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Rui Falcão e as contradições do mensalão

A quantidade de contradições que a militância petista tem conseguido proferir com a proximidade do julgamento do maior escândalo de corrupção da história brasileira (pródiga em escândalos de corrupção de proporções hecatômbicas) anda revelando mais sobre os fatos que prometem ser julgados a partir dessa semana do que o próprio STF.

O presidente do PT Rui Falcão, que já chamou o mensalão de “farsa”, preferiu uma nova tática: chamar o mensalão agora apenas de “Ação Penal 470”. Como nos melhores tempos do bolchevismo, a militância, como o blog Brasil 171, adotou o que o Partidão mandou.

Em novo vídeo transmitido no Youtube, Falcão diz que a Ação Penal “incluiu alguns militantes do PT, injustamente acusados por crimes cuja comprovação não se sustenta na longa denúncia da Procuradoria”. Coisa estranha: se não há comprovação, estamos vivendo em algo bem próximo de um Estado policial totalitário, bem típico daqueles que os “companheiros” tentaram implantar no Brasil.

Negando as acusações com base no bordão “já está mais do que provado” (como define o maior filósofo do séc. XX, Falcão – não este petista, o músico –, “está provado por a+b que a+b não prova nada”), Rui Falcão (o petista, não o músico) fala que “os repasses de recursos destinados a pagar despesas de campanha de diretórios do PT e de partidos aliados não guardavam relação com apoio a projetos do governo”. A velha tática do “eram apenas despesas não-contabilizadas”. O problema é que, apesar de ser um “crime menor” e de não ganhar apelido próprio, isso ainda não deixa de ser um crime bastante anti-democrático – ou como chamar o poderio financeiro garantido por dominação partidária no Congresso para ajudar na eleição de apaniguados?

Rui Falcão completa: “aliás, alguns dos projetos foram aprovados com votos da oposição – fica claro portanto que não houve o chamado mensalão”. No Fla-Flu imaginário dos líderes petistas (em que eles são A Verdade e qualquer outro seja apenas um inimigo, como se o PT tivesse apenas um inimigo), se um deputado da oposição vota por um projeto, fica provado que os petistas que ajudaram no voto são definitivamente uma falange de anjos devotados e martirizados em nome da causa da República, seres de correção moral escorreita, que atingiram à perfeição o ponto eqüidistante entre a bondade pura e a absoluta humildade abnegada.

Afinal, só existe “o PT” e “a oposição”, duas massas homogêneas e integralmente antagônicas: onde uma votará por um Sim, a outra, em sua inteireza, votará inevitavelmente por um Não. Após tal pronunciamento de Rui Falcão, fica claro que podemos apenas definir quantos % cada uma das duas únicas formas de pensamento político metafisicamente possíveis no Brasil têm de aprovação popular, dissolver o Congresso e deixar que cada partido dê seu voto com base nessa porcentagem. O partido com mais % ganha todas, e os outros se calam. O Congresso e seus salários saem muito caro. Melhor decidir tudo na porrinha.

Falcão também afirma que “não houve da parte dos petistas denunciados qualquer utilização de recursos públicos, nem de recursos ilícitos. Foram empréstimos contraídos junto a bancos privados e que já foram quitados pelo partido”. Estranho: o próprio Marcos Valério, através de sua antiga empresa SMP&B, moveu contra o PT processo por dívida que atribui a Delúbio Soares, outro réu do escândalo. O banco financiador ser público ou privado não garante isonomia alguma aos atos, conforme informações da Agênca Estado:

Em ação que corre na Justiça do Distrito Federal desde 2005, o Diretório Nacional do PT afirmou que o ex-tesoureiro Delúbio Soares não tinha “poderes estatutários” para contrair empréstimos em nome do partido. A manifestação do PT ocorreu em processo movido pela SMP&B Comunicação, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, pela Graffiti Participações e pela Rogério Lanza Tolentino & Associados.

A SMP&B foi à Justiça cobrar do PT mais de R$ 100 milhões, alegando que o partido havia tomado empréstimos nos bancos Rural e BMG tendo a empresa como avalista. São R$ 55,9 milhões pelos empréstimos e R$ 44,1 milhões de juros, correção monetária e encargos.

 Claro que a palavra de Rui Falcão vale bem mais do que qualquer prova dos 9 na realidade tangível e concreta: para ele, “nenhum dos petistas acusados se beneficiou de qualquer recurso para fins pessoais. Da mesma forma, nenhum deles enriqueceu”. Ou seja, os recursos foram feitos, mas para benefício do partido, e não dos bolsos individuais dos companheiros. Estranho. Na realidade concreta, ambos continuam sendo tão somente uma única coisa, embora instrumentalmente possam ser ou parecer distintos. Ademais, algo que beneficie o Partido torna-se automaticamente justificado moralmente? Claro que uma mesadinha ou um desviozinho contam bem pouco: o que o próprio Zé Dirceu anda arrecando como “consultor” ensinando empresas a conseguirem contratos com o governo e o sobejante para pagar os advogados mais caros do Brasil e sair ileso. Por sinal, Márcio Thomaz Bastos deixou até de ser advogado do riquíssimo contraventor Carlinhos Cachoeira, dedicando-se agora muito mais à defesa dos mensaleiros.

Palocci, médico sanitarista, irmão do Pedro e cunhado da dona Eliana, vivia em um condomínio de prédios chamado Jardim das Pedras, no bairro Jardim Paulista (um condomínio com algumas irregularidades), bairro de classe média de Ribeirão Preto. Após se tornar prefeito, o senhor Palocci se mudou para uma casa na Lagoinha (um bairro residencial na periferia da cidade), na antiga parte nobre do bairro, salvo engano na rua Vicente Oranges. Ribeirão Preto tem uns surtos imobiliários, e isso é uma informação crucial para entender o que acontece em seguida. Palocci logo depois se mudou para o Jardim Canadá, um bairro de casas grandes para onde todos os, digamos, abastados da cidade estavam se mudando. Enquanto construía um gramadinho de R$2 milhões da rodoviária, a empresa de coleta Leão Leão se entupia de dinheiro. Em 2005 Palocci comprou Hospital Ribeirânia, um dos melhores da cidade. Seu irmão é o diretor geral. Já afirmei isso em 2007, bem antes do escândalo sobre sua fortuna multiplicada por 20 (viu como é bom ler tudo em antemão por aqui?). Perto disso, é mesmo difícil concluir diferentemente de Rui Falcão: o mensalão foi mesmo uma marolinha. Em quatro anos, Palocci fez muito mais do que 20 anos de mensalão poderiam nos custar. Com o que essa turma aí enriqueceu exigiria mandar pra cadeia 90% do alto serviço público brasileiro.

Falcão conclui que “acredita” na inocência (ato falho que, em suas últimas potencialidades, faz um José Dirceu afirmar que está cada vez mais convencido de sua inocência), apesar de todas essas “provas”. E pede “solidariedade”, como há hoje um ato em “homenagem” ao ex-tesoureiro. Rui Falcão pede um “julgamento justo“, assim, com força. Espera que o STF se pronuncie “ex-clu-si-va-men-te com base nas provas dos autos”. Como se algo distinto disso pudesse ser aceitável para qualquer um.

Há de se perguntar se Falcão soltaria um vídeo tão calmo como só o mais completo desespero consegue impingir a alguém que o STF faça o óbvio quando julgar um político oposicionista.

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