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As pesquisas eleitorais e as urnas: a loucura e o método

As últimas eleições municipais marcaram o ápice de um estranho fenômeno: os institutos de pesquisa eleitoral chutando para bem longe do alvo, e sempre para a mesma direção.

Números razoavelmente constantes nos três principais institutos de pesquisa não significam, necessariamente, mútua confirmação. Quem confirma são as urnas.

Analisando os números, fica difícil não se perguntar por que o Ibope não critica a margem de erro do Datafolha, ou vice-versa. Na verdade, é ainda um mistério que jornais e cientistas políticos (ou os famosos “especialistas”) continuem dando tanta validade às pesquisas eleitorais.

Ou ainda como não pinta a dúvida em nenhum intelectual: de onde surge a “margem de erro”? Como é computada? São os mesmos sociólogos que aborrecem a vida ao falar em segurança e riqueza como reis da estatística, mas se calam vergonhosamente diante de um problema de cálculo simples.

O caso da cidade de São Paulo foi emblemático. Celso Russomanno, aqueles que já mal lembramos quem é, parecia ascender como um foguete. A “nova força” a encarar a prefeitura tinha como grande charme, obviamente, não suas propostas, mas sua capacidade em subir nas pesquisas.

Aqui começa o jogo eleitoral: quem está ganhando ou prometendo subir até chegar em primeiro, graças a isso, ganha mais força para ganhar ou chegar em primeiro. Se está ganhando crédito da população (o que é, obviamente, muito mais fácil de se conseguir antes do primeiro dia de mandato), parece um bom motivo para um indeciso também confiar em seu poder de fogo. Sobretudo porque boa parte da decisão eleitoral é calcada no princípio da repulsa: o indeciso geralmente vota não em um candidato que lhe pareça seu novo amigo de infância recém-descoberto, e sim no adversário com mais poder de fogo daquele que mais rejeita.

Russomanno foi, assim, alçado ao estrelato, como aquele que poderia ser uma “nova” força (em sentido estrito) para a São Paulo sempre polarizada entre PT e PSDB. O que já é uma mentira marqueteira: Russomanno significava justamente a última grande força antes da polarização da cidade, o malufismo. Haddad, além de ter um PT mensaleiro por trás, ainda era lembrado apenas como um ministro desastrado, sem nada a oferecer.

O primeiro turno em São Paulo teve o resultado mais surpreendente para os incautos: a estrela de Russomanno, contra o qual, talvez, quem sabe, houvesse um segundo turno, caso ele não vencesse o pleito logo de cara, apagou-se vertiginosamente em duas semanas.

Na última pesquisa Datafolha do primeiro turno, a eleição parecia “embolada”. Com apenas 2 pontos percentuais de margem de erro (uma misteriosa precisão cirurgia, nunca posteriormente cotejada com a realidade), José Serra apárecia com 28% (26/30%). Celso Russomanno encarava a força da gravidade já em segundo lugar, com 27% (25/29%). Fernando Haddad tinha 24% (22/26%).

O resultado factual confirmou um chute baixo para Serra (30,75%, já quase garantindo um ponto a mais do que a “margem de erro”). Haddad passou com 28,98% (praticamente 3 pontos além… da margem de erro), e Celso Russomanno naufragou com 21,6% (3,4 abaixo da margem de erro mais pessimista). Mesmo que todos os candidatos tivessem votos dentro da margem de erro, por que sempre nas beiradas, e por que sempre unidirecional?

A pesquisa foi realizada nos dias 5 e 6 de outubro. As eleições foram no dia seguinte.

As notícias sobre o primeiro turno chegam a ser arqueológicas lidas agora, um mês depois.Russomanno ainda é “a notícia”, enquanto Haddad aparece como o apêndice curioso. Se fosse o campeonato de Fórmula 1, parece que até as vésperas da corrida final, todos os institutos ainda apostariam na vitória de Kimi Räikkönen até um dia antes da grande final entre Vettel e Alonso.

O Ibope, com um dia a mais de pesquisa (de 4 a 6) foi mais modesto em suas previsões: Russomanno, Serra e Haddad empatados todos com 22% (o que acarretou o curioso fenômeno do meteorologista prometendo 50% de chance de chuva). A margem de erro foi de três pontos. Assim, Serra ficou 5 pontos acima da margem, Haddad com 4 acima da margem e Russomanno milimétricos 0,4 dentro da margem. O único que não estava bem acima.

Ainda mais curioso: numa pesquisa do Ibope divulgada um pouco antes, em 29 de setembro, Haddad aparecia à frente de José Serra no segundo lugar, enquanto o Datafolha, seis dias antes, apresentava uma abertura de 5 pontos de Serra sobre Haddad (o Vox Populi mantinha os mesmos números do Ibope). Para aproximá-los, só, novamente, ficando no limite e além da margem de erro – com o agravante de que se via apenas uma disputa pelo segundo lugar, em um segundo turno que ainda soava hipotético.

Houve até blogueiro progressista afirmando que o Datafolha, que sempre chutou os votos tucanos violentamente para baixo, tinha ficado “sozinho com Serra” (sic). Diga-se apenas: no que os institutos mais concordaram foi no erro: a disputa Serra-Haddad era a hipótese “improvável”, com Russomanno dando uma sova a la Anderson Silva em cada oponente.

Há, claro, um fenômeno auferível: um personagem criado por um marqueteiro como Russomanno, sem nenhuma experiência executiva e tirado às pressas da cartola como um novo feiticeiro tende a crescer entre a faixa do eleitorado que desconhece os meandros obscuros da política. Era difícil ver quem, com baixa escolaridade, conhecia o passado malufista de Russomanno (ou mesmo o presente de Haddad), e os debates, com audiências de 2 pontos percentuais, eram só vistos justamente por aqueles que não mudariam sua posição, por já terem convicções políticas bem mais sólidas.

Num segundo momento, vendo que ignorar a “estrela ascendente” está gerando um monstro, finalmente trata-se de atacá-lo. Como alvo frágil, não despende muito esforço jogá-lo de volta no seu devido lugar, expondo seus defeitos à população. É uma curva óbvia que muitas celebridades, de apresentadores de TV a pagodeiros, já enfrentaram nas urnas, ainda mais no Executivo (cargo único por excelência).

Todavia, com uma população que “faltou” em massa às urnas e estava tão pouco interessada em debates, será que apenas os ataques e discussões de idéias em debates, na imprensa e no horário político são suficientes para explicar a “mudança” tão drástica da cabeça de uma população, deixando seu novo salvador nas mãos da força da gravidade? Curiosamente, foram bem os eleitores “da velha dicotomia” que parecem ter sido esquecidos pelos institutos.

Claro que existe a hipótese de terem errado apenas por ouvirem demais eleitores da “nova força”, que depois migrou novamente para o malufismo do século XXI. Apenas erraram, com a coincidência de que sempre erram pro mesmo lado. Tudo se explica um pouquinho além da margem de erro, afinal.

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