Cinema

Em “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola”, Gentili ensina aos “millennials” que o brasileiro já foi mais livre

Nascido em 1979, Danilo Gentili viveu sua adolescência nos anos 1990, ou a primeira década a gozar de democracia plena em meio século. A despeito de qualquer polêmica, e à sua maneira, o humorista usa Como se Tornar o Pior Aluno da Escola para explicar aos millennials que a geração anterior gozava de muito mais liberdade. E que render-se à formula “do sistema” pode custar o futuro de toda uma garotada genial.

O filme de Fabrício Bittar adapta para o cinema o livro homônimo lançado pelo apresentador do The Noite em 2010, quando ainda era repórter do CQC. Tecnicamente, não deixa a desejar a produções estrangeiras, ao menos aos olhos e ouvidos mais leigos. Se faz feio, é na primeira meia hora, quando piadas não se encaixam com atuações, ou mesmo direção, e o público ignora algumas. Mas, assim que a primeira funciona, as demais aproveitam a oportunidade e bem.

É justo quando a “incorreção” fala mais alto. De longe, o enredo lembra os trabalhos mais famosos de John Hughes, quando estudantes confrontam a própria adolescência com as regras do sistema educacional. De perto, a pegada é muito mais ácida, algo comum lá fora, mas raro no Brasil de hoje. O clima é orgulhosamente de molecagem. De “turma do fundão” zombando o professor. E, principalmente, o diretor – em tela, interpretado por Carlos Villagrán, com direito a homenagem ao seu personagem mais famoso, aquele do Chaves.

Algumas das provocações mais sutis saem justamente da boca do convidado mais que especial: os principais bordões do “Quico” são falas inteiras de Paulo Freire, o pedagogo alçado a patrono da deficiente educação brasileira por intelectuais de feitos bem questionáveis. Inclusive, o mais repetido em tela: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.

Não há dúvida: a imprensa detestará. Certamente aproveitará para atacar ainda mais o roteirista, já tão perseguido por tantos debates sobre “limites do humor”. E não só porque estes foram esticados ao extremo – não falta graça com temas polêmicos, como homofobia, consumo de drogas, corrupção de menores e até pedofilia –, mas porque a imprensa se porta como motor do que está sendo combatido em comédia tão escrachada.

O filme chega aos cinemas num “dia da criança” de debates quentes. De um lado, brasileiros indignados com a participação de menores em exposições de arte com conteúdo adulto. De outro, a parte mais esquerdista da classe artística fingindo que o problema não era a participação infantil, mas uma pouco crível censura à nudez dos artistas – como se este não fosse o país em que tiram roupa em escola de samba há décadas.

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola cai de pára-quedas no meio do tiroteiro. Mas é preciso esclarecer antes que joguem sujo: se, nas mostras de arte, tentam jogar panos quentes nas suspeitas de pedofilia; no filme, o pedófilo é o vilão, numa mensagem clara para que não sejam tolerados pelos espectadores – que, pela censura, devem ter acima dos 14 anos.

O trabalho de Gentili é pelo menos o sétimo lançamento que os “reaças” emplacaram em 2017. E tem tudo para ser o mais bem sucedido, ainda que tenha pela frente dois grandes adversários: o premiado documentário sobre Olavo de Carvalho, e o filme sobre a Lava Jato, campeão de bilheteria entre as produções nacionais até a redação deste texto.

O logo da Ancine aparece em tela por ter sido acionada pela Warner e Paris Filmes para a distribuição. Mas Gentili abriu mão de qualquer cachê ao qual teria direito, uma vez que roteirizou, produziu, atuou e até mesmo assinou a arte de alguns cartazes. Tais valores foram utilizados no pagamento de outros contratados do projeto. “Eu ainda coloquei dinheiro do meu bolso para terminar“, disse o humorista, que prometeu seguir assim em suas próximas incursões cinematográficas.

Atualização – 16.10.2017

Inicialmente, o parágrafo acima informava equivocadamente que o filme não fazia uso de qualquer recurso público. O texto foi readequado para esclarecer que o não uso da verba pública foi uma iniciativa particular do próprio Gentili.

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Fonte: Como se Tornar o Pior Aluno da Escola

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