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Povo, povão, classe-média e partidos políticos: excelente artigo de José de Souza Martins

Neste último domingo, o Estadão publicou ótimo artigo de José de Souza Martins, no qual analisa as recentes propostas de PSDB e PT acerca da classe-média, não apenas diferenciando as movimentações mas também tratando do atual processo por que passam os tucanos. Vai na íntegra, grifos nossos:

Opção pelo emergente – Sugestão de Lula ao PT de atrair a nova classe média, como fez FHC ao PSDB, traz à tona a diferença entre povo e povão – Aécio Neves pisou na bola do PSDB, desperdiçando numa contravenção de trânsito o suposto capital político acumulado em cima do muro na recente campanha presidencial. Penalizou o partido inteiro no ato de difícil explicação, porque tocou diretamente nos sentimentos da maioria, que se ressente quando em face de atos dos que se acham mais iguais e acima das obrigações da lei e dos bons costumes. O mais inocente dos políticos dificilmente se recupera, na escala necessária, de deslizes como esse. Não foi melhor para o PSDB a debandada dos vereadores paulistanos que o deixaram nestes dias. Em princípio, não parece nada, dada a pouca relevância que o mandato municipal, seja do PSDB, seja do PT, tem tido numa conjuntura política dominada por concepções do grande poder. Os vereadores escaparam para o terreno mais seguro, que lhes é próprio, o do pequeno poder local na lógica de província. A linha ideológica do PT de governo, oposta à do que foi o PT de oposição, vem se revelando gradativamente. Nessa semana, ganhou uma confirmação na posição de Lula, em reunião fechada de seu partido, de que o PT deve buscar alianças à direita, entre os órfãos do malufismo e do quercismo, e deve tentar atrair a “nova classe média”. Uma confirmação de que Fernando Henrique Cardoso, em seu artigo sobre O Papel da Oposição, da semana anterior, acertara na mosca ao apontar um campo de possibilidades para o PSDB e, portanto, o calcanhar de aquiles do PT. Lula repõe, assim, na agenda do País, o denso texto de FHC e as ponderações ali contidas, no sentido de que o PSDB deixe de lado a meta de disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais, ou o povão. E se dedique à compreensão da nova classe média, a do Brasil que está mudando, e ao diálogo com ela, suas ideias e suas demandas. Na verdade, o artigo do ex-presidente vai muito além da crítica à ação política de conquista do chamado “povão”. Até porque, fica ali claro, “povão” é uma concepção depreciativa da categoria política “povo”. Que Lula não tenha compreendido a distinção subjacente às duas palavras de sentido oposto já é munição para o PSDB enfrentá-lo e enfrentar o PT. “Povo” é categoria relativa ao cidadão, ao sujeito democrático de direito, enquanto “povão”, no subjacente populismo manipulador, é categoria antagônica ao cidadão, porque massa de manobra da demagogia de palanque. É justamente no território dessa diferença que incide, mais do que a opinião de FHC no texto mencionado, a doutrina política que ele encerra e a teoria política que contém. O documento sublinha a centralidade que a vida cotidiana vem crescentemente tendo na política contemporânea e a reformulação do fazer política que ela implica. O terreno da prosperidade ideológica do PT tem sido justamente o do cotidiano e suas carências, cuja rentabilidade eleitoral foi multiplicada pelo acesso ao poder e aos recursos extensamente utilizados para atrelar a sociedade ao Estado e ao partido. Para isso, o PT no governo teve que abdicar progressivamente dos valores de referência que lhe haviam aberto e aplainado o caminho do poder. A diferença na proposição de FHC é que destaca a importância de incorporar o cotidiano, suas necessidades sociais e sua consciência social peculiar, a valores, fazer a articulação que remeta à dimensão histórica do projeto político, isto é, a dimensão transformadora. Portanto, uma trajetória oposta à do PT. Enquanto o PT abre mão dos valores contidos no marco propriamente histórico de sua ascensão política, o PSDB deveria situar sua ação política no marco do que é histórico e dos valores, do que é historicamente possível e necessário, do próprio ponto de vista da consciência popular. O partido como ponte entre a crua realidade das carências do dia a dia e os valores supracotidianos que dão sentido aos anseios sociais de mudança. Enquanto o PT se deixa puxar para baixo nas concessões sem alcance histórico da consciência popular, FHC propõe que o PSDB puxe o povo para cima, para o elenco dos valores que afirmam a realidade e a possibilidade da mudança social e política. Nessa perspectiva, o cotidiano de referência do PT é o cotidiano da mera reprodução social, o da mera repetição, o das carências mínimas da sociedade. Enquanto o que FHC propõe ao PSDB é administrar a tensão histórica entre a repetição e a transformação, entre a permanência e a mudança, superando as carências mínimas em favor das possibilidades máximas do momento histórico. Pode-se dizer que enquanto a orientação do PT no poder se configurou como esquerdista, isto é, ritual e ideológica, a que desafia o PSDB é a propriamente social-democrática, isto é de esquerda, histórica e transformadora na circunstância atual. No artigo de Cardoso, há um retorno à dialética, ou melhor, à sua explicitação, numa proposta de ruptura, e superação, com as tendências do repetitivo na política brasileira. A questão é saber se o PSDB tem condições de superar suas divisões para superar-se.

Na mosca.

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5 Comentários

5 Comments

  1. Mauricio C. Pinheiro

    8 de julho de 2011 at 9h41

    A verdade verdadeira que é uma só, é que nunca neste país se viu tanta corrupção dentro do governo.
    Será que é porque se uniram os ignorantes petistas e os safados politicos do PMDB que viram na fragilidade
    mental e moral desse grupo que nos governa e sua furia por enriquecer de qualquer jeito, além do descontrole e concordancia sobre práticas criminosas, viu a possibilidade de aprontar todas que estavam contidas quando o lider era o PSDB. É o que se vê !! Se antes 1 dava um desfalque numa merenda escolar agora todos dão.
    O exemplo não é do lado da dignidade, da honestidade, da ética. É do antonimo !!! O Lula que nunca soube de
    nada fez escola. Qualquer escandalo, ninguém sabe de nada. Se um roubou todos podem, pela teoria do
    absurdo e camelô todos estão nos oubando. O BNDES virou uma fonte de renda para empresários inescrupu
    losos. A Dilma só foi eleita porque votaram nela os beneficiários do Bolsa Esmola e os que não tinham cré
    dito e obtiveram para comprar coisas que honestamente não poderiam comprar nem pagar. O Lula tinha “Popularidade” maior do que a de Jesus Cristo, de 98% das pesquisas compradas (76% de Ótimo/bom +
    22% de Regular (ignorados) e a Dilma também tem. O Pré-sal não existe porque precisariamos de US$ 600
    bilhões para talvez termos petróleo a 6.000 metros de profundidade daqui a 15 a 25 anos se descobrirem uma tecnologia que ainda não existe para tirar dessa o óleo dessa profundidade e a 200 quilomteros da costa. e nenhum trouxa vai por aqui essa grana e ficar sob o comando do cabidão petrolifero da Petrobras.
    Até lá já não será mais preciso petróleo pois haverá combustiveis de outras fontes. E não vai dar para cobrir
    os custos incorridos. Já tem veículos eletricos totais. Foi exibido um da Nissan em SP mês passado.
    O governo fica dando cano em aumento para aposentados porque não tem grana. Onde vai arrumar US$ 1
    bi por sonda e poço ? São necessa´rios de 1 mil a 2 mil poços para delimitar jazidas do pré-sal e verificar
    se são economicamente viáveis. Ano passado a Petrobras disse que estava extraindo petróleo do pré-sal.
    Para enganar o tontão do povão ignara. A midia que é mal preparada aceitou e ajudou a mentir.
    Cadê a Abreu Lima (nome de um revolucionario colombiano !!) ?? Cadê a Transposição ?? Cadê o resto
    das mentiras ??? Continuam após 8 anos de governo (incluindo nele a Dilma o que todo mundo esquece ou é pago para esquecer) dizendo “vamos fazer”e nenhum “fizemos”, “terminamos”. A cada escandalo ou
    denuncia lá vem um dêles “vamos fazer isso”, “vamos fazer aquilo”. Um festival de mentiras e descaramento. Enquantos os Jucás da vida, os Sarneys do “boi barrica”, os Pallocis que sózinho fatura
    mais em 2 meses que a maior empresa de consultoria chefiada pelo Maylson com 70 funcionários espe cializados não consegue, continuam deitando e rolando sem controle a troco de apoio aos ignorantes Lula
    e asseclas. (Um chefe ignorante só pode ter em baixo ignorantes piores.) A divida interna está em 1 tri e
    700 bi e ninguém sabe onde vai parar. A inflação está 45% acima da meta (2 pontos acima de 4.5%) e ninguem percebe. Com essa ignorancia toda dominando o país o frangão besta do Brasil que apanha até
    da galinha (Argent.) vai aos trancos e barrancos sendo entregue à China (a última industria é a de lampa
    das) Daqui a pouco o idioma oficial será o Mandarim. E continua acelerado a 5% (mais parece uma Maria
    Fumaça) se comparando a Trinidad Tobago, Bengala, e outros paísecos de 1/2 duzia de habitantes. Chega.
    Tem mais, muito mais, mas nem precisa enumerar. Vide o escandalo dos Transportes e o esquecido Palloci. E a nossa grana ??? Que vem dos 6 meses que trabalhamos só para pagar os pelo menos 34%
    de impostos. E tem idiota ainda comparando com o governo do FHC !!!! Vai ficar a vida inteira se sobrar
    país !!!!

  2. Rafael

    27 de Abril de 2011 at 13h40

    A patrulha petralha está querendo se impor em blogs que buscam a verdade. A diferença é que aqui tudo é publicado, já nos outros…. Continuaremos n%C

  3. alexandre

    27 de Abril de 2011 at 6h16

    Esse “desastre na política econômica” está melhor do que em 2002 , último ano do FHC , quando o pib ficou em 2% e a inflação em 12%. Se a situação de hoje é motivos de fortes críticas por você, imagine como vc estava em 2002 com os indicadores do PIB e inflação !

    (Gravz: Eu estava exatamente descontente, embora parte do ambiente hostil de 2002 se devesse ao ‘risco PT’ – depois, de fato, não confirmado por conta da política econômica acertadamente continuísta. E minha posição é objetiva, não partidária. Você, ao contrário, não gostava de índices de outrora, mas ao mesmo tempo, agora, não aceita que falem mal do governo petista, que além de incompetente é mentiroso)

  4. Gustavo Noronha Silva

    26 de Abril de 2011 at 18h40

    Na mosca! Não consigo deixar de achar que há uma torcida contra quando se fala em Aécio Neves aqui no Implicante e nesse artigo (e possivelmente em outras rodas). Concordo com o que foi posto no artigo do Implicante sobre o incidente com Aécio, mas acreditar que isso tenha jogado fora o “capital político acumulado” me parece exagerado. Se assim fosse, Lula não estaria em condição alguma de conseguir adesões na nova classe média com todas as mordomias que deu a si e a família – incluindo aí passaportes especiais, férias pós-mandato em instalações do exército e outras. Uma grande fração da nova classe média provavelmente sequer sabe desses acontecidos e logo, logo vai esquecê-los. Não está muito cedo para declarar desperdício de capital político?

    Tirando isso, muito bom. Tenho ficado muito feliz de ver o PSDB recuperando seus feitos, sua história e revendo sua linha de atuação, não fugindo da raia, não fugindo das discussões a respeito das políticas que empreendeu e fazendo discussão com algo mais propositivo, voltando a ser uma promessa de transformação, melhoria e não de manutenção e continuidade como ensaiou ser na campanha passada. Espero que continue nesse caminho, porque um partido sério de oposição é algo muito necessário nesse momento.

  5. alexandre

    26 de Abril de 2011 at 6h47

    Vale tudo para justificar o injustificável : o artigo do fhc. O artigo foi tão desastroso do ponto de vista político que nem a oposição endossou. O termo “povão” para FHC é ” massas carentes e pouco informadas”. E ele propõe claramente que os tucanos não disputem essa parcela da população com os petistas por achar que essa classe é manipulada com recursos do governo. Essa classe recebe o bolsa-família, Mas os tucanos não vivem dizendo quem foram eles que inventaram o bolsa-família ? Agora o bolsa-família virou meio de manipulação do governo petista para controlar o “povão” ? e qual o erro de fazer política social para uma classe carente e pouco informada ( o povão segundo FHC) ? isso é manipulação ? Esse artigo esclarece a diferença de popularidade entre os dois ex-presidentes. O “povão” pode ser carente e pouco informado mas sabe quantas vezes ele come ao dia.

    (Gravz: O artigo é ótimo, aqui ninguém nunca xingou. Se a OPOSICINHA não falou, não venha cobrar de nós. Lula e o PT, aliás, adotaram uma tática exatamente como a que você imputa a FHC: um faria campanha na periferia, outra dialogaria para a classe-média. Mas, com essa inflação e o desastre da política econômica, é melhor que a ‘outra’ não se empolgue muito com a acolhida. Nem dos mais pobres, aliás, pois cortou verba de programas assistenciais)

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