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Mais sobre o “sopão do Kassab” – tome MUITO cuidado com manchetes

por Flavio Morgenstern

A notícia que moveu os antenados de 140 caracteres ontem foi a suposta “proibição” pela prefeitura de São Paulo da distribuição do famoso “sopão” aos moradores de rua. Conforme mostramos aqui, tudo não passou de uma manchete um pouco agressiva sobre uma declaração solta do Secretário de Segurança Urbana – e não sobre qualquer ação da prefeitura.

O mesmo foi feito quando uma manchete afirmava que o metrô de Higienópolis foi cancelado após abaixo-assinado de moradores. Ora, ao se ler a matéria, descobria-se que houve um abaixo-assinado com assinatura de menos de 1% dos moradores da região sobre o metrô e, no ano seguinte, o metrô, por questões técnicas, desistiu do projeto inicial. O “após” do título era meramente cronológico, mas por uma polissemia que ninguém se preocupou em pesquisar, quase todos que leram a manchete, e não a notícia, acreditam piamente até hoje que indicava uma relação causal.

Em Higienópolis realizaram o aclamado “churrascão da gente diferenciada”. Com a modinha lançada, agora tentam organizar no Facebook o “Sopaço na Casa do Kassab”, distribuindo sopa em frente à casa do prefeito, atrás do Shopping Iguatemi. Desnecessário. Como esclarecemos aqui:

A própria prefeitura divulgou uma nota em que explica que não há proibição nenhuma de distribuição de nada, nem de esmola, nem de caridade. Apenas um repórter flagrou um secretário dando uma declaração extra-oficial em um encontro (e sequer quis comentar a qual punição se referia) e tascou a manchete: “Prefeitura quer proibir sopão grátis no centro” – mirando justamente os preconceitos de quem pensa antes em achar culpados do que em pesquisar o fato (ou seja, ler a própria reportagem).

No desespero para defender uma premissa totalitária que tente explicar completamente a realidade (como “o governo não esquerdista é ruim” ou “o Estado está tolhendo a liberdade de caridade”), esqueceram-se de que toda a discussão diz respeito apenas ao local onde a sopa será distribuída, e a única ação concreta da prefeitura foi um… convite. É difícil crer que os panfletos que pulularam no Facebook e Twitter afirmando que São Paulo está à beira do fascismo e/ou higienismo tenham sido causados por algo além da preguiça que tira conclusões de manchetes de frase simples, sem procurar entender o que foi que aconteceu.

A despeito de já ser uma notícia requentada (já havia saído na Época São Paulo em 2009 algo parecido, sem uma seqüela de queixume em lugar algum), o problema de ler uma frase e inventar o restante da “notícia” de cunho próprio, confundindo a invenção com a realidade dos fatos, não pára por aí.

Uma ONG ouvida com críticas à ação da prefeitura foi a Anjos da Noite. “Amar o próximo é crime agora?”, questionou o presidente, Kaká Ferreira, de 59 anos. Ou seja, Ferreira acredita que o convite da prefeitura está errado (ainda mais com a “ameaça de processo” à ONG de um Secretário, mesmo que negada pela prefeitura), pois crê que é melhor dar comida ao morador de rua no meio da rua mesmo (mesmo com os dejetos por ali). É contra que a prefeitura crie medidas que levem o morador de rua a procurar abrigos.

Em 2002, entretanto, na gestão petista de Marta Suplicy, a prefeitura buscou trocar a entrega de cobertores aos moradores de rua que se recusam a ir a albergues por um cartão numerado, para que, “caso mudem de idéia”, consigam acesso facilitado aos albergues municipais. A manchete na Folha era mais singela: “Prefeitura de São Paulo troca cobertor por cartão”. Nada histriônico como “Prefeitura proíbe cobertores” (como fizeram com os “bancos higienistas anti-mendigos” da praça da República restaurada na gestão Kassab, por terem braços). Dizia:

Acompanhada da secretária de Assistência Social, Aldaíza Sposati, Marta abordou sete pessoas. Mas só Sebastião Domingo Filho, 50, aceitou o convite. Segundo a assistente Maria Antonieta Moraes, 47, Domingo Filho já havia sido recolhido das ruas mais de quatro vezes e já tinha recebido o cartão. “Eles perdem.”

Marta disse que o cartão é para facilitar a ida ao albergue. “Tem uma parcela que prefere ficar na rua. Fazemos o possível para diminuir [essa parcela].” Segundo a prefeitura, 70% aceitam o convite.

Uma das mulheres abordadas por Marta calçava chinelos e estava sem agasalho, embora a temperatura mínima registrada ontem tenha chegado a 11,7C. Aparentemente com frio, ela recusou o convite: “Não fale em abrigo.” Já Carlos Antônio Pereira mostrou os punhos para a prefeita, como se ela fosse algemá-lo. “Albergue? Prefiro ir para a detenção.”

Mais:

O presidente da ONG Anjos da Noite, Antenor Ferreira, 49, apóia a mudança no atendimento. “O cobertor, o morador perde; com o cartão, ele fica cadastrado.”

Não verifiquei se Antenor Ferreira (49 em 2002) e Kaká Ferreira (59 em 2012) são a mesma pessoa, mas é provável. Não deixa de ser notável, todavia, que em um momento a mesmíssima ONG apoie uma medida que “force” o morador de rua a procurar um abrigo para escapar do frio, e em outro momento, em que a basicamente a única diferença é o local onde a sopa é distribuída, deixe de apoiar a medida. Como informou a reportagem de quarta no Jornal da Tarde:

Segundo Ferreira, muitos moradores de rua não querem ir para os espaços da Prefeitura. “Nesse caso eles ficam sem comer? Uma coisa não anula a outra. Podemos oferecer a comida para quem está nas tendas, mas queremos atender os moradores que não vão para os albergues à noite”, afirmou Ferreira. Segundo ele, a entidade ainda não recebeu o convite da Prefeitura.

Estes trechos elencados mostram que basicamente todo o problema resume-se ao fato de que moradores de rua não querem ir aos abrigos. Ora, nos abrigos drogas não são permitidas, há resistência com assistentes sociais tentando dar uma nova vida a essas pessoas, há algumas “obrigações” que as ruas não têm, não há a possibilidade de ganhar esmolas para conseguir drogas além da comida. Há uma negação muito forte por parte dos moradores de rua, e é apenas essa recusa que está em discussão. Porém, um entendimento freqüente entre psiquiatras, assistentes sociais e outras pessoas que trabalham com isso é que uma coisa anula, sim, a outra: sem “forçar” o morador a buscar comida em um albergue, ele prefere as ruas. Como mostrado aqui, as vagas dos abrigos da prefeitura nunca são inteiramente preenchidas, pois a “concorrência” com as ruas é muito forte.

Mais uma vez, vê-se intenções louváveis, mas que não calculam todas as conseqüências acidentais. Ora, distribuir sopa para viciados sem que eles se vejam na necessidade de sair das ruas por umas horas que sejam para procurar abrigo é, na prática, mantê-los nas ruas e na miséria. Infelizmente, quando sabemos que um percentual altíssimo dessas pessoas sofre de doenças mentais, vício em drogas e vivem mesmo em condições subumanas que lhes impede até algumas doses mais básicas de sanidade, deve-se fazer algo para forçar essas pessoas a saírem dessa situação – e isso nada tem a ver com higienismo.

Não é “socialmente responsável” ou “humanitário” manter um miserável na miséria. Não há sentido em lutar pela “liberdade” de alguém perder a consciência sobre si próprio. Não há nada de errado em um esforço conjunto para estimular que alguém na miséria busque ajuda para sair de sua situação (e também evitar estímulos negativos, como manter sua subsistência onde está). Infelizmente, uma excelente boa ação, como a distribuição de sopa no meio da rua, pode, sim, ser menos vantajosa para o necessitado – assim como dar dinheiro a um alcoólatra dificilmente pode ser considerado uma ação adequada, apesar da boa intenção.

Dizia a reportagem da Folha de 2002:

Evilásio Farias, que era secretário de Assistência Social no inverno de 2001, quando 500 cobertores foram distribuídos, concorda. “Pode ser uma forma de forçar o morador a aceitar os albergues.” (…)

O Acolher envolve 25 albergues e 30 casas de convivência, onde, além do abrigo, o morador recebe alimentação, banho e atividades profissionalizantes. Segundo dados de 2000, há 8.200 pessoas “em situação de rua” na cidade.

Em 2009 foram criadas as tendas, que pretendem centralizar o atendimento aos moradores de rua. Ao contrário do que foi dito, não são geridas apenas pela prefeitura: são um esforço conjunto, com ONGs com experiência no atendimento da população necessitada, como a Aliança de Misericórdia. Ao contrário do que foi afirmado também, não ficam “na periferia”. Ficam justamente em lugares com grande fluxo de moradores de rua, como o parque D. Pedro – ali mesmo, no centro. A situação, é claro, é de tensão e há muito o que fazer, conforme reportagem da Folha de janeiro desse ano, Compará-la à praça da Sé na madrugada, entretanto, é covardia:

Morador de rua desde que se viciou em cocaína e álcool, Cléber Luiz dos Santos, 24, dorme no largo São Francisco e é conhecido por ser o melhor jogador do campinho. “Aqui pelo menos dá para tomar banho, ficar sossegado.”

 Apesar de todo o “churrascão”, os memes chamando o prefeito Kassab de fascista, o medo da “higienização” e a grita contra a “criminalização da caridade”, vê-se, lendo o que aconteceu, que a questão em discussão não tem absolutamente nada a ver com o que se afirma por aí. Mais uma vez, é preciso tomar cuidado ao ler títulos de manchetes – mesmo verdadeiros, podem ser enganadores. Urge tirar conclusões apenas depois de entender os fatos – e agora, a discussão é apenas se é válido dar comida no meio da rua ou estimular os moradores de rua a buscarem comida nas tendas (quem já passou fome por um dia dificilmente pode acreditar que os moradores de rua não irão buscá-las depois de dois).

A fome é o desespero. Moradores de rua têm um senso de propriedade e justiça que vai além do humanamente concebível: não consigo afirmar que não roubaria, assaltaria e mataria por um prato de comida depois de 3 dias de fome. Mendigos sofrem coisas piores e, em sua maioria, são incapazes de cometer um crime. O mendigo é o bastião moral do mundo.

O problema é reconhecido por Reginaldo Ferreira, da mesma Anjos da Noite, em entrevista a Marcelo Duarte no Estadão ontem:

Boa parte dos moradores de rua não quer procurar as tendas da Prefeitura, quer evitar este tipo de lugar. Por isto, acho que não atenderemos tantas pessoas como antes.

Apesar das boas intenções de alimentar quem não busca as tendas, é difícil justificar a manutenção de miseráveis na miséria pela aversão a uma atitude que os faça, afinal, saírem da miséria – ainda que com um pouco de dor. Como essa mesma ONG achou vantajoso quando a prefeitura da gestão Marta parou de distribuir cobertores.

(agradecimentos à @Red_ pela ajuda com a pesquisa de reportagens)

 

Flavio Morgenstern é redator e tradutor. Acha que o Kassab deveria proibir memes com criancinhas na África. No Twitter, @flaviomorgen

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4 Comentários

4 Comments

  1. Conservatore

    2 de julho de 2012 at 14h57

    Para a esquerda, caridade só vale se for feita pelos companheiros. Pelos outros, é facismo.

  2. Lolla

    30 de junho de 2012 at 0h21

    O Mohamed Yunus no livro “O Banqueiro dos Pobres” fala que a gente dá esmola para se sentir bem, para achar que fez algo pelo miserável, quando, na verdade, não ajudou em nada a mudar a situação da pessoa.

  3. katlyn

    29 de junho de 2012 at 19h07

    Essa e outra reportagem sobre o tema do sopão foi bastante esclarecedora. Para ver como nós temos que saber interpretar uma notícia, e os jornalistas, a serem mais cuidadosos nas chamadas das notícias.

  4. Paula Rosiska

    29 de junho de 2012 at 17h08

    Ainda me lembro desse acontecimento na gestão Marta. Perguntaram-lhe se os moradores teriam abrigos para o frio ou sofreriam nas ruas. Ela respondeu: “Sim, se eles quiserem sair das ruas, haverá abrigo com cobertores e refeições para todos”. Foi um bafafá, aquele ranço. Os ~humanistas~ de sempre a chamaram de dondoca, madame alienada e loira burra, pois “como é que alguém prefere ficar nas ruas”? Aí me pergunto se os críticos dos dois prefeitos, neste caso, são cínicos ou burros mesmo.

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