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A privatização do 11 de setembro

por Flavio Morgenstern*

Por que você odeia George W. Bush? Essa é uma pergunta fácil de se responder – nem é preciso pedir ajuda aos universitários. Curiosamente, com tantos motivos para se odiar este cidadão, a maioria das pessoas ainda o odeia pelos motivos errados.

Considerado autoritário, retrógrado, fanático, “terrorista número 1 do mundo” (by Slavoj Žižek), truculento, populista e maquiavélico, Bush filho angariou inimigos fora (e dentro) dos EUA com ainda mais força do que Osama bin Laden ganhava esquisitos admiradores mundo afora. Mas, dentre as críticas cabíveis a um dos piores presidentes da história dos EUA, “maquiavélico” é um termo muito superior a Bush para que ele possa merecê-lo.

Em sua obra O Príncipe, o mestre florentino ensina como manter um Estado autoritário sem precisar recorrer ao direito divino como “justificativa” para o poder desmedido dos principados – bastando, ao contrário, que se separe as esferas da ética e da atuação estatal. Uma de suas lições é que o príncipe deve cuidar do seu Estado visando a sua manutenção no cargo. Para isso, é impreterível que não enfrente ameaças externas contratando mercenários para cuidar do território, como se vê no Capítulo XII, De quantas espécies são as milícias, e dos soldados mercenários (Quod sint genera militiae et de mercenariis militibus).

Não é preciso muito esforço para compreender a lição: uma milícia ou um mercenário apenas defendem o Estado em troca de dinheiro. Não são disciplinados, não obedecem a uma hierarquia (importantíssimo para ações militares) e sempre vão exigir mais dinheiro – não parece ser uma idéia muito inteligente armar até os dentes quem vai querer lhe extorquir logo depois. Não surpreende, portanto, que milícias sejam muito mais violentas do que as forças armadas oficiais – sua capacidade é apenas a ofensiva brutal.

 

A doutrina Rumsfeld

No dia 10 de setembro de 2001 (repetindo: 10 de setembro de 2001), Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa no primeiro ano do primeiro mandato de George W. Bush, faria um de seus primeiros pronunciamentos no Pentágono. Trovejou Rumsfeld:

“O assunto de hoje é um adversário que representa uma ameaça, uma séria ameaça à segurança dos Estados Unidos da América. Este adversário é um dos últimos bastiões de planejamento centralizado. Ele governa ditando planos de 5 anos. De uma única capital, ele tenta impor suas demandas em diferentes fusos horários, continentes, oceanos e além. Com consistência brutal, ele sufoca o pensamento livre e esmaga novas idéias. Ele rompe a defesa dos Estados Unidos e coloca a vida de homens e mulheres de farda em risco.

Talvez esse adversário lembre a antiga União Soviética, mas este inimigo se foi: nossos inimigos são mais sutis e implacáveis ​​hoje. Você pode pensar que eu estou descrevendo um dos últimos ditadores decrépitos do mundo. Mas seus dias, também, são quase passado, e eles não podem coincidir com a força e o tamanho deste adversário. O adversário está mais perto de casa. É a burocracia do Pentágono.” (Jeremy Scahill, Blackwater – A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo, p. 59)

Poupemos as elocuções sobre o que aconteceu na manhã seguinte. A posteriormente chamada “doutrina Rumsfeld”, ou seja, a privatização sistemática do Exército americano, teria pasto e circunstância para ser colocada em marcha imediatamente.

Uma empresa de segurança atuando no pântano de Moyock, na Carolina do Norte, a Blackwater Security Consulting, foi a principal beneficiária da política de segurança de Rumsfeld. Hoje vendida e renomeada como Xe Services LLC (mudança de nome após mudança de logo provocada pelas inúmeras encrencas em que a empresa se envolveu posteriormente), a empresa foi fundada em 1997 por Al Clark e Erik Prince, um cristão ex-calvinista dos ramos mais radicais da Carolina do Norte, convertido ao catolicismo, que também contribui com associações como a Christian Freedom International, ONG que cuida de “ajudar cristãos perseguidos”.

Prince já doou mais de US$ 200,000.00 ao Partido Republicano, tendo doado também dinheiro ao Partido Verde da Pensilvânia, gesto que foi interpretado como uma tentativa frustrada de derrotar o candidato democrata Bob Casey. Até meados de 2007 um homem avesso à exposição pública, Prince precisou mudar sua política de relações públicas após ter sido obrigado a prestar esclarecimentos ao Congresso pelas ações de sua companhia no além-mar.

Assim começou a terceirização do monopólio da força na desastrosa gestão da guerra por George W. Bush. Um grupo armado com interesses claros começou sua, por vezes patética, busca por demanda através do aumento da violência. A empresa que manteve firmemente a segurança das autoridades americanas em solo de guerra sem nenhuma baixa, logo mostraria seu modus operandi para obter tal resultado.

 

O mais poderoso exército mercenário do mundo

Uma das duas únicas funções do Estado, de acordo com o pensador Frédéric Bastiat, é dar ao indivíduo segurança e liberdade – ao se pedir qualquer coisa além, exige-se que se perca ao menos uma dessas duas coisas. Podemos colocar um adendo importante: se o Estado não cuida ele próprio da segurança, dificilmente o Estado permanecerá tranqüilo para seus demais afazeres.

"Have you ever heard about the Emancipation Proclamation?" "I don't listen to hip-hop."

Uma das críticas feitas aos republicanos durante as guerras do Afeganistão e do Iraque erra o alvo tremendamente. Michael Moore explora em tom jocoso a alegação, ressuscitada da guerra do Vietnã, de que os EUA enviavam para a frente de batalha apenas os pobres (e também negros). Uma crítica feita com muito mais êxito no filme South Park: Bigger, Longer & Uncut. Em seu Fahrenheit 9/11, Moore é visto em “campanha” sugerindo que cada congressista republicano envie para a guerra também seus próprios filhos. Na música B. Y. O. B. (Bring Your Own Bombs) do System of a Down, o refrão também vocifera: “Why do they always send the poor?!”

Uma crítica escorregadia. Um problema ainda maior é quase oposto. Com a entrada em ação da Blackwater, encarregada da segurança de autoridades do porte de Condoleezza Rice em situações de guerra no estrangeiro, um coronel ou tenente do Exército americano ganhava, pela guerra, um soldo menor do que um “soldado” raso da Blackwater, que, na prática, sequer representava alguma posição dentro da hierarquia militar americana.

O corpo da Blackwater, geralmente composto de ex-militares, acabou por obter soldos altíssimos por seus serviços. Se a Blackwater, antes da guerra ao terror, obtinha com contratos com o governo cerca de singelos US$ 25,000.00 por mês, por treinamento para a 2.ª Divisa de Fuzileiros Navais (também na Carolina do Norte), com a guerra e a doutrina Rumsfeld a empresa obtém um aumento de 80.000% nos contratos estatais; seus contratos com o governo federal ultrapassaram US$ 1 bilhão: “em 2007, a BW tinha um número de agentes no Iraque equivalente a dois terços dos do escritório de segurança diplomática americano em todos os outros países do mundo somados.” (op. cit., p. 55) Um único soldado da Blackwater em terras iraquianas custava mais de US$ 1 mil aos cofres públicos americanos por dia.

O mesmo livro de Jeremy Scahill afirma: “O governo americano paga aos prestadores de serviços o mesmo que o total de impostos arrecadados entre todos os americanos com renda inferior a 100 mil dólares, o que significa que ‘mais de noventa por cento de todos os contribuintes podem igualmente remeter tudo o que devem diretamente aos [prestadores] em vez de ao [governo] (p. 54), segundo reportagem da Vanity Fair. Para a jornalista Naomi Klein, “os prestadores de serviço tratam o governo como um caixa eletrônico, sacando contratos gigantescos para realizar funções essenciais (…), e faz depósitos sob a forma de contribuição às campanhas políticas.” (p. 54) É um tipo de corrupção que conhecemos bem no Brasil, mas que felizmente não envolve (hoje) agentes armados.

A idéia da privatização é oferecer serviços melhores e mais baratos ao consumidor, e isto se dá através da concorrência. Curiosamente, a privatização do Exército não atende, portanto, a nenhum dos dois requisitos, justamente porque quem paga sem escolher ainda é o contribuinte, haja visto que os contratos são diretos com o governo. É mais ou menos como um contrato com a Petrobras ou o BNDES chamado de “privatização”. Qual a vantagem ao contribuinte?

Não à toa que até proeminentes filósofos e intelectuais da linha neoconservadora (neocon) do Partido Republicano, a mais caricata e próxima dos presidentes Bush, rapidamente romperam seu apoio não incondicional à forma como as duas guerras principais (Iraque e Afeganistão, com uma frente de batalha no Paquistão) estavam sendo geridas. Francis Fukuyama, um dos mais famosos nomes da direita americana, afirmou em 2006, no livro America at the Crossroads, que já não poderia mais oferecer seu apoio a George W. Bush, tornando-se assim, de apóstolo, apóstata dos neoconservadores.

Não espanta que o discurso contrário à guerra, na época, tenha sido o de que os EUA só estavam atrás do petróleo iraquiano (discurso este que sumiu misteriosamente nos últimos anos). Em 1999, o preço do barril de petróleo oscilava na casa de US$ 16 o barril. Em 2008, o preço médio era de US$ 147 o barril – 819% mais elevado – o que também fez com que a Petrobras registrasse lucros recordes durante a gestão Lula. A guerra ao terror em 10 anos custou US$ 4 trilhões aos EUA (quase 7 trilhões de reais).  Só no Iraque, os gastos são de US$ 300 milhões por dia. Um montante equivalente a US$ 5 mil por segundo. É quase o que se paga por “estacionamento de flanelinha” na Rua Augusta. Ainda assim, dizia-se que a guerra fora feita em busca de petróleo. Pois, vendo o balanço comercial do petróleo no mundo, parece que não encontraram.

 

Sunday bloody Sunday, Bagdad, 16.09.2007

Se a Blackwater até então só chamara a atenção de pesquisadores preocupados com os gastos militares americanos, foi o dia 16 de setembro de 2007 que abriu os olhos do mundo para a empresa. Infelizmente, poucos detalhes foram oferecidos aos especialistas entrevistados de plantão pelas terras tupiniquins, avessos a investigações em minudências.

Um comboio da Blackwater atravessava a área nobre de Mansour, em Bagdá. A polícia iraquiana já havia se acostumado a liberar passagem para os comboios, que defendiam a segurança de altas autoridades americanas. O mais comum, no entanto, era a polícia iraquiana cuidar da segurança de civis iraquianos que se arriscavam a ser fuzilados ao se aproximarem das vidas mais valiosas de seu país: os ocupantes americanos.

O comboio, como de costume, obrigou o policial de trânsito Ali Khalaf Salman a interromper o tráfego. Mas o comboio subitamente deu meia-volta, entrou pela contramão em uma rua de mão única e, repentinamente, um enorme homem caucasiano de bigode começou a disparar. O primeiro morto foi o estudante de medicina Ahmed Hathem al-Rubale, poliglota de uma família de médicos e fã de futebol, que estava do lado da mãe em um sedã Opel. O policial de trânsito Khalaf correu e acenou para que parassem de atirar. Assustado, o exército mais caro e poderoso resolveu atirar ainda mais. Gritos de cessar fogo vindos dos próprios comandantes da Blackwater não impediram que o tiroteio prosseguisse por cerca de 15 minutos. O massacre só foi interrompido “quando um dos guardas da Blackwater apontou sua arma para o outro que estava atirando, quase dando início a um tiroteio mexicano” (op. cit., p. 15) O fogo, além dos comboios Mamba, também veio dos helicópteros Little Bird da empresa.

“Fotos aéreas da cena mostraram depois que o carro nem sequer havia entrado na rotatória quando foi alvejado pela Blackwater, enquanto a reportagem do New York Times revelava que ‘O carro no qual as primeiras pessoas foram mortas não chegou a se aproximar do comboio da Blackwater até que o motorista iraquiano tivesse sido baleado na cabeça e perdido o controle do veículo’.

(…) Mais tarde, quando os investigadores americanos perguntaram-lhe porque jamais abriu fogo contra os homens da Blackwater, Khalaf disse-lhes: “Não estou autorizado a disparar, e o meu trabalho é cuidar do trânsito”.” (loc. cit.)

Por causa do massacre, a Blackwater seria alvo de críticas do mundo inteiro, causaria a pior crise diplomática entre Washington e Bagdá e seu dono, Erik Prince, prestaria contas ao Congresso americano. Apesar das críticas, o deputado democrata Henry Waxman, como de costume, foi prudente em chefiar a arguição com perguntas técnicas, e não envolver o massacre de Bagdá na discussão.

Apesar da alegação de “legítima defesa” por parte da Blackwater e de Erik Prince no Congresso, além das dezenas de testemunhas, há uma instituição difícil de ser desmentida. A primeira entidade a chegar a Mansour foi o Exército Americano – que não viu sinal de balas ou mesmo armas que não fossem os fuzis da Blackwater.

Como explicar estes erros? O livro de Scahill afirma que “pesquisas razoáveis” estimam que 25% dos ‘atiradores’ da Blackwater “ingeriam esteróides ou outras substâncias alteradoras do discernimento” (p. 49). Um comportamento ao menos condizente com um comportamento tão brutal.

Não foi a primeira vez em que os “erros estratégicos” da guerra que sempre noticiavam mortes de civis iraquianos envolveram a Blackwater. Antes da carnificina da praça de Mansour, ao menos em 14 outros tiroteios houve participação de agentes da Blackwater. Verificou-se que a empresa cogitou pagar propina aos familiares das vítimas pelo silêncio. Sugerindo um valor de US$ 20 mil, logo perceberam o erro que Bush deveria ter percebido antes: não entupir de dinheiro quem tem uma arma para lhe subornar. Fixaram então um valor mais baixo, de US$ 5 mil, e conseguiram se manter na impunidade por tempo suficiente.

Porém, se um soldado do Exército americano cometesse um crime de guerra (como os vários que foram julgados de Abu Ghraib), iria parar num Tribunal Militar. O que fazer com assassinos americanos cometendo crimes fora do território americano? Erik Prince mostrou o que “poderia” fazer com os erros que custam vidas civis inocentes: demitir os soldados, deixando que eles custeassem ate´a passagem de volta para casa.

Washington, nitidamente, não entregaria cidadãos americanos a tribunais iraquianos. Porém, segundo o especialista em lei militar Scott Horton, “Há claramente jurisdição e base legal para agir contra eles [os mercenários] sob o Ato dos Crimes de Guerra” (p. 46).

No entanto, a impunidade prevaleceu. Como aconteceria com Donald Rumsfeld, a maior paga obtida por crimes sangrentos contra vidas foi uma sumária demissão, como se tudo pudesse voltar a ser como antes logo após isso. Erik Prince vendeu sua empresa, e agora faz treinamento militar nos Emirados Árabes Unidos. É um preço pequeno a se pagar (ou, na verdade, a se ganhar) depois de tantos milhões ganhos e tantas vidas destruídas.

No entanto, ainda fica a lição de Maquiavel, mais atual do que nunca: se Bush não tivesse usado mercenários em seu Exército, muito provavelmente a guerra no Iraque não seria o atoleiro trilionário que foi.

 

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Há 10 anos, estava tirando mais uma nota vermelha em Química e vendo as aulas serem oficialmente paralisadas para que se pudesse comemorar o atentado terrorista nos corredores. No Twitter, @flaviomorgen

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12 Comentários

12 Comments

  1. Rodrigo Cavalcante

    15 de setembro de 2011 at 12:27

    Você assistiu ao filme A Informante (The Whistleblower)? O filme é baseado em fatos reais (Bósnia) e já mostrava o que esse exército mercenário com imunidade internacional era capaz de fazer. Dá uma olhada no trailer: https://www.youtube.com/watch?v=7kvVH-cM_Gs

    • flaviomorgen

      16 de setembro de 2011 at 16:50

      Rodrigo Cavalcante, eu só ouvi falar no Manhattan Connection. Mas vou procurar, valeu a dica!

  2. Thiago - RJ

    14 de setembro de 2011 at 19:49

    Em termos jurídicos, ao menos, acho que o Brasil está um pouco mais imune a isso do que os EUA (pasme). Afinal, a contratação de uma empresa privada de segurança para realizar a segurança de autoridades administrativas americanas (civis, pelo que entendi) em solo iraquiano é o que o direito pátrio entenderia como uma delegação,”terceirização” em termos leigos. O Estado contrata uma empresa para realizar uma tarefa (no caso, realizar um serviço) à população ou à própria Administração Pública. É como os órgãos estatais fazendo licitação e contratando uma empresa de informática para fornecer compitadores alugados, habilitados a realizar as funções “X” e “Y”, e realizar manutenções e trocas. Em tese, o Estado poderia comprar ele próprio os computadores, e fazer concurso para manter um quadro de servidores estatutários responsáveis por essa manutenção.

    O pior dos mundos é justamente o que aconteceu no Iraque: coexistência de “servidores efetivos” (as Forças Armadas americanas) e “contratados terceirizados” (os empregados da BlackWater).

    Acontece que, no Brasil, as chamadas terceirizações têm que ser vistas dentro da perpectiva mais ampla das delegações (ou seja, o Estado delega uma tarefa sua ao particular, nos termos dados pelo ordenamento jurídico). Essa delegação não é livre, não um ato administrativo puramente discricionário, em que cabe ao administrador público avaliar a conveniência e a oportunidade da “terceirização”. Ele tem que atentar, primeiramente, para os impedimentos que estão expressamente na Constituição (é esse o ponto, no qual já vou entrar) e em eventuais leis, e, em segundo lugar, para o princípio da eficiência, que tem status de princípio constitucional que vincula a Administração Pública (art. 37).

    Na Constituição, há, grosso modo, dois limites básicos a essas delegações. O primeiro envolve o poder de império estatal, ou seja, aquelas atividades que, por sua própria natureza, precisam que os agentes competentes para realizá-las sejam autoridades públicas investidas das prerrogativas necessárias à satisfação do interesse público tutelado ali, e que não podem ser repassadas ao particular (que não tem essas prerrogativas). O segundo diz respeito às chamadas carreiras de estado, ou seja, aquelas que têm previsão expressa na Constituição (normalmente) ou em leis orgânicas que, ao organizar determinada função estatal, criam a carreira pública correspondente. Isso não é uma opção aleatória, já que essas carreiras com assento constitucional englobam atividades típicas de estado, em que os agentes precisam das tais prerrogativas, seja porque lançam mão do jus imperium, seja porque aquela função pública precisa de independência.

    Só para exemplificar um caso e outro, imagine que, em vez de um Auditor-Fiscal da Receita Federal, agora fossem empregados privados de uma empresa (ela própria, sujeito passivo de tributos) a lançar tributos federais, lavrar Autos de Infração, realizar diligências em outras empresas, verificar livros fiscais… Ou então, imagine se os juízes não tivessem a garantia da inamovibilidade e da vitaliciedade, será que eles dariam sentenças contrárias a poderosos interesses e correriam o risco de ser mandados para o escambau, o mesmo perder o cargo?

    Pois então, a funções públicas de militarismo e de segurança pública têm capítulo próprio na Constituição, que prevê, também, as carreiras – inclusive no sentido de que haverá uma PM e uma Polícia Civil, algo que acho péssimo. Num caso como o americano, que envolve intervenção militar em outro país soberano, jamais poderia haver uma empresa contratada atuando em conjunto com o Exército. É contraproducente em termos práticos e é complicadíssimo em termos legais.

    Não estou dizendo que o Estado não possa contratar segurança. Pode sim. O Senado, por exemplo, tem um corpo próprio, que é estatutário. Muda-se o Regimento Interno, e poderíamos fazer uma licitação e um contrato. Da mesma maneira que vários órgãos da Administração direta Brasil afora contratam empresas de segurança para fazer a segurança do local físico onde funcionam. Isso, aliás, é bom, porque lugar de PM é na rua prevenindo crimes, e de policial civil é investigando-os. Mas isso aí é atender ao interesse público secundário, ou seja, o da própria Administração Pública. Para atender o interesse público primário, que o dos cidadãos, não como haver delegação: as polícias são funções de estado e têm que ser exercidas por agentes integrantes de carreiras de estado.

    O caso militar é pior, daria mais confusão ainda, pelo regime jurídico de hierarquia e disciplina que rege o militarismo. Tanto que a segurança do Presidente, como Chefe de Estado, é realizada pelo Gabinete de Segurança Institucional, integrado por militares, policiais federais e agentes da ABIN. Quando o Estado Brasileiro manda agentes seus em missão oficial no exterior, a segurança é feita por agentes estatais.

    É difícil supor uma campanha militar brasileira, unilateral, em outro país, mas pela legislação que temos hoje, as Forças Armadas certamente fariam a segurança das “autoridades” administrativas que estivessem por lá, não teria outro jeito. Mas atenção, estadófilos: isso não tem nada a ver com empresas privadas mantendo contratos com as Forças Armadas para fornecer equipamentos – de material de escritório aos novelescos caças.

    Apesar dessa merda toda, eu duvido que Bush ou qualquer outro presidente americano tivesse coragem de “terceirizar” seu Serviço Secreto.

    • flaviomorgen

      16 de setembro de 2011 at 16:57

      Caramba, Thiago. Nem fazia idéia de todas essas maracutaias jurídicas. Very worth reading! Obrigado!

  3. Thiago - RJ

    14 de setembro de 2011 at 19:04

    Que coisa, também estava tendo aula de Química (orgânica, no caso) quando os atentados aconteceram. Mas o professor de Química não só não interrompeu a aula como não comemorou. Aliás, não houve maiores comentários de nenhum professor da área de Exatas que, bom, estavam mais preocupadas e fazer a galera passar no Vestibular e aprender Matemática, Química, Física.

    Já os professores das áreas de Humanas… lembro até da professora de Inglês (!) passando um texto cuja moral era algo como “quem vive pela espada morre pela espada”… até concordo com o ditado, mas o problema é não rola subsunção do fato há hipótese nesse caso, né? Ou as pessoas que morreram no WTC – um prédio comercial, de escritórios – tinham levantado naquela manhã para “viver pela espada”? E os bombeiros, paramédicos, policiais, eles também “viviam pela espada”?

    O único que salvava era o “tio” de Geografia, um democrata e um liberal, que acima de tudo lia muito. Talvez tenha sido ele a me dar a última dose de vacina contra o vírus esquerdista que meus professores de Humanas sempre inocularam, uns mais conscientemente, outros menos. Desde que eu me entendo por gente. Sério, não sei como não virei esquerdopata, tinha tudo para isso.

    Desculpa a digressão aí, Flávio, sei que o tema é “exércitos mercenários”…

  4. Vitor

    14 de setembro de 2011 at 13:03

    “O livro de Scahill afirma que ”pesquisas razoáveis” estimam que 25% dos ‘atiradores’ da Blackwater “ingeriam esteróides ou outras substâncias alteradoras do discernimento” (p. 49)”

    Esteróides não alteram discernimento. Aumentam a agressividade na minoria dos casos mas não deixam ninguém psicótico (o roid rage é basicamente uma invenção). Esteróides potencializam o que um cara já é: Um cara normal que toma oxandrolona vai continuar normal (só mais forte). Um imbecil que toma nandrolona vira um super-imbecil.

    Os milicianos da Blackwater e os soldados americanos vêm normalmente dos mesmos backgrounds (classe média baixa ou pobre, sem instrução superior, muitos usuários de maconha e outros psicotrópicos, etc). Então é razoável supor que milicos támbém usam “esteróides ou outras substâncias alteradoras do discernimento”, mas a hierarquia militar rígida e o medo da corte marcial os põe na linha. O que é esperado de um exército, bom que se diga.

    Texto excelente, como é o padrão Morgen de qualidade.

    • flaviomorgen

      16 de setembro de 2011 at 01:41

      Obrigado, Vitor! Gostei de saber disso, parece que nem o Scahill percebeu o tamanho da bomba (literalfando famente) que tinha em mãos, hein?

  5. Daniel Barros

    14 de setembro de 2011 at 12:11

    Há um mês, assisti a uma série chamada “Jericho”. De uma forma nada sutil, alguns episódios mostram como essas empresas de segurança agem em zonas de conflito. Há, inclusive, uma cena que remete diretamente ao massacre supracitado.
    Com relação ao argumento “ah ha! uh hu! O Petróleo é nosso”, lembro de ter lido (de verdade, não é migué) que algumas empresas texanas ligadas a grupos políticos com influência na Casa Branca conseguiram contratos para explorar reservas de combustível fóssil no Iraque, com ganhos significativos para ambos os lados.
    De todo modo, esse post ficou afinadíssimo.

    • flaviomorgen

      16 de setembro de 2011 at 01:35

      Obrigado, Daniel!

      Vou procurar essa série. Eu não vejo muita conexão entre a guerra e o petróleo como tanto afirmaram. Porém, é curioso ver como só empresa ligada ao governo, e geralmente às mesmas correntes, fazem esses trambiques, não é?

  6. André

    13 de setembro de 2011 at 08:53

    Desde que o mundo é mundo, sempre existiram e sempre existirão os mercenários. Isto é fato. Desde a mais remota era, sabemos que os povos dominados muitas vezes se aliavam aos seus dominadores não apenas por medo de serem mortos, mas também por uns “dobrões” a mais. O continente Africano por exemplo, viveu, vive e ainda viverá muito com suas guerras locais onde grandes destaques foram os mercenários quer seja na sua emancipação colonial ou para se manter colonia.

    A questão da Black Water ou poderia ter sido qualquer outra empresa era apenas uma questão de tempo.

    Na verdade é apenas uma consequência. Após a primeira guerra do golfo se passaram dez anos até os EUA serem atacados em seu próprio território, o que obviamente desencadearia uma retaliação sem precedentes, como aconteceu e continua acontecendo, isto era óbvio.

    Como então o país mais poderoso e rico do planeta ficaria imune a utilização de mercenários.

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