facebook
Blog

Editora progressista Boitempo é acusada de plágio e culpa “a direita”

A editora Boitempo é uma das principais divulgadoras de obras esquerdistas no Brasil, talvez a editora engajada mais mainstream. A Boitempo entrou no rol de alvos da excelente tradutora Denise Bottmann, autora do grande blog Não Gosto de Plágio, interessante para qualquer um que goste de livros, mesmo que não trabalhe no mercado editorial.

Em resposta ao esmerado e criticamente cuidadoso trabalho da tradutora, a Boitempo preferiu aplicar uma resposta tipicamente progressista: se defendeu supondo ser atacada por um furioso bloco “de direita”, reunindo assinaturas de vários intelectuais de esquerda para escudá-la.

Mais uma vez, ao invés de uma única linha de argumentação lógica contrária, a turma do progresso prefere o neanderthal meio de debate dialético esquerdista: atacar em bando. Informa o Jornal Opção:

No Brasil é assim: mesmo quando não tem culpa, a direita leva a fama. É o periquito da circunstância. A denúncia de que a Boitempo E­ditorial “plagiou” obras de outras editoras foi apresentada cuidadosamente, sem nenhum comentário político-ideológico, por uma das mais qualificadas tradutoras brasileiras, Denise Bottmann. A editora do indispensável blog Não Gosto de Plágio em nenhum momento fez análises políticas sobre a (falta de) qualidade ou sobre a ideologia dos livros publicados no Brasil pela casa gerida por Ivana Jinkings. Direita e esquerda não foram citadas. Depois, a “Folha de S. Paulo” fez uma re­portagem sobre o assunto, evidenciando os “plágios”, ou “coincidências”. O jornal paulistano também não fez qualquer restrição ideológica às publicações da Boitempo — muitas de elevado padrão intelectual e com traduções competentes.

Portanto, a direita não deve ser responsabilizada pela descoberta e repercussão dos plágios na internet e em jornais impressos. Mesmo assim, a Boitempo, para “esconder” o
“plágio” — o que não é mais possível e, se o caso for para a Justiça, vai ficar pior para a editora e para a suposta “tradutora” Isa Tavares —, convocou intelectuais brasileiros e estrangeiros para defendê-la de um suposto e insidioso ataque em bloco da direita patropi (tão invisível quanto o Curupira). Os intelectuais, sobretudo os de outros países, como Slavoj Žižek, certamente nem sabem direito o que está acontecendo e, mais tarde, certamente admitirão, como fez Roberto Romano, há vários anos, o equívoco. Eles não têm como avaliar o mérito da discussão. Primeiro, porque não leem em português. Segundo, porque a Boi­tempo não lhes deve ter passado in­formações adequadas para um julgamento justo. Por exemplo: a editora não deve ter enviado o seguinte esclarecimento divulgado para a imprensa brasileira: “Constatamos coincidências significativas entre as traduções dos livros ‘Considerações sobre o Marxismo Ocidental/Nas Trilhas do Materialismo Histórico’, de Perry Anderson, ‘A Teoria da Alienação em Marx’, de István Mészáros, e de capítulos de ‘La­crimae Rerum: Ensaios Sobre Ci­nema Moderno’, de Slavoj Žižek, publicados pela Boitempo, e traduções de outras editoras”. Alguns dos defensores da Boitempo, como Mészaros e Žižek, possivelmente não sabem que são “vítimas” da editora. Certamente não sabem que a Boitempo está recolhendo os exemplares cujas traduções são apontadas como “plágios”

O método de pensamento coletivista se parece com o aprendizado uma nova língua, desaprendendo a língua nativa. Esquece-se de conceitos como “certo” e “errado”, que são trocados por “favoráveis à esquerda” ou “desfavoráveis”. Com a língua aprendida, mesmo quando alguém tem seu trabalho roubado, ainda não se pensa no que é certo ou errado, e sim no que favorece “a causa” ou não. Pela curiosa “dialética histórica”, tal paroxismo partiu agora justamente da esquerda, que surgiu com uma teoria sobre trabalho sendo “roubado” pelos “exploradores”, teoria já refutada antes de Marx terminar seu magnum opus por Eugen von Böhm-Bawerk.

O “erro” irá enfraquecer uma editora de esquerda? Então, só pode ser ignorado. O mesmo que fez Claude Lefort, quando o esmerado crítico literário liberal José Guilherme Merquior provou por a+b que Marilena Chaui a plagiou em doses cavalares. Para não deixar sua pupila “perder” uma discussão com um direitista, Lefort saiu em defesa da ex-aluna, também sem argumento cabível algum (Chaui também praticou plágio sobre Julián Marías). Tudo pela causa – era a acusação favorita do NKVD para mandar um altíssimo percentual da população russa para a cadeia e os campos de trabalho forçados: atitudes “anti-soviéticas”. Acusação aceita, justamente, pelos defensores da URSS que eram levados à prisão.

O conselho editorial da Boitempo tem como coordenador Emir Sader, um cara que a gente nunca zoou aqui (desculpem). Segundo a editora, é um autor “de prestígio internacional” (perdoem), além de ser um “dos principais intelectuais brasileiros da atualidade” (a culpa não é só deles, convenhamos).

Emir Sader era cotejado para assumir a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa no início do governo Dilma. Acabou assinando uma “carta-renúncia” após se desentender com Ana de Hollanda, irmã de Chico, o Buarque. Reinaldo Azevedo fez uma análise divertidíssima do conteúdo e da forma da carta (falar em Emir Sader sem falar em gramática é como falar organizar encontro de blog governista sem pedir dinheiro público). O texto inteiro é recomendado, mas segue um trecho elucidativo:

Sader afirma que o projeto que havia elaborado para a fundação será desenvolvido “em outro espaço público”. Sempre o espaço público! Não sei se é anúncio de outra boquinha.

Encerra afirmando que continuará a lutar contra o “pensamento único”. Que valente! Pretendia fazê-lo com intelectuais arejados e diversos entre si como Slavoj Zizek, Marilena Chaui, Carlos Nelson Coutinho, Maria Rita Kehl, István Mészáros… Ele é tão pluralista que a maioria é publicada pela mesma editora, a Boitempo, que tem como coordenador editorial o “intelectual”… Emir Sader!

É como a esquerda sempre foi “democrática”, “popular” e “plural”, chamando de fascista todo mundo que discorda dela.  E como argumento racional, marxista, lúcido e crítico – praticamente uma verdade científica – sempre chama a turma toda para, apenas com sua autoridade auto-proclamada, pegar de galera quem discorda. Justificam assim o ódio contra seus adversários pela própria força do ódio.

A Boitempo também tem entre seus intelectuais de prestígio o grande Paulo Arantes, que gerou a melhor entrevista  já concedida por um filósofo em toda a História universal a Márcia Tiburi. Entre suas quilométricas respostas, encontramos o melhor trecho filosófico capaz de ser criado por um cérebro humano, fazendo com que a língua portuguesa pareça ter sido criada apenas para verbalizá-lo:

“Está claro, porém, que essa recapitulação sob o signo da emergência extrema, se nos habilita a articular a verdade da catástrofe sob a qual vivemos, nem por isso indica a rota de fuga que você me pede para traçar. Aliás, curiosa pergunta, pois nela convivem a demanda por intervenções “do contra”, que retardem a derrocada, com a procura de um refúgio onde se abrigar enquanto não se apresenta a macro instância superadora em condições de medir forças com o capital. O mais surpreendente nisso tudo é que esse mesmo capital onipotente também está em fuga. Para variar, está fugindo do seu outro; o trabalho vivo e seu correlato; o estorvo da produção material intercalada entre o dinheiro e ele mesmo; mais dinheiro. Daí o desvio pelo capital fictício, que vem a ser a dominância financeira no atual regime de acumulação, conjugado com a introdução da mercadoria-conhecimento no processo de valorização, e as formas de acumulação primtiva por apropriação direta nos espaços desregulamentados abertos pelas privatizações e deslocalizações. Essas providências, que se qualificam também de saídas de emergência buscadas pelo próprio capital – para não falar nas urgências sociais, alvos de procedimento de mera gestão compensatória -, não deixam de, entretanto, assinalar que os riscos temidos ainda continuam sendo esperados como sempre do mesmo lado, a fonte real da valorização, hoje pulverizada pelos quatro cantos do planeta.”

O fato é que, apesar das “saídas de emergência buscadas pelo próprio capital, pra não falar das urgências sociais”, aqui a acusação foi grave. Plágio é agressão trabalhista contra a galera de Letras que mais tem ojeriza pelos ideais sindicais, grevistas e pseudo-operários da esquerda: os tradutores, que não têm carga horária, não podem fazer greve, não têm como fazer piquete e precisam ler pra caramba.

O método de Denise Bottmann é incontestável. Compara uma tradução de uma editora com traduções anteriores. Se nota muitas similaridades, apenas umas 10 palavras diferentes por página em textos abstratos, complexos e com trocentas soluções diferentes possíveis para cada frase, apenas lembra que há algo estranho ali (dificilmente traduções sérias distintas parecem ter muito mais do que frases curtíssimas em comum). Geralmente, as editoras que praticam tal forma de plágio assinam as traduções com nomes obscuros de tradutores de quem nunca ninguém ouviu falar (ainda mais para obras tão especializadas). Uma conhecida editora de bolso brasileira que, ao invés de um Millôr Fernandes ou um Marcelo Backes, traduz livros com nomes que nunca ninguém ouviu falar é especialista no assunto.

A Boitempo acusar “a direita” apenas revela o velho modus operandi do progressismo de resultados. A editora resolveu fazer uma auditoria e soltou um comunicado quase admitindo o erro – mas apenas após a pressão sofrida por uma tradutora séria e competente, respeitada por todos num mercado em que os profissionais, incapazes de fazer greve ou piquete, sofrem com freqüência nas mãos de picaretas. E isso, claro, após a doidivanas acusação de galera contra “a direita”, em um texto que não se falou de política.

É o tipo de notícia que “não sai na mídia” esquerdista, tão preocupada em se considerar superior por acreditar cegamente em… bom, naquilo ali que o Paulo Arantes escreveu. Nenhuma linha de crítica dos companheiros, nenhuma reclamação contra a “exploração do trabalhador” por uma editora lucrando com o trabalho alheio sem lhe garantir nem salário (mais-valia in extremis).

Aguardemos o pedido de desculpas e uma compensaçãozinha pelo trabalho alheio explorado.

Nunca inseriu um código de desconto no Cabify? Experimente usar o código "IMPLICANTE" e ganhe 100% OFF (com desconto máximo de R$ 10) em até 2 corridas. Após ativado, o crédito terá validade de 30 dias.

Clique para comentar

Deixe um comentário

Mais Lidas

To Top