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“O bem e o mal não existem” – assim se suicidam as civilizações.

Não é coincidência que “moralista” tenha virado um xingamento tão sonoro, ecoando desde as barricadas de 68 e do “triunfo do desejo”. Ali foram plantadas sementes do pensamento nocivo que hoje é o establishment disfarçado de “resistência”.

Já faz algum tempo que os acontecimentos mundiais vêm causando a impressão, cada vez mais forte, de escalada incontrolável em direção a um conflito decisivo e sangrento. Recentemente noticiou-se um massacre especialmente insidioso perpetrado pelo Estado Islâmico: civis iraquianos acusados de colaboração com as forças oficiais do país foram mergulhados em um tanque de ácido nítrico, um método de execução que faria inveja aos mais cruéis chefes de cartel mexicanos ou de facções cariocas com seus – agora ultrapassados – “microondas”. Isso se soma a barbaridades inomináveis já tão noticiadas: pisoteamento de bebês, estupro sistemático e “leilão” de meninas para servirem de escravas sexuais, assassinato em massa de civis desarmados: todos “infiéis”, entre eles muitos cristãos. Embora o ISIS faça isso em nome da religião islâmica – e seguindo exatamente o que prescrevem suas escrituras – a atitude ocidental tem sido de contemporização, e as reações práticas, as mais tímidas.

Sem dúvida há um rosário de considerações de teor geopolítico que explica a ascensão do grupo terrorista: o vácuo criado pela saída das tropas americanas do Iraque, a guerra civil na Síria, a situação instável na Turquia etc. Mas há outro aspecto a ser levado em consideração, e que embora possa até ser decidido nos mais altos níveis da política internacional, perpassa a vida cotidiana e é um lembrete corriqueiro do desleixo civilizacional que já há bastante tempo toma conta do ocidente. Os sintomas são de simples constatação. Tomemos, por exemplo, o ataque terrorista em que o padre francês Jacques Hamel foi degolado por dois muçulmanos que prestaram juramento de lealdade ao ISIS: houve quem, ao noticiar o acontecimento, chamasse os agressores de “vítimas”, chegando a ironizar o fato de a polícia os ter neutralizado, grafando a expressão entre aspas como a manifestar discordância e contrariedade com essa providência.

Thiago-Pacheco---Monty-Python

O assassinato a sangue frio de um padre octogenário não reverbera nas redações de jornais e portais de notícia como o acontecimento revoltante que é – lendo a notícia, quase se tem a impressão que o padre é culpado pela morte dos terroristas, e não o contrário. Depois ainda se descobriu que um dos agressores já era monitorado por ligações com o terrorismo islâmico e até usava uma tornozeleira eletrônica – que ficava desligada entre 08:30 e 12:30, para proteger a “privacidade” do sujeito. Em outro ataque, na Alemanha, o agressor era um refugiado que teve o pedido de imigração negado, mas estava circulando livremente pelo país. Havia “refugiados” entre os terroristas que atacaram a casa noturna Bataclan, em Paris – assim como haverá nos ataques futuros, que, não tenha dúvida, vão se repetir. Assim como a resposta ao Estado Islâmico no território que ele controla, a reação tem sido igualmente fraca: os governantes afirmam que as portas continuam abertas aos refugiados; o Papa, embora o ISIS deixe claro que trava uma guerra religiosa e de extermínio de todos os outros credos, põe as coisas na conta do “capitalismo” e diz que Deus habita nos corações até de quem mata crianças em nome de Alá. Não é em grandes níveis de conspiração internacional que se encontra uma explicação para isso, embora as peças do tabuleiro geopolítico sejam movidas pelas mesmas forças. É na degradação da cultura ocidental.

Quem é que não se lembra de ouvir na escola, invariavelmente dito por um professor de geografia ou história, que “não existe bem e mal” e que é “tudo uma questão de perspectiva”? Ou, ainda, que “não existe a verdade, mas apenas versões”? Exercícios de “neutralidade axiológica” tão praticados nas universidades em nome da “isenção” podem até parecer a um calouro como algo importante e sério, mas qual resultado vem sendo colhido após décadas de culto a um fetiche cientificista que nega a própria existência da moral? Não é coincidência que “moralista” tenha virado um xingamento tão sonoro, ecoando desde as barricadas de 68 e do “triunfo do desejo”. Ali foram plantadas sementes do pensamento nocivo que hoje é o establishment disfarçado de “resistência”. Foi um dos momentos emblemáticos de adesão da civilização do ocidente à autodestruição, à destruição vinda de dentro, em nome da substituição dos valores que construíram nossa civilização pelo ethos revolucionário.

O livro de Michel Houllebecq, “Submissão”, resume tudo isso com perfeição: o protagonista, um acadêmico ateu bem sucedido e respeitado, passa o livro em busca de algum propósito; ele sente sua vida vazia. Um incômodo crescente o leva a visitar o convento em que o autor no qual ele é especializado havia vivido. O mal-estar permanece. Depois de ser abandonado pela namorada, ele recorre a prostitutas – e embora “funcione” com elas, sai dos encontros incapaz de sentir qualquer coisa. Já no fim do livro, ele conclui: “na base de muitos mimos, carícias e cafunés vergonhosos nos progressistas, a Igreja católica se tornara incapaz de se opor à decadência dos costumes. Era preciso se render à evidência: tendo chegado a um grau de decomposição repugnante, a Europa ocidental já não estava em condições de se salvar por si mesma”.

Esse exercício de futurologia já mostra seu acerto: não há quem tenha coragem de enfrentar a ameaça islâmica em suas muitas manifestações. A polícia inglesa, em um lance de humor involuntário, recomendou aos cidadãos ingleses “fugir para bem longe” em caso de ataque do ISIS: “run away!”, exatamente como fazia o covarde Sir Robin de “Monthy Python e o Cálice Sagrado”. Pudera: com o que os ingleses haveriam de reagir? É uma sociedade tão civilizada que as armas não são permitidas. Parece uma insanidade, mas, nesse contexto, a voz da razão e da sensatez foi a do baixista e vocalista da banda de metal norte-americana Slayer, o chileno Tom Araya, que defendeu a posse de armas pelo cidadão comum para resistir a ataques terroristas. A declaração foi imediatamente taxada de “polêmica”, embora tenha sido feita em termos muito modestos e cautelosos.

É nesse estado em que nos encontramos: com vergonha de nos defendermos de quem quer, expressa e inequivocamente, nossa destruição. Se isso já não era novidade quando se falava do crime comum – vide o mantra “não reaja” e a mentalidade desarmamentista – agora o voluntarismo para o sacrifício é geral. Em um lance digno de filmes do James Bond, é um vilão típico dessas histórias que está mais empenhado em enfrentar a ameaça: a frouxidão dos líderes dos EUA, França e Inglaterra deixou um boqueirão aberto diante de Vladimir Putin, que já disse que não vai hesitar em usar armas nucleares contra o ISIS ou mesmo a Turquia, se as fronteiras russas forem ameaçadas. E foi assim que o ocidente, por incompetência, omissão, rabo preso com a agenda globalista e mais tantos outros motivos, deixou seu destino nas mãos de um agente da KGB – o que seria impensável há poucas décadas.

Podemos até pedir a ajuda de Deus, mas viramos as costas para ele há tanto tempo que é provável que ele nos tenha esquecido.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

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