores um pouco menos dramáticas. Não satisfeito em causar revolta popular pelo fato de ser um ladrão contumaz injustamente solto, Dirceu teve seus escritos de “preso político” repercutidos hoje, dia de sua soltura. Antevendo a possibilidade do PT voltar ao poder em 2018, ele escreveu algo que remete à infame piada do Hitler escondido em Pomerode, depois da derrota, e procurado por seus seguidores para “botar ordem” na Alemanha do pós-guerra. O führer, a princípio, se nega a voltar. Mas, com a insistência de seus acólitos, acaba concordando – e avisa: “dessa vez, não serei tão bonzinho”. Eis as palavras de Dirceu:

“Nada será como antes e não voltaremos a repetir os erros. Seguramente, voltaremos com um giro à esquerda para fazer as reformas que não fizemos na renda, riqueza, poder, a tributária, a bancária, a urbana e a política. Não se iludam vocês e os nossos. Não há caminho de volta. Quem rompeu o pacto que assuma as consequências”.

“Não se iludam”. “Nada será como antes”. “Não há caminho de volta”. São as palavras de um homem ressentido – as palavras de quem provou o poder, se inebriou, teve o sonho interrompido e não consegue retomá-lo num catre de prisão. Mas são também ameaças muito claras e categóricas, a reverberação da pulsão autoritária e mortal que hoje massacra opositores nas ruas de Caracas, e que já assassinou mais de 100 milhões. O simbolismo pretendido pelo STF poderia ser só “não mexam com a classe política” – mas, ainda que de forma não totalmente voluntária, flertou com delírios autoritários cujo lugar é a lata de lixo da história. Talvez os integrantes do STF tenham feito esse cálculo político, talvez não. O fato é que criaram uma enorme e irrefreável reação que se manifestou ao longo do dia. Dirceu, afinal, é um ladrão contumaz que continuou a roubar mesmo depois de condenado. Seu palavrório messiânico só funciona nos convertidos (e, aparentemente, nos ministros do STF). Mas não tenha dúvida: se Dirceu um dia tiver uma caneta em mãos, muito sangue irá correr, sangue de seus opositores. Se isso vai acontecer, é outra história (e provavelmente não vai). No entanto…

Solto Dirceu, a coluna de Eliane Cantanhede publicou nota de outro militar, o General Augusto Heleno Pereira:

“Será que os doutos Ministros do STF avaliam o mal que têm causado ao país? Ou o Olimpo em que vivem os afasta totalmente da consciência nacional? Façam uma pesquisa para avaliar o que a população honesta pensa, hoje, da instituição em que militam. Vossas Exas votam calcados em saber jurídico? Não parece. Para a imensa maioria, fingem fazê-lo. Em votos prolixos e tardios, dão vazão a imensuráveis vaidades, a desavenças pessoais e a discutíveis convicções ideológicas. Hoje, transmitem à Nação, alarmada pela criminalidade e corrupção que se alastram, uma lamentável insegurança jurídica e uma frustrante certeza da impunidade. Passam a sensação de que o Brasil, com esse Tribunal, não tem nenhuma chance de sair do buraco; e colocam em sério risco nossa combalida e vilipendiada “democracia”. Sabemos que são professores de Deus e lhes pedimos, apenas, que desçam do pedestal e coloquem o Brasil acima de tudo.”

Os convescotes palacianos, cuja festividade foi reduzida a níveis de “A Queda” pela Operação Lava Jato, definitivamente não combinam com a austeridade da caserna. Os puxa-sacos e lacaios da classe política não se conformam com seus resultados de verdadeira e necessária lavagem intestinal no sistema. É uma luta renhida entre a moralidade do homem na rua e os privilégios de uma classe que é como craca de navio grudada nos costados da nação. Aconteça o que acontecer, é de se notar que, desde a redemocratização, não se viam manifestações tão veementes dos militares – reações claras que são e que nos lembram do seguinte: há outras instituições além de tribunais superiores de conchavos e compadrios. Há as forças vivas da nação.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

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