Marlos Ápyus

A imprensa pintou de neonazista um imigrante gay filho de mãe judia

Se hoje, com tanta tecnologia e formas de desmentir a imprensa, não dá para confiar no trabalho dela, por que eu devo confiar nos relatos de um tempo em que essa fiscalização inexistia?

Milo Yiannopoulos é um jornalista inteligentíssimo. E isso ninguém me contou, eu concluí de meia dúzia de entrevistas e algumas palestras. A boca dele parece uma metralhadora de argumentos, as respostas costumam se iniciar antes mesmo da conclusão da pergunta. Ele é o tipo de militante que desarma a ingenuidade de muito repórter.

Dá para dizer mais: são argumentos corajosos, fortes e tantas vezes bem humorados, algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Aos que preferem outros tipos de rótulos, dá para dizer: Yiannopoulos é britânico, de pai grego e mãe judia, cristão, imigrante – reside e trabalha nos Estados Unidos – e gay assumido. Desbocado, quando xingado de racista, dá uma resposta impublicável, mas que revela a preferência dele por sexo oral nos órgãos mais avantajados que conheceu.

É o tipo de rosto que estamparia as camisetas da juventude brasileira se não fosse por um motivo: o principal alvo das críticas do ativista é a esquerda. O que faz dele, nos termos mais populares do Brasil, um reacionário – ou “reaça”.

Na primeira noite de fevereiro de 2017, Milo preparava-se para iniciar uma palestra em Berkeley, quando a esquerda americana invadiu a universidade com uma violência já conhecida no Brasil. Estilhaçaram vitrines, derrubaram postes, picharam muros, incendiaram carros, agrediram mulheres, chutaram no chão fãs do jornalista, e conseguiram o que queriam: censuraram o militante pró-Trump.

As redes sociais acompanharam tudo em tempo real durante a madrugada brasileira. Não faltaram fotos, relatos, vídeos e até transmissões ao vivo. O jornalismo nacional, contudo, só deu as caras com o atraso de quem tem poucos plantonistas trabalhando no período. E três notícias das mais compartilhadas diziam:

  • Estadão
    Protesto contra jornalista de extrema direita acaba em violência na Califórnia
  • UOL/Folha
    Contra palestra de extrema direita: Campus de universidade dos EUA é fechado após protesto violento
  • G1
    Ato ultradireitista pró-Trump nos EUA é cancelado após protestos

Extrema direita, extrema direita e ultradireitista.

São termos no Brasil associados ao nazismo, ainda que “nazismo” seja a abreviação de “Nacional Socialismo”, e “socialismo” ser inegavelmente uma bandeira esquerdista. Mas essa é outra discussão.

Contudo, enquanto a esquerda vandalizava, agredia e censurava, a direita foi para a manchete como “extrema”. E o jornalismo brasileiro passou um verniz neonazista em um imigrante gay filho de mãe judia. Mais do que isso, a um companheiro de profissão que tentou fazer uso da mesma liberdade de expressão e foi covardemente calado – ao menos naquele endereço.

Não é um caso isolado. Eu já estou há alguns anos separando notícias deliberadamente deturpadas. Que registram para a história uma versão que tantas vezes contraria frontalmente a realidade. Não se trata de um fenômeno mensal, quinzenal ou semanal. É diário, chega a se repetir em intervalo de poucas horas. Tantas vezes são desmentidos pela própria lógica. Outras, por imagens, vídeos, depoimentos ou mesmo o passar do tempo.

Apenas para citar alguns exemplos mais emblemáticos, há a história de que apenas 36 deputados foram eleitos com votos próprios, que Guido Mantega foi tirado da sala de cirurgia da esposa, que Hillary Clinton tinha 99% de chance de vitória, que Fernando Haddad caminhava para o segundo turno, que uma virada na votação do impeachment estava por salvar Dilma Rousseff, que a Lava Jato disse não ter provas, mas convicções, contra lula, que Donald Trump teria pago prostitutas para urinarem na cama de Barack Obama, que o ENEM 2016 seria cancelado, que músicas foram banidas do carnaval carioca de 2017, que caminhões cometeram atos terroristas na Europa, que a eleição de Donald Trump foi obra de notícias falsas produzidas em uma pequena cidade no leste europeu, que oito bilionários somariam riqueza maior que a de metade da população do planeta, que turistas em Veneza negaram ajuda a um refugiado africano, ou que muçulmanos foram banidos dos Estados Unidos.

Tudo isso, creiam, quando não é mentira descarada, é obra de estudos enviesados ou manipulações grosseiras sempre com o mesmo objetivo político: emplacar narrativas que direta ou indiretamente favoreçam discursos esquerdistas.

Claro, ainda há jornalistas sérios. Mas são tão raros que eu, que acompanho jornais às centenas, sete dias por semana, manhã, tarde, noite e madrugada, posso afirmar: não soa injusto dizer que os veículos de imprensa se tornaram zumbis parasitados por militantes cuja missão é transformar panfletos ideológicos em fatos.
Todavia, há uma questão igualmente importante: quando isso começou?

Eu passei a perceber há apenas alguns anos, quando resolvi transformar em fonte de renda a leitura do noticiário. Mas, ao mergulhar em alguns acervos, noto que a prática é antiga. Para ficar em apenas um exemplo bem documentado: a capa da Veja que derrubou Ibsen Pinheiro – o presidente da Câmara durante o impeachment de Collor – foi obra da influência de José Dirceu junto aos jornalistas envolvidos. Sim, já nos anos 1990, quando o petismo ainda estava longe de presidir o país, um cara, que hoje continua na cadeia por uma considerável sequência de condenações, era capaz de emplacar capas na revista mais lida do Brasil. Justo a revista cantada pelo partido dele como a maior inimiga da sigla.

Enfim… Quando começou? Não sei. E isso me faz hoje duvidar de tudo quanto é ponto pacífico na história nacional.

  • Tancredo Neves de fato morreu de uma grave doença que o acometeu dias antes de assumir a Presidência da República? Não sei.
  • Ulysses Guimarães morreu mesmo por causa do mau tempo no dia em que entrou naquele helicóptero? Não sei.
  • Lula foi mesmo injustiçado pela edição do debate com Collor no Jornal Nacional? Não sei.
  • Era a população ou grupos organizados indo às ruas pedir voto direto nos anos 1980? Não sei.
  • Getúlio Vargas realmente se matou? Eu não sei.

Só sei que nada sei.

Afinal, se hoje, com tanta tecnologia e formas de desmentir a imprensa, não dá para confiar no trabalho dela, por que eu devo confiar nos relatos de um tempo em que essa fiscalização inexistia?

Sim, é desesperador. E revela a urgência de que todos estes fatos sejam revisitados, informações sejam cruzadas e a história seja reescrita, confirmando ou negando o que foi publicado.

Pelo bem da verdade. Pelo bem do país.

Marlos Ápyus é comunicólogo.

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