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A redução do ser humano nos rolezinhos

Os frequentadores dos “rolezinhos” não caem na esparrela de “luta de classes” da esquerda. Pelo contrário: eles querem capitalismo o mais rapidamente possível.

funk ostentação

As análises que fizeram neste mês sobre o fenômeno dos “rolezinhos”, quando jovens da periferia vão em massa a um shopping center ouvir e cantar funk ostentação e muitas vezes correr e tumultuar um ambiente de compras, como foi criticado aqui, reduziram toda a questão a encontrar “opressores e oprimidos”, muitas vezes imaginários, para definir mocinhos e bandidos no maniqueísmo econômico mais frugal que se tornou a análise política e cultural brasileira.

Apesar de parecer defender os pobres da periferia contra a malvada classe média preconceituosa, tal visão apenas estigmatiza seres humanos e lhes reduzem às suas faixas salariais.

João, Ana e Júnior deixam de ser seres humanos complexos, com sentimentos contraditórios e idéias em formação em busca de unidade de sentido, para se tornarem apenas marionetes de comportamento determinista, definido por sua idade, região em que moram e pela faixa salarial dos pais.

Como a visão de quem faz essas análises difere cirurgicamente muito pouco de propaganda partidária, sempre tenta-se criar uma narrativa de “excluídos” e “preconceituosos” para trabalhar a “inclusão” através de “políticas” que atentem para o “social” (o discurso é sempre reduzido a uma meia dúzia de cacoetes, que, pela união de seus poderes, perfazem: “assistencialismo através de um partido progressista no poder”).

O curioso é que essa sociologia uspiana de botequim, que se reproduz sempre entre o rebotalho de qualquer curso superior, pensa que é a única “defensora” dos pobres, quando os pobres a rejeitam de todo.

Cansados da primeira leva de música de periferia – quando a bossa nova passou a fazer “crítica social” do Leblon, olhando pra favela do quarto que não tem vista pro mar e se lembrando dela sempre que precisa de bois de piranha que trabalhem no ramo dos estupefacientes, até o rap de guerrilha contra “o sistema” (sempre ele) – a geração atual copia o rap e hip hop da década de 90 na América, quando a onda não era mais mendicar os sorrisos de dó de algum sociólogo playboy que aparece na bocada quando precisa de drogas, e sim mostrar que venceu sozinho no tal “sistema” e hoje é o rei do camarote (!) nas favelas, que merecem até serem chamadas de “comunidades”, com seus novos puxadinhos e gatos-Net.

A sociologia anacrônica foi pega de calças curtas, e cada vez mais se contradiz ao falar do funk ostentação. Ela não percebe que os pobres não são contra o capitalismo – pelo contrário, esse novo movimento quer o capitalismo o mais rapidamente possível, até com atalhos imorais. É o que faz surgirem os rolezinhos.

Um texto de Carla Abdalla mostra que o discurso de “luta de classes”, repaginado para “desigualdade”, “distribuição de renda” ou o eufemismo traquinas que seja, não cola entre os pobres. A tentativa de politização dos rolezinhos tampouco: os freqüentadores dos rolezinhos em Itaquera, Campo Limpo e Guarulhos (só faltando uma periferia extrema no sentido oeste da cidade de São Paulo) definitivamente não são os mesmos que vão fazer rolezinho no JK Iguatemi (onde só se é possível entrar de carro) ou, no caso carioca, no Leblon. Em um há moradores da periferia, em outro, agitadores de classe média com suas teorias “sociais”.

O próprio shopping Itaquera organizara rolezinhos antes, mas era a própria organização do shopping. Não esperava a autonomia dos jovens em criar o seu próprio – e, quebrando as regras implícitas, agir de maneira a quebrar a ordem de comportamentos esperada em um shopping.

Os jovens que vão para “zoar” (e, como qualquer pessoa normal que não cai na esparrela esquerdista sabe, pobreza não tem quase nada a ver com criminalidade) sem roubar nada, mas acabam, com esse comportamento de agir diferentemente do esperado, facilitando os furtos de quem vai pra tumultuar mesmo. Ao contrário das manifestações de junho, é um caso claro de uma “minoria de vândalos” se aproveitando de uma multidão pacífica, mas feliz por, em bando, quebrar as regras (uma felicidade bem baixa e adolescente, mas esperada).

É uma faceta esquisita da nossa civilização: ainda mal temos capitalismo, e quem está querendo que ele chegue mais rápido são os pobres. Todavia, só chega o lado dinheirista do capitalismo (duvido que esses jovens saibam por que essas marcas são boas), a ostentação e a luta por status.

Nitidamente essas pessoas querem usar marcas para fazerem parte de um grupo. Têm de ser sempre as mesmas marcas. Isso é o que o Oscar Wilde já dizia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada – na prática, como explica o filósofo Mário Ferreira dos Santos, significa que não sabem mais apreciar e entender algo, apenas traduzir visualizar o seu significado em cifras.

Desconhecem o valor das coisas, o axiós, valor intrínseco e de uso. Reduzem até seus objetos de desejo apenas ao thymos, o valor de troca (thymos tem a raiz de “estimar”, saber apenas o valor de algo pelo que este pode ser trocado).

A cultura deles ainda é nula e são embalados pelo pior tipo de música já feita pela humanidade – civilização tentando avançar, cultura caindo em níveis avernais. Junte os dois e terá um bom material para trabalhar a geração que estará na Universidade em menos de 10 anos.

Reduzindo seres humanos às suas funções mais primitivas, estes sociólogos só conseguem encarar “pobres” como um coletivo de baixa renda que deve odiar quem tenha mais – sem perceber que todo o seu anseio de “integração” não significa ódio e nem mesmo inveja, e sim vontade de participar do butim justamente sem serem encarados como vítimas que precisam de olhares murchos de dó. Querem ser iguais, competitivos, vencedores – e querem melhorar a vida deles não através de merrecas de políticas sociais jogadas para a pobraiada, e sim usufruindo da melhoria de vida que só o capitalismo é capaz de oferecer.

Falta a essas pessoas terem o que a política “social” nunca vai conseguir lhes dar. Não é a cantilena morosa sobre “educação”, e sim cultura. Quando tiverem cultura para viverem sozinhos em mundo complexo, a mentalidade de atrapalhar as pessoas ou facilitar furtos, ainda que inconscientemente, voará para longe.

Para isso, precisam depurar seus sensos de proporções (no que a cartilha do MEC é apenas inimiga) e não enaltecer “pegadores” e nem um gênero musical que trata dinheiro não como aquisição ou fruto de trabalho, mas apenas possibilidade de troca e status.

Do contrário, serão ainda seres reduzidos, que podem ser transformados em números e faixas de renda pela aleivosia da turma “social” de plantão. Pior: quando estiverem na faculdade, poderão ser reduzidos a serem meros Emir Saders, Sakamotos ou Chauis. Ou essas pessoas já enxergaram em um ser humano algo além do seu salário?

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4 Comentários

4 Comments

  1. Mulholland

    7 de fevereiro de 2014 at 16h33

    Mais um lado bom dos rolezinhos: finalmente tem serviço pro Netinho.

  2. Leo N.

    30 de janeiro de 2014 at 18h19

    “Organizadores de rolezinhos se filiam à União da Juventude Socialista”
    https://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/sp-organizadores-de-rolezinhos-se-filiam-a-juventude-socialista,edef3d14d90e3410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html
    Eu não sei quem é mais esperto nesta situação…

  3. Matheus Magalhães da Silva

    30 de janeiro de 2014 at 15h44

    A esquerda sempre vai fazer de tudo para manter o pobre “pobre”, o negro “negro” e a mulher “mulher”. Sãos os coitadinhos que mantém esta joça toda funcionando.

    Em relação ao rolezinho, eu acho curioso… Funk ostentação e MC Daleste são expressões de um povo que luta contra um sistema que os escraviza. Ok!
    E o BBB? Qual é a parcela social que mais assiste e dá grana pra Globo através do SMS? Não que só gente pobre assista mas é uma grande parcela da audiência do programa.
    Por que eu falei em BBB? Quem aqui já não viu um esquerdista de DCE encher a boca pra falar mal do programa? Quem nunca leu artigos e mais artigos dizendo que a Globo quer destruir o povo brasileiro com as novelas e os reality shows?

    Agora MC Daleste dizendo que nasceu para matar policial é belezinha, né? Basta ter o pedigree e tudo é bom. Só uma sociedade como a nossa, no estado atual, para não debater o fato de que existem milhões de jovens (alguns ainda na puberdade!) ouvindo músicas que exaltam o crime e a violência. Só aqui, nós vemos isso como se fosse algo natural. O nosso preconceito com os pobres é tão enorme que nós consideramos que “música de pobre” tem que falar em sacanagem e tráfico de drogas. Parabéns esquerda, vocês REALMENTE conseguiram destruir o debate sério e o trocaram por conversa de bêbado em bar da esquina.

  4. Breno

    29 de janeiro de 2014 at 16h07

    Belo texto, tenho uma única ressalva que apesar de insiginificante não deixa de ser válida: não é necessário estar de carro para entrar no shopping JK Iguatemi, existem portas para pedestres e a entrada é livre (quando não há liminares).

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