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Cotas para deputados: este direito não é para você.

Como todo projeto de poder, dividir os deputados por cotas tem uma lógica que não se importa nem um pouco com os negros.

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A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) propondo cotas raciais para deputados e vereadores de origem negra. Dois terços (mais de 66%) da Câmara e das Assembléias Legislativas serão ocupadas por auto-declarados negros e pardos. De acordo com o IBGE, este percentual na população seria de 50,7%.

Ao invés de votarmos em um deputado, votaríamos duas vezes, sendo uma delas para deputados independentes de sua cor de pele e outra exclusiva para certo grau de melanina a ser arbitrariamente definido (provavelmente no olhômetro). O autor é o deputado baiano Luiz Alberto. Talvez não seja chocante descobrir que ele é do PT.

A PEC estabelece que o percentual de vagas reservadas a negros nunca pode ser inferior a 20% do total de vagas, nem superior a 50%. As eleições em Brusque ou Schroeder (SC) prometem ser hilárias.

A proposta obviamente chama a atenção por sua estapafurdice. Até mesmo estrepitosos defensores das cotas preferiram um obsequioso silêncio diante da idéia de escolher legisladores por cor de pele.

Alguém poderia então perguntar por que parlamentares estão preocupados com a cor da pele dos seus colegas de bancada. Na verdade, a resposta é simples. Não foi apenas um projeto de lei francamente ignorante. A idéia é justamente não funcionar.

Há exemplos. Marilena Chaui, a “filósofa” que pauta a imprensa através do chamado dog whistle (aquela que fez todo mundo vomitar um ódio primevo à classe média há alguns meses), afirmou de maneira polida e abstrata que “democracia é criar direitos”. Ora, como mostrou Olavo de Carvalho em resposta à filósofa do PT, um direito é uma obrigação imposta a outra pessoa. Ao se “criar direitos”, cria-se novas obrigações e a exigência de novas forças estatais que possam tutelá-las. Obviamente, sempre que uma marilêndia propõe novos direitos, ela está mais interessada em fazer parte dessa força estatal até mesmo do que em receber esses direitos de mão beijada, tão carinhosamente nos ofertados por estes políticos tão bem intencionados.

O que políticos, intelectuais e burocratas com o pensamento de Marilena Chaui pretendem (podemos chamá-los de marilêndias) é criar “direitos”, como cotas, específicos para grupos, ainda que não façam o menor sentido. Assim, esses grupos podem aparecer como os únicos “defensores” dos negros (ou das mulheres, dos gays ou de alguma outra “minoria” escolhida a dedo, e em poucos anos substituída). É o que o PT faz hoje dizendo que é o único que se preocupa com os pobres, pois (falsamente) é o partido do Bolsa-Família.

sowellThomas Sowell, o maior economista vivo do mundo, certa vez foi criticado por se recusar a apoiar um candidato negro a prefeito. Na gestão anterior, a criminalidade havia baixado consideravelmente, enquanto o candidato negro, que já havia passado pelo cargo, não tivera resultados tão felizes. Sua resposta foi clara e direta: como alguém pode achar que menos negros mortos (eles é que são as principais vítimas da criminalidade, embora costume-se esquecer isso providencialmente) é algo menos importante do que o prefeito em si ser negro?

A criminalidade no Brasil segue padrões ainda mais violentos, e não é de se crer que os problemas dos negros possam ser resolvidos tão somente por alguém com a mesma cor de pele. É algo como acreditar que quem sabe melhor realizar uma ponte de safena é quem está em risco de enfarte iminente.

As vidas dos negros no Brasil são a principal preocupação de alguém preocupada com os negros (já somos o país que mais mata no mundo, com mais de 50 mil homicídios dolosos por ano). Eleger alguém com uma cor de pele negra, parda, branca, amarela, verde ou daquela cor que o Berlusconi tinge o cabelo faz alguma diferença?

Nada disso importa para quem está no poder. O que importa é aparecer como o “cuidador” da população, como um super-herói que precisa apenas do seu voto para continuar tendo super-poderes e ser a sua super-babá. A visão do Estado como bem estar ou serviço social é este agigantamento do poder do Estado sobre o indivíduo. O Estado-Babá vira o seu único defensor possível, e você vota sempre em quem “te protege”, mesmo que essa proteção só seja necessária porque o próprio Estado te deixa sem condição de sobrevivência sem ela.

Assim se criam leis exigindo uma quantidade mínima de frevo tocado em Recife, proibição da melancia em Rio Claro ou, quando seu plano pessoal para uma governança perfeita dá errado, proibir camisinhas e homossexuais para aumentar a taxa de natalidade (triste caso de Bocaiúva do Sul, no PR).

Ao invés de deixar o indivíduo agir livremente, escolher livremente e pensar livremente, o Estado-Babá tem um plano central, inventado por alguns poucos burocratas, uns cupinchas dos outros, que querem imputar a toda a sociedade, vista como não mais do que engrenagens e números, e não seres humanos.

Como foco no resultado não é o forte de legisladores e burocratas, o pensamento é apenas copiar o que foi eleitoralmente válido. Se alguém criou o primeiro projeto de cotas, logo vêem cotas para tudo. Cotas para mulheres em assembléias, cotas para negros no Itamaraty (alguém que está prestando Itamaraty é… digamos… pobre?), cotas para negros na Câmara de Deputados (pobres, pobres deputados). Se um faz, todos copiam, não importa quão de gerico seja a idéia.

Obviamente que algumas vêm com falhas que chegam a ser engraçadas, como a lei federal para crimes ambientais, que aumenta a punição “aos domingos e feriados”, como se bichos e árvores soubessem o que é isso. A ânsia de copiar às vezes esquece de revisar o que sai no Ctrl + V.

É a mania de “criar direitos”, um nome pomposo para tirar direitos da população, concentrar poder nas próprias mãos e devolver algumas migalhas (o que o Estado faz, enquanto o mercado faz o oposto). Ao se dividir as pessoas entre aquelas “protegidas” pelo Estado e aquelas que pagam a conta, invariavelmente se tem de culpar inimigos da concentração de poder. Os “reacionários”, os “conservadores”, tão mais afeitos a receitas testadas, e não a loucuras aleatórias de resultados catastróficos.

O resultado são os ânimos francamente acirrados, que ontem conviviam em paz. Como o blog oficial da campanha de de Dilma dizendo que seu concorrente “acha que nordestinos são bestas como paulistas”, o famoso vídeo das cotas dizendo que “esse papo não é para você”, e que negros não devem se comover com quem não passa no vestibular, se este alguém é branco, ou mesmo do chorrilho de postagens nas redes sociais afirmando que não se importam com PMs espancados.

Este desprezo por uma parcela da população que até ontem era amiga, companheira de viagem, é conseqüência direta e inescapável da “criação de direitos”. Ou seja, do Estado-Babá, aquele que nos toma tantos impostos e tanto quer nos obrigar a isso ou aquilo, defendido por tantas marilêndias prontas a pegar o Bolsa-Elogio ao político do momento. Eles preferem a lealdade à liberdade.

chaui nossa

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12 Comentários

12 Comments

  1. Bruno Sampaio

    6 de novembro de 2013 at 22:33

    Muito bom o texto. Ainda vamos conseguir implantar o ódio racial explícito aqui no Brasil, o PT trabalha nisso dia e noite. Não adianta o Demétrio Magnoli explicar que ter vergonha de ser racista é melhor do que ter orgulho, que a entrevistadora cruza os braços, fecha a cara e termina a entrevista visivelmente contrariada, pois esquerdistas não sabem perder discussões.
    Tem no youtube, em 3 partes.

  2. Vilson

    1 de novembro de 2013 at 07:38

    Ok. Então significa que, da mesma forma que ocorre com as cotas nas universidades, quem tiver melhor colocação vai ser preterido por alguém que não teve um desempenho tão bom quanto ele, só porque a “cor da pele” diz que ele tem que entrar? Ou seja, os mais votados não vão mais ser eleitos. Bem democrático…

  3. Daniel

    1 de novembro de 2013 at 00:57

    Sou homossexual e desprezo os contornos que o movimento LGBT ganhou atualmente… sempre lutei para que minha condição sexual não me definisse, para que eu pudesse ser julgado pelo quão útil para a sociedade eu sou. Desde pequeno queria ser médico, consegui realizar isso e posso dizer que meus pais e amigos tem orgulho de mim, porque sou mais do que apenas minha sexualidade… mas infelizmente o vitimismo impera nas minorias… excelente texto.

    • Miguel

      1 de novembro de 2013 at 22:04

      Parabéns, Caro Daniel! Sou hétero, sou casado, tenho dois filhos e quatro netos. Tenho muitos colegas homossexuais [masculinos e femininos, passivos e ativos] e, pelos quais, tenho a mais alta estima e consideração. E escrevo mais! Caso um dos meus descentes, filhos ou netos, venham assumir que são homossexuais, serão por mim muito mais amados que os demais em função de que tenho consciência do sofrimento que ele(s) ou ela(s) sofrerão em função da intolerância e ignorância em relação aos homossexuais.

  4. Thiago

    31 de outubro de 2013 at 17:49

    Se bem me lembro, os candidatos de um partido para a eleição já deveriam ser divididos em cotas de gênero, 30% de um e 70% do outro… (pensei aqui agora, será que os transgêneros e similares exigirão mudança nisso?)

    Ai vem a dúvida, como arrumar, digamos 30% de 50% de candidatos de tal gênero e cor? Será que as pessoas estão dispostas a participar do processo eleitoral como candidatas ou agora serão obrigadas a se candidatarem para cumprir as cotas?

    E essa de aumentar a punição pelo crime ser praticado aos domingos e feriados é devido a falta de fiscal, que não trabalham em tais dias. Assim, se pune mais por falta de fiscalização, que não está lá para comprovar o ato criminoso. É, não tem jeito, isso aqui é o país do jeitinho mesmo…

  5. Renan

    31 de outubro de 2013 at 17:31

    Como os coadjuvantes que traem o personagem principal da estória na esperança de ser ajudado pelo vilão, tornando-se os primeiros a serem descartados pelo mesmo após não terem mais função.

  6. Renan

    31 de outubro de 2013 at 17:29

    É o velho “dividir para conquistar”. As pessoas que não fazem parte da disneylândia estatal e ainda assim apoiam estas sandices são como os coadjuvantes que traem o per

  7. Lothar von Puttkamer

    31 de outubro de 2013 at 17:08

    Lá se vai nosso artigo V da constituição.

  8. Marcelo Paz

    31 de outubro de 2013 at 16:58

    Flávio,

    Concordo com seu texto, mas há uma correção a ser feita. Não são 2/3 das vagas, e sim 2/3 da proporção de negros/pardos na população. Segundo IBGE, são 50,7% que se declaram negros, logo 2/3 disso seriam 33,8%, que no caso da câmara federal, representariam 173 deputados “cotistas”. E pelo que entendi, a medida valeria para a Câmara Federal e para as assembleias legislativas estaduais. Não li nada sobre Câmara de Vereadores (como você citou Brusque ou Schroeder).
    Mas isso não tira a validade da sua crítica.

  9. João Vitor

    31 de outubro de 2013 at 16:45

    Desculpe a ignorância, mas essa política de Cotas não contraria o Art. 5°?

    A propósito, excelente texto!

  10. Dedé

    31 de outubro de 2013 at 16:37

    Concordo plenamente com tudo que foi escrito e acrescento ainda mais: Se o PP e o PMDB aprovarem esse projeto estarão dando um tiro no pé. Quais partidos são ligados ao movimento negro? PT, PCdoB, PSOL, PSTU, etc. Toda a esquerdalhada. Esses partidos querem conseguir na marra o que não conseguem democraticamente, aumentar a participação no congresso nacional. O PT engole o PMDB e o PP na base aliada, no dia que não precisarem mais dele, esse país vira uma ditadura bolivariana ou pior.

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